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Futsal: Um edifício em chamas

As causas, o desespero e os prejuízos da greve que atingiu o coração da selecção nacional de futsal, uma das modalidades que mais prosperou e desenvolveu no país.

Olhar para o estágio actual do futsal, depois da crise que se instalou na modalidade, é como desandar o caminho que um desporto praticado por atletas amadores percorreu nos últimos anos para dignificar um país marcado pelo insucesso na área desportiva.

Os feitos do futsal moçambicano são inegáveis. Mas o que é realmente assombroso é a forma como nos últimos quatro anos a modalidade bateu no fundo do poço. Os jogadores estão em greve porque não receberam, pela primeira vez, na história da modalidade, nenhuma espécie de ajuda de custos ao representarem o país fora de portas.

Faltam cinco dias para o arranque de uma eliminatória que pode levar o país para o Mundial da modalidade na Tailândia, mas atletas e responsáveis continuam de costas voltadas.

Sabe-se, porém, que antigas glórias da modalidade estão a treinar com os cinco atletas que “decidiram” não fazer parte da greve para o jogo do dia nove com o Marrocos. Contudo, Faruquito, considerado por muitos o melhor jogador de futsal moçambicano de todos os tempos, é um sombra errante daquilo que um dia foi. Castigado por lesões no joelho e pelo peso da idade, Faruquito não pode, de forma nenhuma, fazer os amantes da modalidade sonharem com uma qualificação. Tem, portanto, muita graça este regresso de jogadores.

Tem graça porque demostra o improviso patente na generalidade do desporto moçambicano. E, por outro lado, que os responsáveis pela modalidade não vão voltar atrás na sua decisão. O desenlance do episódio, longe de provocar a indignação dos moçambicanos, permanece um segredo guardado a sete chaves. A Comissão, antes solicita, não presta declarações, salvo algumas aparições nas páginas fechadas que discutem desporto no facebook.

Enquanto isso a selecção treina sem a sua espinha dorsal. Óscar, Carlão, Dino, Mandito, Kapa, Manucho e Russo continuam ausentes. Ramadan, Nelson, Arcanjo, Edson e Favito não deixaram de treinar e vão defender as cores do país no próximo sábado. Uma oportunidade para – Favito e Edson – somarem minutos com as cores do combinado nacional, visto que na Zâmbia ambos jogaram menos de três minutos.

Na reunião que teve lugar há duas semanas, a Comissão Nacional de Futsal informou aos atletas que não haverá ajuda de custos para qualquer deslocação. Na ocasião os atletas também ficaram a saber que foram desembolsados valores astronómicos para a deslocação ao Brasil, muito acima do que foi gasto para a partida com a Zâmbia. O grupo contestário, por sua vez, retorquiu alegando que era mais importante investir na melhoria das condições do que em competições que não acrescentam “nada ao país”. Ou seja, apenas dois atletas da (na altura) selecção nacional de futsal é que nunca tinham ido ao Brasil.

Tempos áureos

O futsal consagrou Faruquito e Mauro Sales, jogadores que punham o Pavilhão da Liga Muçulmana em pé, mas também colocou Inácio Sambo na história da modalidade como o técnico de maior sucesso. Porém, nesse período o futsal não tinha evoluído nos conceitos tácticos e de treino. Ainda assim foi a época que despertou mais paixões. Sax, Canhoto, Kileto, Madjila foram outras figuras desse tempo.

No futsal escolar um jogador marcou o seu nome com letras de ouro. Trata-se de Vling, detentor de um pé esquerdo invulgar e que encheu, por via disso, as vitrinas da Franscisco Manyanga de títulos para desespero do Colégio Kitabu e da Josina Machel. Essa geração de atletas concluiu o ensino médio e um criativo Mino organizou um torneio entre equipas provenientes de todos bairros de Maputo para que Vling e outros continuassem a mostrar a sua qualidade, uma vez que já não podiam representar as escolas.

O torneio concebido por Mino, designado Liga VIP, tinha lugar no Pavilhão dos muçulmanos. O acesso ao recinto custava 10 meticais, factor que acrescentou valor ao campeonato. As bancadas, regra geral, ficavam repletas de jovens que lutavam para encontrar os melhores lugares.

