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Homenageado jornalista que era a voz do povo

Homenageado jornalista que era a voz do povo

A Avenida Mártires da Machava, no centro de Maputo, não fechou ou trânsito ao final da tarde de segunda-feira, dia 22, mas os carros que nela circulavam, sobretudo no primeiro quarteirão para quem vem da Mao Tse Tung, tiveram que fazer uma ginástica considerável para passar.

A razão deste “aperto” foi a homenagem que familiares e amigos de Carlos Cardoso, o jornalista barbaramente assassinado precisamente neste local há dez anos – 22 de Novembro de 2000 –, prestaram ao esposo, pai, filho, irmão e amigo.

Numa t-shirt envergada por um anónimo em cima lia-se: ‘Cardoso Vive’, ao baixo ‘Herói do Povo’, ao centro a silhueta do jornalista numa fotografia que, tal como a de Che Guevara, já se tornou um ícone para os defensores das causas nobres pelas quais o jornalista foi morto. No muro em frente está escrito: ‘Carlos Cardoso Vive’, como na Nicarágua, nos anos 80’, Sandino “viveu”, ou ressuscitou, 40 anos depois de morrer. Num pedestal, inscrito na pedra, uma das máximas sempre presentes quando se fala de Cardoso: ‘No ofício da verdade é proibido pôr algemas nas palavras’.

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Aliás, a palavra verdade e Cardoso casaram até a primeira ficar viúva naquele início de noite do dia 22 de Novembro de 2000. “Este sítio é um lugar sobre a vida dele”, começou por dizer, num português titubeante, a norueguesa Nina Berg, a viúva de Carlos Cardoso. E acrescentou: “O Carlos sempre disse que não havia nenhum jornalista completamente isento ou objectivo. Para ele, o jornalismo era um meio de luta contra a injustiça, de luta para melhorar as condições de vida do povo moçambicano. É isto que hoje queremos celebrar e lembrar o Carlos sempre assim.”

Depois, “porque o Carlos era também membro do município, como disse Nina, Ricardo, da coligação “Juntos pela Cidade”, à qual o jornalista pertenceu, leu uma mensagem. “Em vida lutou pelos mais fracos e desfavorecidos, foi a voz dos que não tinham voz, à qual os cobardes tiraram do nosso convívio”, afirmou o porta-voz Ricardo. “Homens como Carlos Cardoso não morrem. Ele apenas se ausentou do nosso convívio. Cardoso partiu mas não nos deixou porque nos ensinou o que era a igualdade, fraternidade, justiça social.

Gente humilde e respeitosa encontrava no Carlos Cardoso carinho, compreensão, por isso o sentimento de gratidão estará sempre vivo. Pode ter sido, por vezes, desagradável para quem era poder instituído mas o seu objectivo era desenvolver a cidade. Estamos aqui hoje para recordar o homem de Maputo.”

Depois foi a vez de elementos do grupo de teatro Mutumbela Gogo declamarem poesia de intervenção, daquela que ninguém consegue calar, ao que se seguiu um dos momentos altos da homenagem quando o filho, Ibo Cardoso, interpretou com a sua guitarra o tema ‘Brothers’.

Respirar Verdade

Por fim, o escritor Mia Couto acercou-se do microfone para dizer algumas palavras. Num tom poético, disse: “Muitas vezes perguntamos a nós próprios: – Será que o Carlos Cardoso queria isto? Conhecendo o Cardoso posso dizer-vos que provavelmente não queria. Carlos Cardoso era muito difícil de entender nesse sentido porque ao mesmo tempo ele queria tudo, e queira tudo já, mas não queria nada para ele. Por isso pareceu-nos que a melhor maneira de lhe prestar uma homenagem era construir qualquer coisa que fosse vista por toda a cidade, essa cidade que ele amou e pela qual deu também a sua vida. Esta construção, tão simples e tão singela, revela o que é o rosto da vida do próprio Carlos Cardoso.”

E terminou: “Há pouco estava a falar com a mãe e ela dizia-me que o Cardoso foi um menino que amava a verdade, que amava a verdade de tal maneira a ponto de odiar a mentira, e era um homem tão honesto que odiava a corrupção. Esse empenho não foi só político, de entrega a uma causa. Era a sua maneira de viver, de respirar. Acho que o que nos fica agora como legado vivo é que estamos a celebrar uma vida, é uma coisa que ninguém pode apagar. Por mais dez anos que passem esta mensagem fica, como o Cardoso que não morre, ele mesmo tinha a crença que não morreria. Ele acreditava na vida para além da morte como uma reencarnação. Ele está aqui vivo neste ajuntamento.”

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Já no fim das intervenções, Manuela Soeiro, uma das organizadoras da homenagem, informou os presentes que estavam ali dois cestos com pétalas de flores para serem espalhadas pelo “local do acidente”. Nesse instante, vindo das entranhas da multidão, uma voz clamou corrigindo: “Do acidente não, do crime.”

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