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“Governo preocupa-se com os religiosos na época das eleições e enxurradas”

Abubacar Jamal, secretário-geral adjunto provincial do Conselho Islâmico de Moçambique (CIM) em Nampula, diz que a sociedade moçambicana está degradada moralmente, e culpa a globalização e o Governo por esse infortúnio. Acrescenta ainda que o Executivo moçambicano preocupa-se com as confissões religiosas somente quando se aproximam as eleições e durante as calamidades naturais.

@Verdade – O que é Conselho Islâmico de Moçambique?

Abubacar Jamal (AJ) – O Conselho Islâmico de Moçambique é uma organização religiosa sem fins lucrativos, dotada de personalidade jurídica e autonomia administrativa, financeira e patrimonial. A mesma foi constituída por tempo indeterminado e rege-se pelos seus estatutos e leis aplicáveis a nível do país.

@Verdade – Quais são os objectivos do CIM?

AJ – Os objectivos são vários, mas importa destacar a elevação da moral e do devido estabelecimento da igualdade, justiça entre os homens, através de divulgação dos ensinamentos do Islão, da defesa da sua aplicação correcta e integral através da promoção e desenvolvimento das massas, defesa e desenvolvimento das pessoas e morais integrados no alcorão e no hadisse.

Além disso, faz parte dos objectivos o desenvolvimento do ensinamento que concorra para o avanço integral e intelectual, moral, social e cultural das sociedades; organização e cooperação entre as instituições do ensino e também a representação no âmbito islâmico dos muçulmanos, as instituições nelas filiadas, no plano nacional e internacional.

@Verdade – Quais são as actividades que realizam?

AJ – A primeira actividade está ligada à religião islâmica, nomeadamente a promoção do dine, a elevação moral do homem, a aplicação do alcorão e sunat. Ou seja, a aplicação correcta do islão para a socialização da população, através da luz do alcorão. Também nos dedicamos à construção de mesquitas, portanto, a nível da província temos a coordenação das actividades religiosas, e o Conselho Islâmico de Moçambique tem a função de coordenar e fazer o acompanhamento em casos de conflitos.

Temos outra actividade ligada ao ensino islâmico. Dispomos de centros que funcionam a nível de alguns distritos e cidades com destaque para o Centro Cultural Abubacar Mangira nas cidades de Nampula e Angoche. Também desenvolvemos actividades em todos os 21 distritos da província de Nampula.

@Verdade – Como olha para a moral na sociedade moçambicana?

AJ – A moral está deveras degradada. E o papel fundamental do Conselho Islâmico é divulgar mais e formar mais quadros na área de conhecimento islâmico no intuito de resgatar a moral. Sabemos que mesmo nos planos do Governo, para a sua implementação, se não temos homens preparados moralmente, então os programas e as políticas acabam por fracassar na sua implementação.

Há vários males que enfermam a sociedade moçambicana. Se nós repararmos, por exemplo, na cidade de Nampula, podemos constatar que existem crimes que há 10 anos não aconteciam, mas hoje é normal. Hoje em dia, uma outra situação preocupante é a da juventude, o garante da sociedade. Como se tem dito, cada geração é uma geração e nós queremos ver essa geração de hoje a dar continuidade às actividades do Governo e religiosas deste país.

Mas, às vezes, paramos e perguntamo-nos sobre o que será desta juventude que vai dar continuidade aos destinos desta pátria. Os jovens de hoje querem ganhos imediatos, não estão preocupados em formar-se e viver de uma forma saudável. Na área de ensino, é preciso um grande esforço no sentido de os jovens continuarem a avançar, sobretudo no ensino técnico-profissional.

É necessário apostar no “saber fazer”. Encontramos hoje jovens de tenra idade envolvidos no consumo de bebidas alcoólicas e drogas. São situações lamentáveis. Em suma, a nossa moral está degradada e é responsabilidade de todas as confissões religiosas passar mensagens que vão de acordo com a sociedade, no sentido de contribuirmos para a mudança de atitude e comportamento.

@Verdade – O que o CIM tem feito no sentido de reverter esta situação?

