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Fedo: até sempre dançarino-rei da Marrabenta!

Fedo: até sempre dançarino-rei da Marrabenta!

Se a atribuição do epíteto de Rei da Marrabenta a Dilon Djinge ou a outros artistas pode levantar contestação e polémica, como músicos, em relação a Alfredo Caliano da Silva, recém-falecido, poucos discutirão a coroa de maior dançarino daquele ritmo… e não só!

Ao laurentinos mais velhos, o apelido Caliano, traz imediatamente ao pensamento duas coisas: a Mafalala e os músculos. Isto porque “os Calianos” na década 90 criaram, no coração do já citado e populoso bairro, um ginásio que superava nos concursos de ginástica e halterofilismo o Ginásio de Lourenço Marques, dotado de melhores condições. Entraram, treinaram e dali saíram fortes, imponentes e musculados, para além do mentor – Armando Caliano, Barral, Zeca Craveirinha, Gilberto da Conceição, Isaías da Silva e muitos outros.

Mas mais do que criar homens musculados, o ginásio da Mafalala representava um local de afirmação e luta anti-colonial, uma mostra concreta de que os suburbanos, com menos meios, conseguiam melhores resultados que os “meninos bonitos” da cidade de cimento. Mas o Fedo Caliano – falecido recentemente – nado e criado no popular bairro onde Eusébio viu a luz do dia, apesar de não ter deixado – como ele dizia – de levantar algumas latinhas na sua juventude, tinha outras paixões: a dança, a ginástica, o futebol e o atletismo. Por esta ordem!

DANÇA: APTIDÃO-MÃE

ENTRE AS OUTRAS

Ginástica na Associação Africana, atletismo no Sporting, futebol no Munhuanense Azar, dança um pouco por todo o lado, preencheram a vida do Alfredo Caliano da Silva. Na Marrabenta era o rei, mas estava sempre pronto a demonstrar a sua mestria noutros ritmos. O sorriso, a simpatia e a facilidade em fazer amizades tornaram-no uma figura muito popular na capital do país. E se é verdade que as suas habilidades lhe permitiam impor-se nas suas várias paixões, foi na dança que o Fedo se afirmou como um talento nacional. Começou muito cedo – fala-se na faixa etária dos 12/13 anos – e dançou a vida toda.

E mais do que isso, deu o melhor de si na transmissão dos seus conhecimentos às novas gerações, criando escolas de dança para crianças nos bairros periféricos, sempre com a indispensável companhia e apoio da sua querida Elarne. Foram muitas as histórias de vida e de dança que conhecemos do Fedo, tantas que não caberiam nestas linhas.

E quantas mais ouvimos na residência do casal, a partir do grande número de pessoas que empreenderam uma autêntica romaria no último adeus a uma das figuras mais populares e emblemática do desporto e da dança nas últimas décadas no nosso país. É caso para se dizer, com propriedade, que quem não conheceu o Fedo não é laurentino!

Ele e a Elarne Tajú

A Marrabenta uniu-os!

A sua companheira de mais de 40 anos de vida foi, quase em permanência, o seu par na Marrabenta. Chama-se Elarne Tajú. Começou a dançar aos 8 anos e, aos 20, moça de dotes físicos “prendados”, ficou presa aos encantos do Fedo. Nem a morte dele os separou. Para isso, muito contribuiu a dança, algo que ambos executavam como ninguém. E como tudo acontecia? Nos concursos de dança, os menos dotados iam avançando, iam tentando demonstrar os seus dotes, até chegar a hora dos consagrados.

Dizia-se que o Fedo e a Elarne faziam batota, porque ensaiavam em casa. Será? A verdade é que tudo neles era harmonia, cadência de movimentos, sensualidade! Lindo, lindo, lindo! Soavam os primeiros acordes, a Elarne meneava as ancas, o Fedo fazia um compasso de espera, rodava sobre si próprio e o resto… acontecia. Eles deixavam-se conduzir pela música, com “soupless”, alheando-se de tudo e de todos.

Sem esforço, sem movimentos bruscos, com doçura! O desporto e a dança ocuparam grande parte das suas vidas, com a Mafalala – bairro que nunca abandonaram – sempre no coração. Em tempo de despedida, as palavras emocionadas da Elarne. “Não devo ficar triste, porque ele era alegre e sempre disse que não gostava que nós sofrêssemos. Vou fazer o que ele sempre fez: tentar irradiar alegria, sobretudo aos mais novos”.

Já um tanto debilitado

O último “show” foi para Guebuza

O Presidente da República, que tinha sido seu colega de escola, fazia 70 anos. Fedo já estava um tanto debilitado pelo cancro que acabou por ser a causa principal da sua morte. Porém, a um amigo de infância, não podia recusar, em data tão importante, uns passos de mestre como prenda com aquilo que ele melhor sabia fazer: a dança. O Fedo avisou ao seu amigo Armando Guebuza que as coisas não sairiam como nos velhos tempos, mas, mesmo assim, os passos de Marrabenta como prenda de aniversário ao Chefe de Estado arrancaram aplausos dos presentes, muito especialmente do aniversariante.

Munhuanense Azar

Mensagem do clube do seu coração

Deu uma grande parte da sua vida ao clube do seu bairro – o Munhuanense Azar. Na hora da despedida, eis um extracto da mensagem daquela colectividade:

Fedo

Sempre te vimos no nosso clube como um dos legítimos herdeiros daquele que, com o seu trabalho, dedicação e abnegação, deram honra, glória e dignidade ao Sporting Clube Munhuanense Azar, não só por seres filho de um dos fundadores do clube e irmão de um dos 19 presidentes que até ao momento dirigiram a nossa colectividade, mas também pelos teus feitos que em muito contribuíram para que o nome do Azar fosse levado para longe e bem alto, ultrapassando as fronteiras do bairro que te viu nascer, a nossa Mafalala.

Com efeito, nós que contigo vivemos temos bem presentes nas nossas memórias a elegância, o brio e a galhardia com que, envergando o jersey azul e preto do Azar, em representação da nossa colectividade nos torneios e campeonatos organizados pela então AFA (Associação de Futebol Africano) e pela Associação Provincial de Futebol de Lourenço Marques, desfilavas e deslumbravas a assistência com a tua forma elegante de jogar e de enfrentar os adversários, em alguns casos bem mais velhos e fortes.

Os teus movimentos, as simulações e o traquejo enchiam-nos de alegria e dignidade, por vermos o temor que em campo conseguias impor aos nossos adversários, mercê da tua habilidade e jeito que, para nós, indiscutivelmente se situavam acima da média.

Neste momento que caminhas ao encontro dos teus antepassados, curvamo-nos perante a tua imagem e memória e rogamos ao Senhor todo-poderoso que te acolha no Seu seio e te leve junto a outros azaristas que antes de ti partiram, em particular o teu pai, irmãos e todos os que contigo partilharam os bons e maus momentos do nosso clube”.

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