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Inhambane perde mais um “pulmão”

Inhambane perde mais um “pulmão”

Daqui a pouco a palavra “preservação” vai desaparecer do nosso léxico. Ninguém se importa com ela. A cidade de Inhambane ainda é considerada a mais sossegada do mundo, a mais bela e a mais sedutora. Porém, todos esses adjectivos estão a esboroar-se, precisamente porque ainda há pessoas movidas mais pelo dinheiro do que pelo espírito. E pisam tudo aquilo que dá valor ao lado mais nobre da nossa existência. E o mais doloroso é que eles derrotam-nos sempre, mesmo sem vencerem o nosso espírito. Como agora, que esta urbe espectacular vai perder um arrebatador miradouro, para dar lugar à construção de um condomínio.

Na semana passada, em conversa telefónica com o escritor Adelino Timóteo, residente na cidade da Beira, perguntei-lhe: “Como vão os bosques da tua cidade?”. Ele respondeu-me, com voz rendida: “Já não há bosques. Destruíram tudo para construir casas”.

Adelino estava mais do que resignado, porque os bosques jamais voltarão. E revoltado com aquela selvajaria. Eu também estou revoltado, a caminho da resignação, porque no mesmo dia em que falo com o meu confrade decidi dar uma volta pela marginal da cidade que eu amo e vou amar sem fim, mesmo que a matem.

Passei pela zona da mesquita com o fim de aproveitar – uma vez mais – o miradouro ali existente e contemplar a paisagem que me alimenta a vista e a alma. Queria vero arquipélago de Mucucune a partir dali. Sentir, na minha imaginação, os cheiros da ilhota de Guilaleni. E lembrar-me, outra vez, do “Apocalipse Now” de Francis Coppola, com Marlon Brando na batuta.

O espaço do miradouro estava cavado, com profundas marcas de rodas que poderiam ser, provavelmente, de um camião de grande tonelagem. A par disso havia amontoados de pedra usa- da para construção, o que aguçou a minha curiosidade. Perguntei, a alguns jovens que se deliciavam com a saudável aragem do lugar, se sabiam algo sobre aqueles sinais. E eles disseram-me que naquele espaço iria ser erguido um condomínio pertencente a uma figura respeitável da nossa cidade.

“As marcas das rodas que o senhor vê aqui, são do camião que descarregou estas pedras”. Sendo que na regência da Administração Marítima não são permitidas construções a menos de cem metros da orla marítima, como é que foi autorizada aquela obra?

Pior ainda, num miradouro pertencente aos munícipes! Dirigi-me às autoridades competentes para colher mais dados, e o próprio administrador marítimo confirmou que sim, que há um projecto de construção de um condomínio naquele lugar. Entretanto, este responsável referiu que o expediente que autroriza as obras não é do seu conhecimento.

Soubemos ainda que o dono da obra tem um DUAT passado pelo Conselho Municipal da Cidade de Inhambane e o administrador estranhou que haja esse documento porque o miradouro pertence à Administração Marítima e não ao município. Perante esta situação, e sabido que o dono da obra está decidido a levar o seu projecto avante, aquele responsável revelou-nos que tudo o que for feito naquele espaço tem que ser com o consetimento da Administração Marítima.

“Mesmo nós, como instituição, não nos é permitido autorizar construções naquele lugar. O que podemos fazer é deixar que alguém faça um jardim, com bancos e casas de banho, e uma pastelaria para o lazer das pessoas, e não deixar que se faça um condomínio”. Entretanto, o administrador não avançou muita informação, preferindo dizer que tudo será encaminhado de acordo com as normas estabelecidas.

O farol

O miradouro “ameaçado” é um importante “pulmão” para a cidade de Inhambane. É um lugar de beleza espectacular. É uma dádiva que poderá ser retirada aos munícipes. E esse seria um profundo golpe na nossa alma. Estamos com medo que isso aconteça. Da mesma forma que aconteceu com a construção do Hotel Capitão, em que os donos foram aniquilar um espaço de paraíso que era o farol, de onde onde nos era permitido visualizar uma paisagem sem igual.

E agora só quem tem dinheiro para entrar no luxuoso hotel é que usufruiu desse direito. Aliás, em recompensa pela ocupação do farol para erguerem o Hotel Capitão, teriam dito que deixariam o mira- douro que agora também vai ser ocupado para a construção de um condomínio, em desprezo total aos munícipes.

Quer dizer, a nossa marginal está, aos poucos, a ser ocupada e ofuscada. São os mangais que crescem na baía e tornam a cidade feia, e agora é o betão que vai ombrear com as plantas. Tiraram-nos o farol e agora vão-nos tirar o miradouro. Isso é como cortarem, aos pedaços, o nosso coração. Mas a agressão não termina por aqui. Temos conhecimento de que alguém pretende – junto à ponte-cais – construir uma livraria, e outro ainda tenciona erguer obras em frente às Telecomunicações de Moçambique.

Coloquei esta informação ao administrador marítimo e o que ele respondeu é que de facto há pessoas com essas pretensões, e que já remeteram a devida papelada. “Neste momento não lhe posso dizer qual é a nossa posição porque há uma equipa de peritos que está no terreno a efectuar um estudo. Só depois disso é que podemos dar uma resposta”.

Pelo sim, pelo não

Independentemente da resposta que vier a ser dada pela Administração Marítima, a nossa posição – apoiada pelos munícipes com quem tenho falado frequentemente – é de que ninguém tem o direito de nos retirar esta beleza em benefício próprio.

Já falámos com o presidente do município de Inhambane, o ilustre e respeitável Benedito Guimino, sobre a ocupação do espaço existente ao lado do Grupo Desportivo de Inhambane, e ele respondeu-nos dizendo que as obras que haviam sido projectadas para ali estão embargadas. Respirámos de alívio quando ouvimos essas palavras, porém, até hoje ainda não retiraram as chapas que indicam o nascimento de um empreendimento.

Porquê?

Quem é que vai defender a nossa cidade dos apetites vorazes movidos pelo dinheiro? Com este andar, não admira que daqui a algum tempo vamos perder completamente a nossa marginal, como perdeu a cidade da Maxixe, que tem os “pulmões” quase sufocados, tanto do lado da entrada de Maputo, como do lado da Beira. Já não teremos o direito de contemplar o mar.

Ou seja, esse direito estará reservado aos privados e aos endinheirados. Tudo isto me faz lembrar as insultuosas palavras de um dirigente deste país que dizia, “lá em casa tinha um cão chamado deixa-falar”.

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