AJ – Temos formado os jovens. Nós como Conselho Islâmico, não somente em Nampula, mas como uma organização de âmbito nacional, dispomos de alguns colégios na província de Maputo, um centro cultural islâmico e temos também teólogos que tiveram a oportunidade de estudar nos países islâmicos e outros cá em Moçambique, que estão a formar jovens.

No Centro Cultural Abubacar Mangirá, formamos 15 a 20 jovens nos cursos de língua portuguesa e Moral Islâmica, com maior destaque para a orientação teológica islâmica. Depois da formação, criamos condições para continuarem a replicar o que tiveram como ensinamento a nível dos distritos, nos centros dos ensinos e nas mesquitas. As actividades que têm sido realizadas a nível dos distritos têm por intenção a divulgação da moral, a boa convivência social entre os homens, com destaque para a luz do alcorão e o sunat.

@Verdade – Quem é culpado pela degradação moral da sociedade moçambicana?

AJ – Não sei muito bem, mas pode ter uma ligação com o passado e, por outro lado, também são os vestígios da globalização. Quando falamos da globalização, há aspectos positivos e negativos, e hoje em dia já vivemos alguns desses aspectos negativos, porém, não podemos deixar para trás as políticas governamentais que muitas vezes marginalizam os jovens e a sociedade.

A pobreza, a nudez, a fome, a falta de emprego, entre outros males podem desviar os cidadãos. A falta de auto-estima e políticas estratégicas de um Governo podem deixar o seu povo desamparado, sem caminhos e sem lei para seguir.

@Verdade – Nos centros culturais islâmicos, as raparigas são obrigadas a usar burcas, e os rapazes não. Qual é a vossa visão no que respeita à igualdade de direitos entre o homem e a mulher?

AJ – O Conselho Islâmico de Moçambique tem como um dos objectivos a divulgação da moral do homem, dotando- -o de conhecimento divino. O homem não nasce por acaso, nós temos uma missão específica aqui na terra que é louvar, venerar e divulgar o nosso Senhor. Esta é a missão primordial do homem.

Desde os séculos passados a mulher tem uma missão específica e peculiar numa sociedade. Ela deve preservar-se. Nesse sentido, o Centro Cultural Abubacar Mangirá tem um uniforme que distingue as meninas dos rapazes. As alunas vestem-se decentemente, e não deixam algumas partes de corpo expostas. Por exemplo, eu sou docente, estou numa sala e uma aluna está com todas as partes íntimas à mostra e viradas para o professor.

A concentração a partir daquele momento pode ser desviada, e é neste propósito que tentamos marcar a diferença mostrando que a mulher deve preservar-se. Na realidade, pelo sangue e carne somo iguais, mas é preciso que haja muito debate, pois quer na religião islâmica, quer nas nossas tradições, usos e costumes, há enormes diferenças.

@Verdade – Há cristãos que cumprem as regras islâmicas no centro cultural islâmico?

AJ – No princípio não era fácil, pois muitos pensavam que o nosso centro ou escola tinha a missão de evangelizar ou fazer com que as pessoas se convertam para o islão. Na verdade, não é nada disso. As pessoas devem estar bem claras de que numa religião alguém se submete por livre e espontânea vontade. Não se impõe ao indivíduo. Indo à sua pergunta: temos cristãos que estudam na nossa instituição e temos vindo a ganhar espaço na comunidade, devido à nossa maneira de viver e vestir. Na nossa escola também temos professores cristãos que chegam e encontram um ambiente favorável à sua formação.

@Verdade – Há pouco tempo assistiu-se a um braço- de-ferro entre algumas instituições por causa do uso da burca. Chegou-se a algum consenso sobre o assunto?

AJ – Eu em primeiro lugar quero lamentar a atitude do Governo ao aprovar decisões a nível central sem no entanto ouvir as partes. Este tem sido o comportamento da governação da Frelimo. Os nossos dirigentes devem ter a consciência de que para se formar um Governo os partidos políticos devem ir às eleições e também devem perceber que o Governo do dia é constituído por um partido que está no poder e, por sua vez, este partido foi eleito pelo povo.

