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É preciso romper com a dependência

A Associação Bloco 4 (AB4) vive de meios próprios e não tem interesse nos fundos de combate à pobreza urbana. Tirso Sitoe, coordenador da AB4, não quer ver cortadas as “pernas” da sua associação “quando a fonte do financiamento secar”. Até porque, defende, só assim é que pode garantir a pureza dos seus ideias. Não olha com bons olhos as iniciativas de desenvolvimento local como sendo fundo de combate à pobreza urbana. Acredita que é um mecanismo de controlo ideológico. “É um forma de controlar os passos” e acções dos beneficiários.

(Jornal @Verdade) – Em que contexto surgiu a ideia para criar uma associação no distrito municipal número 4?

(Tirso Sitoe) – A ideia surge quando um grupo de jovens começou a trabalhar com música. Em 2010 decidimos realizar eventos direccionados para a cultura Hip Hop e nesses mesmos espaços desenvolvíamos uma série de debates temáticos com os ‘manos’ da comunidade no sentido de auscultar a sua visão sobre o Rap. Ainda em 2010 alguém disse-nos que devíamos criar uma associação. Foi assim que a mesma surgiu com o apoio de jovens do bairro. O Niosta fazia parte, mas à medida que o tempo foi passando ele desligou-se da associação.

(@V) – O que faz concretamente a associação?

(TS) – Nós realizamos actividades culturais ligadas à música. Criamos uma espécie de intercâmbio entre artistas do distrito municipal KaMavota que antes tinha a denominação distrito municipal número 4”, daí é que surgiu a ideia. Nós realizamos eventos culturais e agenciamos, como quem diz, os novos artistas. Fazemos pesquisas em relação às culturas juvenis de rua.

(@V) – Quantos pesquisas foram desenvolvidas pela associação?

(TS) – Temos uma pesquisa publicada e que serviu de fonte para um trabalho de final de curso de licenciatura intitulada “Comunidades Hip Hop na Cidade de Maputo”. Trabalhamos com o “Bloco Quatro” e o movimento “Irmandade” do bairro central. Na verdade são duas pesquisas, uma feita por uma cidadã finlandesa que é nossa parceira.

A importância dessa primeira é o facto de ser um olhar de fora. A segunda, feita por mim, é um olhar de dentro. A maior parte da camada juvenil identifica-se com o Hip Hop. Ou seja, essa é a sua forma de expressão por excelência. Nós pegamos estes pontos de expressão e interpretamos.

(@V) – Existe uma comunidade Hip Hop?

(TS) – Existe.

(@V) – Quais são as características identitárias dessa comunidade?

(TS) – Estas comunidades caracterizam-se, por um lado, pelos seus momentos de sociabilidade, nos quais os integrantes reúnem-se e discutem questões relativas à cultura Hip Hop e, por outro, pelo de pertença e entrega à causa dos mais fracos. Sabemos que a maior parte desses indivíduos exercem o Hip Hop como uma forma lazer, da mesma forma que alguém possa ter talento para o futebol e não viver disso. Há também a limitação geográfica do conceito comunidade.

Por exemplo, no Bloco 4 só faz parte da comunidade quem reside dentro dos limites do Distrito Municipal KhaMavota. Por outro lado, a Irmandade define-se de outra forma. Ou seja, basta partilhar dos ideias para fazer parte. Não há, portanto, uma fronteira geográfica. Na verdade, a ideia da comunidade é basicamente uma referência identitária na qual se agrega, algumas vezes, a questão de espaço.

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(@V) – Falou da forma como o Hip Hop é encarado pelos seus fazedores. Colocou de um lado os que olham para esta expressão cultural como um momento de lazer e outros que a encaram como um negócio. Como é que isto acontece?

(TS) – A diferença está no estilo de vida que as pessoas adoptam e nos objectivos que procuram alcançar. Alguns estão na comunidade porque fazer música é uma forma de reencontrar amigos e pessoas que partilham os mesmos ideias. Essas pessoas, normalmente, têm outras fontes de rendimento e, nos momentos de lazer, podem voltar a ser o que gostam de ser. Portanto, o fim desses encontros é sempre o lazer. Por outro lado, estão os que olham para o Hip Hop não só como uma forma de lazer, mas como um meio de ganhar algo.

Quando alguém produz “uma instrumental” e depois cobra por isso já está a ganhar dinheiro com o seu trabalho dentro da comunidade. Essa forma de rentabilizar o esforço faz com que surjam, dentro da comunidade, estas relações comerciais. Estas são as duas formas de estar que encontrei na comunidade. No entanto, deparamo-nos com algumas limitações para aprofundar melhor a sua natureza, isto porque as pessoas, por vezes, são incapazes de definir de que lado estão.

