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Jomalu: “20 anos de uma densa carreira musical!”

Jomalu: “20 anos de uma densa carreira musical!”

Muito recentemente, o conceituado artista moçambicano, Jomalu, realizou um dos mais nostálgicos concertos da sua carreira para um público que promete ser-lhe (eternamente) fiel. É que, em 2012, o músico celebra duas décadas de um percurso artístico denso, daí que possui razões acrescidas para fantasiar sobre a realidade: “Sou e sempre procurei ser diferente. Cresci num momento em que o trabalho era feito com muito rigor”, considera propondo-se revelar algumas razões que, na sua visão, debilitam a música moçambicana. Acompanhe…

Se por qualquer motivo alguém dissesse “Deixem os pintos crescerem…” e, por via disso, perguntar ao estimado leitor quem é o autor desta frase, o que diria? Se a sua resposta for José Manuel Luís (ou simplesmente Jomalu) então, pode-se congratular. Está correcto.

Na verdade, é com o autor desta composição que se apresenta como um artista socialmente responsável e interventivo – diante dos problemas sociais – que, há poucos dias, tivemos a oportunidade de travar conversa. Usamos como pretexto a celebração do seu 20º aniversário de percurso artístico-musical para tomar conhecimento sobre algumas peripécias que marcaram a sua caminhada.

Em relação à nossa curiosidade, ficámos a saber de que a posse de uma viola, nos anos de 1990, foi um dos factores importantes para o início da sua carreira. Na verdade, uma IDAMEZ que o seu irmão, Osvaldo Luís lhe ofertou para que a partir daí uma parte importante de condições objectivas para seguir enfrentar o desa fio de ser músico.

Para Jomalu, além de ser um instrumento musical, a violeta representava muito mais do que isso. Era uma metáfora que, em certo grau, simbolizava o apoio sempre necessário para que o artista prosseguisse de forma corajosa.

É por isso que, apesar de os tempos terem passado, as vontades de Jomalu em relação à música mantiveram-se imarcescíveis. Consolidaram-se.

E, presentemente, quando se lhe solicita para descrever aqueles anos em que, na sua opinião, o trabalho, qualquer que fosse, devia obedecer aos princípios de rigor e qualidade, Jomalu nada mais consegue dizer senão que “foram marcados por fortes emoções, entre as quais noites e manhãs de intensos momentos de composição e de dedilhadas constantemente incorrectas – o que é natural no processo de aprendizagem – que determinaram uma aparente lentidão na publicação” dos seus trabalhos discográ ficos.

O artista narra o seu percurso de forma honesta, de modo que no seu rosto não foi possível abrigar tamanha nostalgia que convergia com a fé de que melhores tempos virão para rumarem com a sua euforia na actualidade.

O outro aspecto de que Jomalu se recorda em relação àqueles anos em que a guerra dos 16 anos tornava a vida política, social e económica difícil em Moçambique é que a oferenda do seu irmão foi uma mais-valia. Caso contrário, a sua carreira, ainda em fase incipiente, podia ter sido abortada.

Não quero ser igual a ninguém

Jomalu explora um estilo de música que, apesar de de ni-la como universal, tem muito de tradicional e afro. Na verdade, além do carácter metafórico das suas composições, o seu género musical faz de si um músico diferente dos demais jovens nas lides da música moçambicana.

A par disso, o artista afi rma que não se sente solitário, antes pelo contrário, é sua intenção explorar os ritmos tradicionais para produzir música para o mundo.

Por isso, se for a reparar com atenção, perceberá que “a minha música é consumida por qualquer pessoa e em qualquer canto do mundo. Isso deve- -se à capacidade que tenho de compor e interpretar. Trata-se de um estilo que estou a cultivar, preciso de ser versátil. Ou seja, não quero ser igual a ninguém, procuro ser diferente”, diz.

É nesse contexto que, devido às semelhanças existentes entre a sua forma de interpretar com alguns artistas, o que é natural, Jomalu trabalha no sentido de se tornar (radicalmente) diferente dos demais. Como tal, inova, cria fusões de músicas tradicionais para produzir uma espécie de afro-jazz, ou afro-rock que são géneros de música explorados em todo o mundo.

De qualquer modo, “não me sinto solitário. Penso que, para as metas pré- -estabelecidas por mim na minha carreira, tenho tido muita aceitação. Não posso mudar de postura porque estou a seguir um sonho. Sempre fui fi el ao estilo de música que decidi fazer”, refere para num outro desenvolvimento considerar que “posso dizer que me sinto desamparado, em relação a algumas entidades que ainda não percebem o meu estilo e a dimensão do que estou a fazer. E às vezes quando preciso torna-se difícil ter o apoio”.

De qualquer maneira, “algumas organizações já começaram a compreender a luta que sempre travei, por isso, sinto que está a chegar o tempo em que eu, como artista, estou a ser compreendido”.

A música (ainda é mal feita) em Moçambique

Além da fusão de diversos ritmos e géneros musicais, as composições musicais do nosso interlocutor são caracterizadas pela existência de muita poeticidade, o que imediatamente as torna difíceis em termos de compreensão por parte dos ouvintes. Questionámos a Jomalu sobre se tais aspectos não difi cultam a compreensão da sua mensagem entre os seus grupos de interesse.

Para o artista, captar a atenção dos ouvintes das suas músicas é uma preocupação central. Foi nesse contexto que o artista começou a fantasiar sobre a vida social moçambicana na medida em que considera que “cresci num tempo em que, no meu país, o trabalho era feito com muito rigor, por isso, sou muito rigoroso. Tenho muita garra e não faço um trabalho banal”.

