Para continuarmos  a fazer jornalismo independente dos políticos e da vontade dos anunciantes o @Verdade passou a ter um preço.

Publicidade

Jovens “detidos” por militares na Beira; populares revoltam-se; Polícia mata adolescente

Jovens “detidos” por militares na Beira; populares revoltam-se; Polícia mata adolescente

Desde a segunda-feira (25) vários jovens maiores de 18 anos, de ambos os sexos, foram abordados nas ruas, mercados e até nas suas residências na cidade da Beira e levados por membros das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) e outros agentes militares, muitos à paisana, alegadamente para serem incorporados nas fileiras do exército moçambicano. @Verdade recebeu centenas de relatos de cidadãos que viram os seus amigos, familiares e jovens desconhecidos a serem levados por estas “brigadas” que após a abordarem os jovens levaram-nos à força em viaturas para instalações militares não identificadas.

O nosso jornalista na capital da província central de Sofala falou com vários cidadãos que presenciaram nesta quarta-feira, no bairro da Manga, na zona da vila Massane, o “recrutamento” compulsivo de dezenas de jovens. A mesma acção foi desencadeada na Praia Nova e no bairro de Macurungo.

Foi possível averiguar que outros jovens foram compulsivamente levados do bairro de Maquinio, concretamente nas proximidades do mercado. Esta operação tende a estender-se para além do município da Beira, havendo registo de jovens “recrutados” nos postos administrativos de Tica e Mafambisse.

Na Universidade Unizambeze, localizada no bairro de Matacuane, também foram vistas duas carrinhas de caixa aberta, uma identificada como sendo dos CFM, com pessoas a paisana que pararam defronte da Instituição de Ensino Superior e abordaram alguns jovens que se encontravam no pátio.

{youtube}VvI3VibShkE{/youtube}

As “brigadas” encarregues do recrutamento até mandaram parar viaturas na via pública para deter jovens mesmo sem informarem dos objectivos da operação e nem permitem que os “recrutados” informem aos seus parentes sobre o acontecido.

Na sequência destas “detenções”, muitos jovens não saíram para os seus afazeres habituais nesta quarta-feira. Foi possível aperceber-se duma calma anormal nos mercados do Goto, da Praia Nova e do Maquinino, onde milhares de jovens procuram ganhar o pão todos os dias em negócios informais. O comércio formal também parou na cidade capital de Sofala.

Ministério da Defesa desmente

Em comunicado, o Ministério da Defesa desmente o recrutamento militar compulsivo. “Não constitui verdade que o Ministério da Defesa Nacional ou outras Forças de Defesa e Segurança estão a fazer o recrutamento militar compulsivo para o cumprimento do serviço militar, trata-se de boato visando desacreditar o cumprimento deste dever sagrado para com a pátria pelo jovem”.

Segundo o referido comunicado, assinado pela chefe de gabinete do ministro da Defesa de Moçambique, Amelta José Matavel Muiquija, “o Ministério da Defesa Nacional apela a todos os jovens que se sentirem coagidos ou obrigados a ir para o Serviço Militar a dirigirem-se aos Centros Provinciais de Recrutamento e Mobilização ou as forças de lei e ordem públicas locais da sua província a fim de denunciar.”

Contudo, o facto é que os relatos de jovens a serem recrutados compulsivamente confirmam-se. Refira-se que de acordo com a Lei do Serviço Militar, “Todos os cidadãos moçambicanos dos 18 aos 35 anos de idade estão sujeitos ao dever de prestação de serviço militar e ao cumprimento das obrigações militares dele decorrentes.” Este ano o período oficial do Recenseamento Militar decorreu entre 2 de Janeiro e 28 de Fevereiro.

Jovens revoltam-se

Inconformados com este recrutamento que viram acontecer com os seus conhecidos e parentes, e temendo pela sua eventual detenção, centenas de jovens armaram-se com paus, pedras, garrafas de vidro e catanas e revoltaram-se contra os militares e as “brigadas” que estavam a fazer o recrutamento compulsivo.

Depois de se organizarem, nos bairros da Munhava, Manga e Matacuane, os jovens decidiram manifestar-se defronte do Governo Provincial. Contudo, foram barrados por agentes das Forças de Intervenção Rápida (FIR) e da Polícia da República de Moçambique (PRM) na Estrada Nacional nº6 (EN6), que dá acesso ao coração da cidade da Beira.

Para conter a fúria dos manifestantes, os agentes das FIR e da PRM dispararam gás lacrimogéneo, balas de borracha e balas reais. Alguns sectores da EN6, na zona de Inhamízua, estiveram condicionados ao trânsito de automóveis devido à colocação de caixotes de lixo, pneus a arderem e outros objectos na via. As ruas Krusse Gomes e 33 também estiveram barricadas, assim como a avenida Eduardo Mondlane.

No seguimento dos tiros de balas reais disparados pelos agentes da Polícia, um adolescente, aparentemente de 12 anos, foi baleado mortalmente na cabeça e na região do abdómen, no bairro da Munhava.

Entretanto nesta quinta-feira o Hospital Central da Beira confirmou a entrada de 34 feridos, seis dos quais em estado grave. Dois outros feridos perderam a vida em consequência dos ferimentos de balas contraídos nos confrontos entre populares e a polícia.

Moçambique vive uma situação de guerra não declarada, envolvendo forças governamentais e homens armados alegadamente do partido Renamo, que se intensificou nos últimos meses do corrente ano com incidência nas regiões de Gorongosa e Chibabava, na província de Sofala. Apesar dos contínuos desmentidos do governo sobre o conflito, vários confrontos armados têm sido registados que resultaram em muitas baixas nas fileiras das FADM.

 

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on telegram
Telegram

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

error: Content is protected !!