(@V) – O Hip Hop gera dinheiro?

(TS) – A questão de gerar dinheiro é relativa. Nas comunidades onde trabalhamos podemos afirmar que o Hip Hop não gera dinheiro, mas isso numa perspectiva de indústria musical. No entanto, há quem ganhe dinheiro com“as instrumentais”, eventos e estúdios de música. E mesmo esses têm de tirar dinheiro do bolso porque o que ganham não cobre todas as necessidades.

Missão

(@V) – Qual é a missão da Associação Bloco 4?

(TS) – Uma das nossas ideias é mudar o conceito de marginalização dos próprios indivíduos que fazem Hip Hop. Quando me refiro à marginalização falo dos outros, tendo em conta a questão de origem da própria cultura e dos estereótipos que são criados em volta dela. A nossa missão, portanto, é mudar essa forma como as pessoas olham para o Hip Hop. Outra missão passa por dar oportunidade aos novos integrantes da comunidade de se expressarem melhor. Nós construímos um estúdio de gravação e eles registam as suas obras lá. Futuramente teremos uma oficina de aprendizagem e produção de vídeos. A ideia é que as pessoas que saiam formadas dessas oficinas tenham ferramentas para ganhar o seu próprio dinheiro. Até porque, regra geral, trata-se de indivíduos que não sabem fazer outra coisa que não seja música.

(@V) – Os estereótipos em volta do Hip Hop giram em torno da qualificação da mensagem veiculada que, para muitos, é violenta, machista e intolerante.

(TS) – Olhando para a mensagem veiculada na comunidade Hip Hop maputense há um pouco de tudo. Os estereótipos derivam do facto de as pessoas desconhecerem o Rap e até de o confundirem com outras coisas. Os mc’s falam muito das suas vivências, os seus anseios e aquilo que ouvem.

Há um ponto interessante, os mc’s não são agentes passivos de informação. Olham para a realidade de uma forma crítica e procuram mudar o meio circundante. Observamos isto na “Irmandade”, através dos espectáculos beneficentes eles recolheram material escolar, vestuário e produtos alimentares não perecíveis, os quais foram doados aos mais necessitados.

(@V) – A associação desenvolve algum trabalho nessa perspectiva?

(TS) – Sim. Neste momento estamos a trabalhar com o orfanato Centro Criança Feliz. Nós apoiamos o centro com aquilo que conseguimos amealhar com as actividades culturais que realizamos. Esse é o nosso contributo. Ou seja, todas AS doações que recebemos são canalizadas para esse espaço.

(@V) – Qual é a visão da AB4 em relação à situação política, económica e social?

(TS) – Nós temos um ambiente favorável para criar esses pequenos movimentos associativos, mas essas associação são dependentes. Quem vive numa relação de dependência fica sem pernas para andar quando a fonte de financiamento seca. Mas isso é o mesmo que se vive no país.

O nosso sistema de governação também é dependente de doadores. Sempre que as doações reduzem ficamos de pernas para o ar. Até parece que não existem outras soluções, o que não é verdade. Nós podemos trabalhar sem financiamento. Nós estamos a trabalhar com meios próprios. Temos algumas parcerias que criamos ao longo do trabalho, mas isso não é financiamento.

Acho que assim é mais fácil andar e não perder de vista os ideias que nos norteiam. Estamos dependentes, mas não de uma forma hierárquica do estilo chefe/empregado. É preciso começarmos a romper com essa questão de dependência hierárquica e procurarmos formas de andar sozinhos.

Erros da governação

(@V) – O que está errado com o nosso tipo de governação?

(TS) – Várias coisas, mas posso avançar um exemplo. As políticas traçadas para a cultura são um caos. Repare que temos um Instituto Superior de Comunicação e Arte. Nós acreditávamos que a existência dessa instituição estivesse virada para os artistas que nós temos. Há homens com obras e que precisam de um conhecimento adicional. Não no sentido de lhes ensinar o que é arte, mas sistematizando a arte que eles são e fazem.

Esses indivíduos, muitas vezes, sabem fazer música mas não são capazes de comercializá-la. Porque não dotá-los de ferramentas de marketing? Quantos artistas trabalham com o Ministério da Cultura? Quantos são chamados para ajudar a traçar políticas de acção? Acontece tudo com os artistas à margem. As pessoas não podem ser chamadas para serem exibidas aos doadores.

(@V) – Qual é o contributo a AB4 para mudar a mentalidade actual?

(TS) – Realizamos alguns workshops e procuramos trazer as experiências de outros pontos do mundo. Temos uma representante no Brasil, a Tamires Santana, que traz aquilo que se passa nas comunidades pobres do país dela. Nós colhemos aquilo que julgamos interessante e possível de adoptar em Moçambique. Na verdade, procuramos fazer as coisas. Não ficamos em casa e não nos deixamos abater pelo conformismo.