Ou seja, “sempre procurei realizar um trabalho completo, o que faz com que eu tenha de ensaiar muito, compondo letras com muita qualidade na mensagem. A minha escrita não é denotativa, o que não inibe a compreensão da mensagem”, considera.

No entanto, “devo convir que a poesia está presente em quase todas as minhas composições. A nal, “eu faço composições que exigem um esforço adicional por parte do receptor, para que possa decifrar a mensagem. E mais, “a linguagem melódica e rítmica das minhas músicas encanta o receptor. O que me preocupa é que no campo da composição musical a situação ainda é muito crítica em Moçambique”.

É por essa razão que quando se colocam dez artistas no mesmo espaço, para comparar as suas composições, “nota-se que há uma tremenda semelhança em termos de conteúdo e melodia. As letras versam quase sobre os mesmos temas e da mesma maneira. Ora, paradoxalmente a isso, eu procuro faço algo de maneira que possa ser notável no meio de muitos”, afi rma.

Levando a sua opinião ao extremo, Jomalu reitera que “tenho constatado que muitos artistas, inclusive os que estudaram música em grandes universidades, não compreendem que determinadas composições só têm enquadramento em certas melodias, o sentido inverso é válido”.

Inspirado por espaços exóticos

Únicos e especiais são as palavras que perfeitamente podem servir para classificar os momentos que encerram o nascimento das criações artísticas de Jomalu. É como o artista afi rma: “Inspiro-me em situações muito subjectivas. Gosto de estar em locais incomuns mas que possibilitam a fertilização da minha imaginação musical”.

Por exemplo, “aprecio o canto dos pássaros, a maresia, o som das ondas do mar, o ruído das águas quando se abatem nas rochas – penso que tudo isso é muito importante no momento da criação, ainda que nem sempre seja possível estar em locais com tais características”. O outro exemplo, não menos importante, é que “quando componho uma música tradicional, a inspiração aparece-me muito em espaços exóticos”.

De acordo com o cantor, a inspiração para a criação do seu primeiro trabalho discográ fico, Vidas Sem Orgasmo, derivou de espaços paisagísticos como os narrados. E isso alimenta as ambições de Jomalu que não somente se circunscrevem em relação ao espaço geográ fico moçambicano.

É que, como se pode perceber, para si, “no nosso país ainda não temos condições para artistas como eu e outros com grandes ambições para fazer a sua música prosperar. Mas eu mostro vontade de evoluir através da diversidade temática, rítmica e do género que exponho na minha música. Ou seja, faço um trabalho para que todos os cidadãos do mundo se possam identi ficar com o mesmo”.

Como viver sem orgasmo?

Partimos do princípio de que o “orgasmo”, como uma metáfora, do ponto mais alto de qualquer acção do bem, é um estágio desejado por todas as pessoas. Surpreendentemente, no trabalho discográfi co de que estamos a falar, Jomalu propõe uma vida desprovida do mesmo. É por essa razão que lhe questionámos: “Como se pode viver sem o orgasmo?”

“Eu sou um músico que propõe um trabalho muito subjectivo, o que se pode notar nas minhas composições. Interessa-me que as pessoas re flictam sobre a realidade a partir da minha música”.

De qualquer modo, “não dou nada de bandeja – e esse carácter é notável no meu trabalho artístico ao nível da mensagem”, diz acrescentado que “a tradução livre que se pode fazer em relação ao meu álbum é de que se trata de algo que nós fazemos e/ou praticamos mas que não conseguimos atingir o ponto desejado, ou seja, o auge da produção”.

Logo, “cada pessoa que recebe essa mensagem tem a missão de interpretá-la de acordo com as di ficuldades que enfrenta na vida, as quais, em certo grau, lhe inibem de prosperar da maneira como almeja”.

Socialmente paradoxal

Impressiona-nos a coerência que existe entre o discurso e algumas práticas sociais do nosso interlocutor. É que, se o estimado leitor prestar mais atenção, notará que Jomalu explora e defende os ritmos tradicionais africanos no campo da música. Essa tendência é igualmente notável inclusive na indumentária com que se apresenta na sociedade. O referido traje típico africano.

Com este gesto o artista abriga uma mensagem que emite sempre que determinado segmento social – sobretudo os seus admiradores – o imita. Mais precisamente, o artista pretende dizer à sociedade africana e moçambicana, no particular, que “não devemos fugir da nossa tradição, como muitos dizem defendê-la praticando acções que a contradizem”.

“Quero demonstrar que a tradição é algo positivo e normal. Por exemplo, eu vi na África do Sul e na Suazilândia como as pessoas se vestem e decidi comportar-me daquela maneira. É bonita. Penso que, sendo uma figura pública, essa é uma forma de despertar a sociedade sobre o facto de que nós, como africanos, temos valores culturais que devem ser defendidos.

Ou seja, no caso particular do vestuário, os nossos trajes são um verdadeiro encanto. Daí que é preciso valorizar”. Mais importante ainda, “é importante explorar a nossa cultura sob pena de desaparecer. Sinto que muitos jovens não têm a noção real da sua cultura”.

Isso é não ser músico

Para fazer jus às suas duas décadas de caminhada no campo da arte musical, Jomalu oferece uma de finição daquilo que não é ser músico. É que, para si, ser músico “não signi fica acordar numa manhã, sem nenhum precedente histórico e vocacional, e a pessoa decidir cantar. Antes pelo contrário, é preciso cultivar e semear para um dia colher”.

Na verdade, José Manuel Luís pode não ser nenhum perito sobre a música, mas possui percurso e experiência su ficiente para formular uma opinião consistente sobre a área. Na sua experimentação artística teve algumas passagens pelo teatro, canto na Igreja, e, muito antes de apostar numa carreira a solo, actuou como corista, percussionista e arrangista em algumas colectividades que exploram o canto coral.

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