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Karate: Os verdadeiros lutadores da pátria

Karate: Os verdadeiros lutadores da pátria

Para introduzir os nossos heróis da pátria, convidamos o leitor a um exercício mental após o qual deverá ser capaz de dizer quais foram os primeiros moçambicanos a conquistar uma medalha aquando dos Jogos Africanos, cuja anfitriã foi a cidade de Maputo. Mais uma vez, a sua heroicidade foi posta à prova e, só para não variar, voltaram a orgulhar o país. É da nossa triunfante selecção de Karate que estamos a falar.

A selecção nacional participou no dia 30 de Junho no Campeonato Africano de Karate da Zona VI na cidade de Gaberone, Botswana. Foi um evento que contou com a participação de cerca de 600 karatecas em representação de sete países da região austral de África.

Moçambique, cuja comitiva era composta por 10 atletas, conquistou um total de 15 medalhas das quais quatro de ouro, duas de prata e as restantes de bronze.

Contudo, nem tudo correu da melhor forma como se pode cogitar. Aliás, nem o aspecto competitivo foi tão fácil a ponto de o país acumular medalhas, apesar de já ser conhecido como uma potência da modalidade a nível mundial.

Mas antes de narrar o que sucedeu com os nossos verdadeiros heróis, o autor deste artigo não resiste em explanar a situação por que também passou para encontrá-los.

Confirmado o regresso a Maputo, a nossa equipa de reportagem dirigiu-se ao Aeroporto Internacional de Moçambique com o objectivo de receber os atletas, que regressavam de Gaberone, onde estiveram a representar o país no Campeonato Africano de Karate da Zona VI. Mas debalde! Foram longas as horas sem vestígios da chegada de seja lá qual fosse da delegação desportiva. Afinal foi por terra que a selecção nacional viajou para Gaberone.

A ida a Gaberone

Numa altura em que o país recupera da ressaca do infrutífero e financeiramente chorudo estágio dos Mambas na Alemanha, supostamente para atacar a fase de qualificação para o Campeonato Mundial de Futebol e o não distante Africano da mesma modalidade, a selecção nacional de Karate que representou e orgulhou o país numa competição regional, deslocou-se de Maputo à cidade de Gaberone e vice-versa, por via terrestre numa viagem que teve a duração de pouco mais de 14 horas.

O autocarro usado não fugiu à regra: um mini-bus de 15 lugares, submetendo os atletas que carregavam um país nas costas a todos os riscos que assombram as nossas estradas.

Em Gaberone

Por uma questão burocrática estritamente ligada a vistos e passaportes, à selecção nacional só foi possível viajar um dia antes da realização dos jogos, o que fez com que chegasse à capital de Botswana por volta das 22h30.

O cansaço era assombroso mas, apesar disso, tiveram de acordar às primeiras horas do dia seguinte para realizarem a primeira sessão de treinos. Não havia campo em condições e a única solução foi uma sala gentilmente cedida pelo hotel.

E não foi tudo. Chegada a hora de ver o plano de competição, a delegação moçambicana notou que o nome de três karatecas seus não constava na lista e isso fez com que outro processo burocrático surgisse, o que custou aos moçambicanos várias horas por algo irrelevante. Afinal o erro era meramente da comissão organizadora do evento.

Vencido o embaraço, outro surgiu: o recinto onde decorria a competição esteve a saque tendo vários utensílios sido surripiados, com destaque para o equipamento de combate e uma máquina fotográfica. O único equipamento devolvido consistia nos fatos de treino usados pela delegação.

“Nós é que custeámos tudo: viagem e equipamento”

Após os Jogos Africanos de 2011, todo o equipamento de combate usado pelos atletas da selecção nacional foi, por ordem do Ministério da Juventude e Desportos, devolvido à Federação Moçambicana de Karate alegadamente para ser conservado e para servir em futuros eventos.

Todavia, a competição de Gaberone não foi para a Federação uma “situação futura”. Os atletas utilizaram equipamento de treino adquirido por eles próprios. As vestes completas de um Karateca apto para o combate chegam a custar cerca de 500 euros (aproximadamente 20 mil meticais) que, por amor ao desporto, os atletas são obrigados a comprar para poder representar um país.

Para a viagem, a desculpa da Federação Moçambicana da modalidade para a situação a que estiveram expostos os nossos heróis do Karate foi a de sempre em Moçambique: falta de fundos, apoios e patrocínios.

E foi mesmo por não disporem de meios financeiros que alguns dos nossos atletas tiveram de arcar com despesas decorrentes dessa frutífera deslocação e ainda serem sujeitos a uma humilhação: 550 meticais de pocket money.

Num futuro próximo, estes mesmos atletas marginalizados vão participar no Campeonato Africano e do Mundial de Karate, uma missão impossível para os Mambas. Mas até lá quem se vai lembrar destes verdadeiros heróis? O futuro encarregar-se-á de nos responder.

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