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Idosa paralítica suplica pela morte para se livrar do sofrimento e da rejeição

Cassuela Nhoré é uma idosa que não sabe que idade tem, mas aparenta ser octogenária. Segundo ela, ficou paralítica devido à velhice mas também por questões ligadas à tradição. Sobre este assunto, não entrou em detalhes. Vive no bairro de Murrapaniua, na Unidade Comunal 8 de Março, arredores da cidade de Nampula, junto da sua filha e do seu genro. Disse-nos que está a enfrentar momentos difíceis porque as pessoas com quem mora rejeitam-na desde que há 10 anos começou a ter problemas de locomoção. Acusam-na de feitiçaria e não lhe dão comida, por isso, implora pela morte para “descansar de vez”.

Ela afirmou que tem oito filhos mas apenas um é que cuida dela e lhe dá atenção. Os outros nem sequer querem saber da sua saúde, ou se passa fome ou não. Para além da paralisia, a sua maior preocupação é a rejeição pela família porque esta acha que ela dá trabalho.

A idosa contou ao @Verdade que a última vez que tomou banho foi em Junho do ano passado graças ao apoio de uma das suas netas, uma vez que sozinha não já consegue andar. Não veste roupa limpa desde que ficou paralítica. Alguns parentes seus encontram-se na cidade e província de Maputo, outros na vila-sede nos distritos de Ribáuè e Malema, em Nampula. Contudo, estando perto dela ou não, às vezes, tal não faz diferença porque continua a passar dificuldades.

“Em 2012 tomei banho apenas três vezes: uma em Fevereiro, a segunda em Março e a terceira em Junho quando a minha neta me visitou”.

Cassuela Nhoré disse que está também desesperada porque para se alimentar e vestir é um problema sério. A única filha que cuida dela sobrevive graças à venda de badjias (um alimento confeccionado com base no feijão nhemba), na via pública na cidade da região mais populosa de Moçambique.

Às vezes, a filha dá-lhe comida, mas, para não morrer à fome, recorre a folhas de espinafre ou de batata-doce que colhe no rio Napipine, a uma distância de aproximadamente 500 metros da sua casa. Leva entre duas e três horas para fazer o percurso porque se arrasta para lá chegar.

Nhoré afirma que precisa igualmente de cuidados médicos porque a sua saúde está debilitada mas não tem condições para ir ao hospital. Gostaria de ter amparo, porém, a família despreza-a, acusando-a de feitiçaria e de matar os seus parentes. Na sua opinião, estas são desculpas sem fundamento para não lhe darem a atenção que merece e porque a sua presença é tida como um fardo.

“Na minha vida nunca tive inveja de quem quer que seja. Por isso, ser acusada de feitiçaria sem ter feito mal a ninguém entristece-me. Se praticasse a bruxaria não seria contra os meus filhos nem familiares.

A agir dessa forma estaria a arruinar a minha própria vida. Não ando, por isso não faço nada, talvez seja por isso que me acusam”, disse a idosa.

Entretanto, no dia em que o @ Verdade se dirigiu à casa de Cassuela, uma das suas netas estava lá a lavar a roupa e a cuidar da higiene pessoal da idosa. A sua satisfação foi grande depois de meses sem banhar.

A nossa interlocutora disse que só tem três capulanas e uma blusa. A última vez que teve um cobertor foi antes de se separar do marido que, passado algum tempo, morreu, vítima de doença prolongada.

Cassuela Nhoré queixou-se igualmente da falta de respeito por parte do seu genro. Na sua casa milho, amendoim, feijões, dentre outros produtos, mas o esposo da sua filha destrói tudo, supostamente porque suja o pátio.

“A casa é minha e a filha que tenho e o seu marido, apesar de viverem comigo, violentam- me sempre. Se dependesse dele (genro) estaria morta porque ele acha que sou um incómodo por ser uma pessoa deficiente” “Quero morrer e sumir desta vida porque acho que já não tenho nenhum compromisso com a natureza, nem com a minha família. Os meus irmãos não me dão atenção”, lamentou para de seguida agradecer às netas que a têm apoiado.

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