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Histórias sobre artistas plásticos em documentário

Histórias sobre artistas plásticos em documentário

Se, por um lado, em “Pfunguza” e “Eu, Mucavele”, duas obras cinematográficas recentemente apresentadas em Maputo, a Escola Nacional de Artes Visuais conseguiu imortalizar a vida e obra de Noel Langa e Estêvão Mucavele, por outro, em larga medida, os artistas não conseguem abrigar a angústia que possuem em volta dos mistérios da cristandade.

A finalidade do projecto de realização de filmes documentários, no qual se enquadram “Pfunguza”, de Noel Langa e “Eu, Mucavele” de Estêvão Mucavele, é “fornecer ao país arquivos históricos sobre os seus artistas”, bem como “promover, através de um melhor conhecimento do seu trabalho, os artistas moçambicanos”, em solo pátrio “e além-fronteiras”, conforme atestam fontes da Escola de Comunicação e Artes Visuais – ENAVE e o Centro Cultural Franco- Moçambicano, em Maputo.

Com 25 e 26 minutos, respectivamente, de duração “Pfunguza” e “Eu, Mucavele”, contam com trilhas sonoras de conceituados cantores moçambicanos, nomeadamente Chico António, Alberto Chitsondzo e Hortêncio Langa.

As obras exploram o percurso, as expectativas – goradas e frustradas –, os anseios e sonhos de dois criadores que, através de uma relação de décadas, se ligaram umbilicalmente à paleta de cores, ao pincel e à espátula, interpretando o quotidiano dos moçambicanos, elevando, assim, a sua identidade cultural como um povo.

Refira-se que consta no filme a intervenção de diversas pessoas bem entendidas na arte, uma das quais o poeta e director do Instituto Superior de Arte e Cultura, Filimone Meigos. Segundo Meigos, Noel Langa é uma “pessoa incontornável” quando se fala de arte e cultura da cidade de Maputo, sobretudo pelo facto de estar ligado umbilicalmente ao bairro indígena. Para Meigos, Noel é “uma pessoa de cultura que faz e vive cultura”.

Descrevendo a actuação do Governo em relação à cultura, o escritor Marcelo Panguana afirma que “a Cultura não pode ser vista como uma prioridade de terceira categoria”. Afinal, ela “é o sol que nunca desce”. Não obstante, lamenta a falta da sensibilidade cultural, por parte dos governantes. E comprova: “Reparem, por exemplo, que nas sessões da Assembleia da República, o ministro da Cultura é o último a falar.

Quando se divide o Orçamento do Estado”, as migalhas é que se destinam à Cultura, finaliza.

Pfunguza, um antro dos deuses!

Pfunguza, que por ironia do destino é o título do documentário dedicado a Noel Langa, é o nome de uma enorme e frondosa árvore que se encontra na Fortaleza de Maputo. Com alguma adequação e tratamento tradicional, Pfunguza possui poderes afrodisíacos especialmente para os homens, conforme explica Noel Langa. Entretanto, a justifi cação da escolha da árvore para simbolizar o seu filme não se esgota nisso.

Um pouco antes de partir para Portugal, segundo Noel Langa, Ngungunhane descansou na árvore da Fortaleza – Pfunguza. Ademais, Ngungunhane, admoestou os moçambicanos que deviam trabalhar para sustentar as suas mulheres.

Na Fortaleza de Maputo, encontram- se as estátuas de Ngungunhane, António Enes e Mouzinho Albuquerque – estas duas últimas figuras representam o colonialismo português – que coabitam, pacificamente o mesmo espaço.

Às circunstâncias narradas, quando se acresce o facto de Noel Langa ter realizado, na década de ‘90, uma das mais importantes exposições da sua carreira artística na Fortaleza de Maputo, a qual pelo misticismo da árvore acabou por designar “Pfunguza”, são as mesmas que hoje fizeram com que o artista eternizasse o simbolismo e a espiritualidade atribuindo ao documentário sobre a sua vida e obra o nome da árvore.

Mistérios da cristandade que incomodam

Um aspecto comum e, por conseguinte, curioso que tanto Noel Langa como Estêvão Mucavele manifestam nas suas obras, é o cepticismo e, até certo ponto, uma descrença religiosa.

Com o primeiro a afirmar que caso “Jesus Cristo tivesse sido morto em África”, possivelmente “não teria sido sacrifi cado na cruz”. O último afi rma andar com cara de poucos amigos com Deus. Todavia, admite ter amizade com o seu filho, Jesus Cristo.

Tal situação deve-se ao facto de as “igrejas ‘exigirem’ valores monetários aos crentes”, o que na sua compreensão está errado, uma vez que, “Deus não necessita de dinheiro nenhum”.

Metalinguagem Pictórica

Com uma diversidade de espaços simbólicos, da cidade de Maputo e do país, como a catedral de Maputo, a Fortaleza de Maputo, símbolos patrióticos como a bandeira nacional, o documentário sobre Noel Langa é, igualmente, uma ocasião de aprendizagem sobre a pintura. Afinal, o mestre Langa – num claro gesto meta- linguístico – de forma didáctica, fala sobre os seus devaneios e inspirações.

Não é obra do acaso que, em última análise, apela: “Gostaria que as pessoas cultivassem o hábito de visitar as exposições e os museus. Que dialogassem mais com a arte”. Ao mesmo tempo congratula- se com o cenário actual das artes plásticas, uma vez que “a juventude pegou nas rédeas e está a cavalgar”.

Situação social de Maputo

Na verdade, além abordar Noel Langa, nascido em Mandlacaze em 1938, em Pfunguza refl ectese sobre a situação dos bairros suburbanos da cidade de Maputo, a partir do bairro Indígena, onde no Centro Cultural Arco Íris reside Langa.

Todavia, apesar de todos o problemas que deve possuir, entre os quais de saneamento e salubridade pública, o bairro Indígena é o local sobre qual, pelo facto de tê-lo visto nascer, crescer e tornar-se artista, Noel Langa em jeito de conclusão questiona: “porque não hei-de pisar e sentir a terra deste bairro?”.

Pfunguza é mais uma produção cinematográfi ca de Lionel Moulinho, jovem de 29 anos, formado em Gestão de Empresas que em 2010 se estreara na sétima arte com a longa-metragem “Ecos do Silêncio” sobre a vida e obra de João Paulo, músico e intérprete de Soul e Blues que faleceu em 2008.

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