O povo que elege é diversificado em termos religiosos, há muçulmanos, cristãos e há outros que não professam nenhuma religião e isto deve estar claro. E a outra questão é que o Governo tem como desafios incentivar a rapariga, empoderar a mulher, formar a mulher e torná-la um grande potencial numa sociedade. E para formar esta mulher temos que perceber que cada um de nós tem a sua tradição e religião, é preciso valorizar e respeitar isso.

E o que aconteceu foi que as circulares que foram assinadas tinham consequências nefastas para aquilo que são os nossos princípios que é resgatar a moral que está degradada, principalmente na mulher, por isso é que houve o braço-de-ferro. Hoje os governantes quando publicam uma lei ou circulares devem pensar nas consequências que as mesmas podem trazer numa sociedade. Nós somos muçulmanos e as nossas filhas põem lenço e roupa que cobrem todo o corpo.

No entanto, é expressamente complicado ir a uma instituição de ensino onde elas são obrigadas a usar minissaias e a tirar o lenço, por isso exigimos que o Governo aprove uma norma que não permita que alunas usem minissaias. Nos últimos tempos, fala-se da necessidade de lutar contra as doenças endémicas, nomedamente o HIV/ SIDA, as doenças de transmissão sexual, entre outras. E uma das formas de acabar com isso é usando o traje que não atente os homens.

@Verdade – Quer dizer que é também objectivo do CIM fazer com que as mulheres deixem de usar calças ou roupa curta?

AJ – Posso dizer que sim, a nossa missão é sensibilizar as mulheres de modo a pararem de usar roupa curta ou calças. Numa sociedade há uma característica específica: “o homem é homem, e a mulher é mulher”. Imagina que um dia apareça um homem a usar saia, como nos vamos sentir diante disso?

A nossa missão como religiosos é proibir as mulheres de usarem roupa curta e acredito que em todas religiões é ou devia ser assim. Como não temos o poder de impor, transmitimos esses ensinamentos e a pessoa vai avaliar e decide acatar, passando a vestir-se decentemente.

@Verdade – Mas o artigo 12 da Constituição diz que a República de Moçambique é um país laico…

AJ – Esse conceito de laicidade julgo que é muito discutível, mesmo dentro da Constituição da República há artigos que valorizam as religiões e as condutas dos moçambicanos. Em relação às políticas do dia, posso dizer que de alguma forma há liberdade religiosa, não vamos ser tão pessimistas, porque há países realmente muito complicados. O mais caricato é que como vivemos de políticas desajustadas da realidade, o Governo preocupa-se com os religiosos na época das eleições, enxurradas, entre outros males.

@Verdade – Como é que Moçambique devia ser em termos culturais, económicos, políticos e sociais?

AJ – Moçambique é um país membro da Organização das Comunidades Islâmica (OCI), e sendo membro tem tido alguns financiamentos e vantagens. Gostaríamos que fosse um Moçambique de paz, liberdade dos cidadãos, formando quadros com qualidade e internacionalmente aceites, de convívio social entre irmãos, alegria e sem pobreza.

Pena que não tenha acontecido isso devido às políticas do dia, que não dão liberdade aos seus homens. Gostaríamos que fosse um país com justiça, sem corrupção, pois neste país há muita fome, apesar das extensas terras de que dispomos. Há muita injustiça. Os investimentos correm porque é um país pacífico, mas os fundos drenados para Moçambique beneficiam um punhado de pessoas.

@Verdade – De que forma olha para o destino que é dado aos financiamentos que são alocados ao país?

AJ – É-me difícil olhar por esse lado, mas há muito trabalho que está a ser executado, com destaque para a construção do sistema de drenagem. Observamos que estão a ser bem aplicados, apesar da demora e da má qualidade de algumas obras.

Mas o que temos a reflectir é sobre a questão de melhoramento da qualidade das obras, porque não se conhece o nível de idoneidade e transparência das pessoas encarregues de gerir esses fundos. Muitas vezes, deparamos com empreiteiros que, no final, apresentam obras de má qualidade.