(@V) – Nos dias que correm os jovens acreditam no Rap?

(TS) – Sim. Grande parte da camada juvenil está ligada, de uma ou outra forma, ao Rap. A Internet também contribui para a sua forte disseminação. Mas o que é importante reflectir é até que ponto essa música é boa. Temos quantidade ou qualidade. Quando digo qualidade não me refiro ao aspecto sonoro das músicas, mas ao seu conteúdo e contributo para o despertar de consciências. Ou seja, a qualidade do discurso. Será que o discurso é repetitivo? Será que há necessidade de quebrar a continuidade para entrar na descontinuidade?

(@V) – Qual é o futuro do Rap?

(TS) – Não sou futurista.

(@V) – Qual é o presente? (

TS) – É aquilo que estamos a ver: menos qualidade e maior quantidade. É preciso cultivar hoje para podermos colher amanhã. No entanto, não se tem cultivado com muito rigor.

Subúrbio vs cidade

(@V) – Existe um debate dentro da comunidade Hip Hop entre o subúrbio e a cidade em torno dos representantes reais do estilo. Qual é a motivação?

(TS) – Durante a pesquisa, o que registámos é que temos uma cultura Hip Hop que começa na cidade e gradualmente atinge o subúrbio. Se começa na cidade quem faz os programas radiofónicos? Quem faz os programas televisivos? Obviamente que são os indivíduos que residem na cidade. Se estes indivíduos criam uma espécie de elite levantam fronteiras contra os que residem no subúrbio.

Essa delimitação e vedação de acessos aos espaços de divulgação geram essa discriminação. Um jovem do subúrbio só poderia ter acesso ao Hip Hop Time se tivesse um amigo no centro da urbe. Tinha de ser amigo de um Azagaia para ser ouvido. O pior é que não podia dizer que venho de um bairro periférico. Só depois de firmar o meu nome no movimento é que podia revelar as minhas origens. Outro aspecto tem a ver com o facto de uns dizerem que o Hip Hop de verdade está em lugares específicos.

Uns dizem que reside na Matola, outros no Bloco4, Malhangalene, etc. É bom pensar desse modo até certo ponto. Isso ajuda-nos a olhar para a questão da diversidade. Há muitas comunidades e ou bairros que tentam afirmar o seu Eu num determinado espaço. Se o tentam fazer é porque temos diversidade. O que se pretende, na verdade, é a diversidade. Podemos encontrar indivíduos que pensam desse forma em todos os espaços da província e cidade de Maputo.

(@V) – A natureza do Hip Hop, de certa forma, é procurar combater as elites estabelecidas. Essa “guerra” entre a chapa de zinco e o betão armado não está assente nisso?

(TS) – A natureza é essa, mas há algo que podemos tomar em conta. Parte desses indivíduos que inicialmente combatiam essa elite criaram canais alternativos e já não dependem dela. Têm programas radiofónicos próprios em rádios comunitárias. Há, neste momento, um movimento inverso. A tal elite é que vai atrás dos indivíduos que estão no subúrbio. Isso porque os suburbanos, querendo ou não, têm maior expressão e reconhecimento nas massas do que os indivíduos que estão na cidade. Na cidade é tudo a mesma coisa. No subúrbio até pode haver homogeneidade, mas há muita diversidade.

Rap consciente

(@V) – O que é isso de Rap consciente e até que ponto os “rappers” são, de facto, conscientes?

(TS) – Essa é uma questão pertinente. É preciso saber o que é isso de Rap consciente. Eu precisaria de ser psicólogo para dizer que são conscientes ou não. Por isso prefiro olhar mais para aquilo que são os seus actos, questões de representação e práticas. Até que ponto estão fora daquilo que é o padrão estipulado pelo olhar dos outros. Há pessoas que escrevem e guardam as letras das músicas nas gavetas.

Isso por causa das limitações impostas pelo facto de estarem ligados ao funcionalismo público. Mas estes indivíduos quando estão no meio dos fazedores de Hip Hop libertam-se. Não deixaram de ser conscientes, mas vivem numa sociedade que julga e mede a liberdade de expressão com uma régua.

(@V) – O Rap é uma ameaça ao poder?

(TS) – Tudo o que é um movimento novo ou desconhecido é uma ameaça. Tudo o que está fora do controlo do poder é uma ameaça muito clara. Ou seja, tudo aquilo que escapa ao sistema de censura é uma ameaça. Portanto, nessa perspectiva, o Rap é uma ameaça e pode constituir um movimento de mudança desde que ao discurso seja aliada a prática.

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