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Famílias queixam-se de más condições no centro de acomodação da Força do Povo

As mais de 80 famílias que vivem no centro de acomodação instalado na Escola Secundária Força do Povo, no Distrito Municipal KaMavota, em consequência da destruição das suas casas pela chuva que na semana passada assolou a capital moçambicana, queixam-se das condições deploráveis a que estão sujeitas naquele lugar.

O @Verdade visitou o centro e testemunhou in loco as lamentações daquelas famílias, que consideram caóticas as condições a que são submetidas.

Durante o período em que permanecemos no local, a acompanhar o decurso das suas vidas, as reclamações subiram de tom, sobretudo por causa da alimentação que se resume a feijão-manteiga, farinha de milho, sardinha e arroz. Não há tempero para o carril e muito menos cebola.

Quem visita naquele centro, a primeira coisa com que depara são rostos sofridos de crianças e idosos a denunciarem com a tristeza a incerteza do seu futuro. No salão onde as vítimas da chuva foram albergadas é possível ver, junto às paredes, um misto de amontoados de roupa, electrodomésticos como congeladores e televisores, utensílios de cozinha, dentre outros bens que algumas pessoais puderam salvar. Tudo está no mesmo espaço.

Enquanto uns estudam, outros, crianças dos “novos inquilinos” da Escola Secundária Força do Povo, brincam e o barulho dela interfere no decurso normal das aulas.

Bicha para as refeições

A hora das refeições é um momento de grande agitação no centro de acomodação da Escola Secundária Força do Povo. É preciso formar bicha, diga-se, longa, para ter direito a um prato de farinha acompanhada com sardinha ou então com feijão. Felizmente, as crianças têm prioridade.

Aquelas famílias reconhecem que não estão em condições de poder escolher o que comer, mas disseram-nos que a alimentação é de baixa qualidade. Às vezes, só é servida uma refeição ao dia, numa hora não fixa. Ou seja, pode ser no período da tarde ou ao princípio da noite. E o menu é sempre o mesmo.

Esta segunda-feira (21), por exemplo, a única refeição do dia foi servida por volta das 18 horas. De manhã houve só chá (água e açúcar). Quem quis comer pão teve de fazê-lo por conta própria. No dia seguinte, comeram algo às 12 horas e meia.

Dormir ao relento

O centro de acomodação da Escola Secundária Força do Povo continua a receber gente. Durante o dia há espaço para todos e tudo. Mas, na hora de dormir, o salão no qual as famílias foram albergadas fica demasiado pequeno. Por isso, algumas pessoas dormem ao relento. Os cobertores são insuficientes. “Eu cheguei há poucos dias. Não tive espaço lá dentro e passei a noite no ginásio”, contou-nos António.

Quem dorme no salão não se pode dar por satisfeito, pois deve estar atento para evitar que o seu espaço seja ocupado outrem. Uma das “artimanhas” usadas é cada um garantir que o seu lugar esteja arrumando, como se quisesse dormir, logo que amanhecer. “A partir das 17 horas vou estender a minha capulana e guarnecer o meu espaço. Se não faço isso fico sem onde me deitar”, disse Carolina Mathe.

Os utentes daquele centro de acomodação disseram também que têm o receio de contrair algumas doenças como a malária porque há muito mosquito e faltam redes mosquiteiras, principalmente para as crianças e mulheres grávidas.

As casas de banho colectivas, em particular a dos homens, estão descuidadas. Face a esta situação, pediram assistência médica ao Centro de Saúde 1 de Junho, do bairro Ferroviário, no Distrito Municipal KaMavota. Este enviou ao local 10 técnicos.

A equipa destacada para o terreno efectuou testes de malária, tensão arterial e outras doenças. Administrou vacinas aos recém-nascidos e realizou uma palestra sobre os cuidados com a alimentação e higiene.