@Verdade – Com isso pretende dizer que há muita corrupção em Moçambique e em Nampula em particular?

AJ – Muitas vezes quando há projectos de desenvolvimento há troca de favores. Se alguém confia em mim e dá-me um metical para realizar algo e eu aplico meio metical, é óbvio que o produto final não terá qualidade. Outrossim, temos ouvido falar de desvios de fundos nos sectores da Educação, Finanças, Agricultura, entre outros, e há pessoas presas devido ao mau uso e duplicação de folhas de salários.

As eleições em Moçambique são uma farsa

@Verdade – Como é que o CIM olha para a questão dos sequestros que têm ocorrido nos últimos dias?

AJ – Esta é outra preocupação do Conselho Islâmico de Moçambique. A questão está relacionada com a deficiente articulação entre os órgãos de administração da justiça. No âmbito das suas operações, a polícia tem conseguido prender os malfeitores, porém, volvidos alguns dias, os tribunais ou as procuradorias libertam-nos, alegando falta de provas, sem, no entanto, se efectuar uma investigação que possa levar a novos contornos.

Aqueles indivíduos detidos e, posteriormente, libertos deviam ser submetidas a uma investigação, ou seja, os criminalistas especializados e com longa experiência no ramo deviam dedicar- se ao assunto. No meu entender, o Governo perdeu o controlo da criminalidade.

Outro aspecto preocupante são as elevadas somas de dinheiro envolvidos no processo de resgate das vítimas, o que dá a entender que algumas figuras do poder, ou os seus “afilhados”, fazem parte da gang, daí que não permitem uma investigação exaustiva.

@Verdade – Tem esperança de que um dia sejam neutralizados os mandantes destes raptos?

AJ – Duvido muito, porque, como disse, pode haver uma mão estranha ou “padrinhos” desses raptos, o que faz com que não haja uma resposta satisfatória. Este assunto não difere dos outros crimes, como é o caso de Cardoso, Siba-Siba Macuácua, Samora Machel, entre outros crimes hediondos.

@Verdade – Qual é a avaliação que faz da democracia e os processos eleitorais em Moçambique?

AJ – É uma farsa. As eleições são uma farsa, pois há muitos pressupostos que não dignificam os processos eleitorais, como as abstenções que têm vindo a marcar o processo eleitoral moçambicano. Gostaria de ver muita coisa mudada para o bem das comunidades.

@Verdade – Quem são os culpados pelas abstenções?

AJ – Todos os moçambicanos, principalmente os que querem que isso aconteça. Porque, apesar de tudo isso, há quem se sente à vontade com a forma como este processo eleitoral está a decorrer em Moçambique. Mas como o Conselho Islâmico de Moçambique é membro do Observatório Eleitoral, temos vindo a trabalhar no sentido de invertermos a situação.

Queremos que a paz seja uma realidade para todos os moçambicanos, pese embora muitos estejam a passar fome. Queremos que todos se sintam em paz e que todos tenham oportunidades iguais, sem distinção de cor partidária, religiosa, raça, e região do país.

@Verdade – A democracia perdurará por muito tempo em Moçambique?

AJ – Julgo que sim, mas é necessário que seja assegurada por todos os moçambicanos, do Rovuma ao Maputo e do Zumbo ao Índico. Mas o importante é que haja divisão equitativa da riqueza entre os irmãos desta nação.

@Verdade – A saída do líder da Renamo da província de Nampula para Sofala pode representar um perigo à estabilidade política do país?

AJ – Não, porque ele discute somente com o Presidente da República e o partido Frelimo, e o povo está muito distanciado disso, embora haja algumas ameaças, mas o importante é que eles dialoguem e se entendam, para o bem de todos.

@Verdade – Como olha para a situação da Educação em Moçambique?

AJ – A Educação em Moçambique está a andar de joelhos, pois há que potenciar o processo de ensino técnico-profissional, como acontecia no tempo do saudoso Samora Machel. Há muitas pessoas que não sabem o que é sentar numa cadeira para estudar devido às políticas do dia.

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