Foi, portanto, a Liga VIP que ofereceu ao Desportivo (ex-padaria Aziz) e a Liga Muçulmana um viveiro para contratação de jogadores para as suas fileiras. Al Mahid e Paradise e outras também apetrecharam as suas equipas de atletas descobertos na Liga VIP. Porém, Vling rumou para o futebol de 11 assediado por Arnaldo Salvado. Contudo, nessa altura um outro jogador brilhava por cima do generalidade. Tratava-se de Carlão, contratado por Inácio Sambo para se transformar num dos protagonistas da rivalidade entre muçulmanos e o treinador com mais títulos na modalidade.

Mandito foi a Liga Muçulmana. Óscar, Ivan Mulembwe, rumaram para a equipa de Sambo. O actual guarda-redes da selecção, Nelson, também foi descoberto na Liga VIP. Jacinto, Lucas, Luciano, entre outros. Mino, um inovador que o tempo não respeita, introduziu o campeonato de futsal feminino.

A Associação de Futsal da cidade de Maputo, mais uma vez, seguiu-lhe as pisadas e introduziu um torneio similar para o “sexo fraco”. Foi, aliás, na Liga VIP que alguns jovens foram aprimorando as suas qualidades como técnicos. Nizamo, Stam, Dário Camal e outros lideraram as equipas que disputavam os títulos femininos da Liga VIP.

A Liga VIP não só tornou o futsal moçambicano mais competitivo, mas permitiu o surgimento de equipas secundárias fortes. Al Mahid e Desportivo (antes de Inácio e da fusão com a Padaria Aziz) colocavam os históricos da modalidade em sentido, fruto dos talentos que conseguiam ir buscar ao campeonato dos fins-de-semana. Foi nessa altura que Moçambique começou a participar de torneios internacionais e tornou-se vice-campeão africano da modalidade, como também cometeu a proeza de derrotar o Egipto, equipa que não perdia há 10 anos em África.

O Benfica de Portugal, uma das melhores equipas da Europa, veio uma vez ao país para disputar um torneio com as equipas nacionais. Os portugueses bem mais avançados na modalidade anteviram anos de sucesso para o futsal moçambicano.

Depois disso veio o Africano da Líbia onde Asslam Khan foi distinguido com o galardão de melhor árbitro e Ricardo Mendes foi melhor marcador e segundo melhor jogador da prova. Eram os tempos áureos do nosso futsal que, pensava-se, fosse dar grandes voos.

A derrocada

O país está há quatro anos sem o nacional de futsal. A Liga Muçulmana, muito provavelmente pela desejo de se impor no futebol de 11, deixou a sua equipa ao deus-dará. As guerrinhas intestinais na Associação da cidade de Maputo derivadas do facto de não haver consenso na escolha do seleccionador nacional motivaram a paragem da maior prova da modalidade. Uns queriam Inácio Sambo e outros Roberval Ramos. Nunca houve entendimento a este respeito e, com isso, o futsal entrou em coma profundo.

Sem campeonato, os atletas que nem sequer eram profissionais, ficaram sem treinar e outros compenetrados nas suas actividades laborais. Inácio Sambo foi instalar-se em Chimoio onde impulsiona um campeonato de futsal e Maputo, sem uma contra-força ao poder da Liga Muçulmana, continua sem campeonato.

Nampula também conta com um campeonato regular desde 2002. Ainda assim, Moçambique não deixou de participar em certames internacionais com atletas que tinham deixado de competir regularmente. Portanto, uma selecção que fazia frente à Croácia, conseguia exibições dignas diante do Brasil, Portugal e atropelava Angola passou a averbar derrotas vergonhosas diante de adversários como a Zâmbia.

O sucesso e o reconhecimento além fronteiras devoraram o nosso futsal e os únicos que tentam fechar os olhos diante desta situação caótica são os responsáveis pela modalidade – embora não tenham sido todos. Agora, muitos que estavam dispostos a dar o benefício da dúvida ao edifício do futsal são incapazes de fazê-lo. Hoje a modalidade já não gera tanta divisão como antes: agora o que há é um repúdio generalizado.

Actualmente, uma das grandes verdades é que o futsal capitulou. A selecção nacional tem um jogo importante com o Marrocos e não estamos preparados. Eliminamos a Zâmbia e não fomos capazes de ultrapassar uma crise de atletas que exigem o que qualquer selecção que representa o país fora de portas tem direito: ajuda de custos.

Ou seja, optamos por começar de pelo tecto um edifício. O curioso é que o grande resultado conseguido na Zâmbia poderia marcar uma nova etapa para a modalidade. Ainda assim podemos, por algum acaso, conseguir a qualificação para Malásia. Mas a pergunta que muitos se colocam é se uma participação no Mundial tem maior importância do que a imagem que projectámos ao mundo.

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