Crianças sem aulas

Algumas crianças em idade escolar que se encontram naquele centro interromperam as aulas alegadamente porque o seu material escolar foi destruído pela chuva, a escola já fica longe e devido à fome. José Manuel é um dos petizes nessa situação. Este devia frequentar a sexta-classe na Escola Primária Completa das Mahotas.

As vítimas na primeira pessoa

Carolina Mathe, residente no bairro de Laulane, quarteirão 01, é uma das pessoas que vivem no centro de acomodação da Escola Secundária Força do Povo. Segundo as suas palavras, “a desgraça nunca vem só. Antes da chuva, já andava preocupada porque o meu marido está internado no Hospital Geral de Mavalane, em estado de coma, há um mês”.

A sua casa desabou quando ela se encontrava no centro. Porém, o seu sofrimento agravou-se naquela fatídica terça-feira. O seu filho, de sete anos de idade, morreu afogado quando regressava da Escola Primária Completa das Mahotas.

O enterro da criança só foi possível graças ao apoio de familiares e vizinhos que disponibilizaram algum dinheiro para comprar o caixão. Carolina tem outro filho, de 13 anos de idade, que estuda na mesma escola onde andava o falecido.

Há oportunistas

Celeste Massingue interpelou a nossa Reportagem e pediu para desabafar. “A minha preocupação é que já não tenho casa. Vivia com o meu marido e os meus três filhos. Agora estou sem nada. Perdi tudo”, sublinhou e acrescentou que a roupa que ela usa foi-lhe oferecida por pessoas de boa vontade.

Ela é também do bairro de Laulane. Aquando desta reportagem, o marido estava no trabalho. As crianças estão com os familiares que se ofereceram para cuid¬ar delas. A sua maior inquietação tem a ver com o oportunismo que existe durante o cadastro das pessoas que perderam as suas casas e outros bens no dia da chuva.

“Quando é para preencher as listas alguns dizem que perderam tudo quando é mentira. Aqui conhecemo-nos porque quase todos viemos do mesmo bairro e éramos vizinhos. Dessa forma, algumas pessoas conseguiram bens fornecidos pela Cruz Vermelha de Moçambique no dia em que esteve aqui no centro. Distribuiu, por exemplo, baldes e mantas, embora não tenha chegado para todos”, contou.

A nossa entrevistada informou que vendia roupas em segunda mão, vulgo “calamidades”. Os seus fardos foram todos levados pela água da chuva e não sabe por onde e nem como recomeçar. Os filhos também perderam todo o material escolar, incluindo uniforme.

A outra vítima da chuva da passada terça-feira é Hermínio Castelo. Este não quis entrar em detalhes sobre a sua vida pessoal, mas disse que perdeu duas casas, uma do tipo 3 e outra do tipo 2. O seu carro, que ficou soterrado, já não tem proveito.

Tereza Roberto é deficiente física. Ela disse-nos que a sua casa não desabou. Todavia, encontra-se no meio de uma grande cratera. Alguns bens pessoais ainda estão lá.

Ninguém tem coragem de ir buscá-las. Podia fazê-lo pessoalmente mas o seu estado físico não lho permite. Ela tem um filho de sete anos, que estuda na Escola Primária 10 de Novembro.

A criança perdeu também todo o material escolar. Os amigos solidarizaram-se com ele, tendo-lhe oferecido calças do conjunto que constitui o uniforme, enquanto aguarda pela camisa.

Tantas horas sem ocupação…

Segundo os nossos entrevistados, o tempo naquele centro passa lentamente para a maior parte das pessoas. Esta sensação deve-se ao facto de não haver nenhuma ocupação para quem quer que seja.

É só acordar, comer e dormir. Todos evitam sair do centro uma vez que a qualquer altura do dia pode haver necessidade de actualizar as listas referentes aos que devem receber ajuda.

Entretanto, como forma matar o ócio, foram criadas equipas de trabalho com funções devidamente determinadas.

Há, por exemplo, um grupo responsável pela limpeza do quintal, outro para velar pelas casas de banho e um terceiro para cozinhar.

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