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Familiares buscam corpos após distúrbios na Nigéria

Aproveitando um intervalo no toque de recolher no norte da Nigéria, moradores foram na quarta-feira a necrotérios procurar corpos de parentes e amigos que podem ter sido mortos nos distúrbios pós-eleitorais desta semana, que já deixaram pelo menos cem vítimas fatais no norte do país.

O ex-governante militar Muhammadu Buhari, que era candidato a presidente, acusou o Partido Democrático Popular (PDP) de conspirar com autoridades eleitorais para fraudar resultados favoráveis ao presidente Goodluck Jonathan, reeleito no domingo. O norte da Nigéria, uma região de maioria muçulmana, é o principal reduto de Buhari. “Os que manipularam as eleições são responsáveis pela ação espontânea das pessoas em algumas partes do país”, disse Buhari a jornalistas na sua residência, em Abuja, a capital da Nigéria.

Observadores estrangeiros dizem, no entanto, que essa foi a eleição mais limpa em várias décadas na Nigéria, o país mais populoso da África, com uma longa tradição em fraudes eleitorais. A violência diminuiu nos últimos dias, graças à imposição de toques de recolher e à forte presença militar em diversas cidades.

O governo diz que os incidentes foram “não-provocados e premeditados.” Desde o anúncio da reeleição de Jonathan, pessoas apontadas como apoiadoras do partido governista foram mortas a punhaladas, golpes de facão e tiros por jovens seguidores de Buhari no norte da Nigéria. Igrejas, mesquitas, casas e lojas foram incendiadas.

As casas mortuárias ficaram lotadas. “Meu irmão saiu para trabalhar na segunda-feira de manhã, e não voltou para casa desde então”, disse Austin John, de 23 anos, que aproveitou um intervalo no toque de recolher para ir de necrotério em necrotério à procura do irmão, sem sucesso. “Não sei o que eu vou dizer à nossa mãe”, afirmou.

Outra casa mortuária em Kaduna tinha 20 cadáveres em seus frigoríficos, e corpos carbonizados de pelo menos outras 20 pessoas no chão. O subchefe de polícia de Kaduna, Nwodibo Ekechukwu, disse que centenas de pessoas foram detidas, inclusive por suspeita de homicídio. Buhari afirmou que a suposta manipulação de computadores da comissão eleitoral o privou de até 40 por cento da sua votação em alguns Estados do norte, e que seus partidários foram expulsos das seções eleitorais em muitos lugares do sul. Ele assegurou que seu partido tem provas das acusações, que os observadores estrangeiros foram omissos em algumas áreas, e que a manipulação foi suficiente para privá-lo do que seria uma vitória em primeiro turno. “O Inec (comissão eleitoral) e o partido governista trabalharam de mãos dadas”, disse ele.

A Nigéria deve concluir seu ciclo eleitoral com votações para os governos dos 36 Estados em 26 de abril, mas diplomatas questionam se será possível conduzir o pleito em todo o norte do país. Casas pertencentes a membros do partido governista, escritórios do Inec e delegacias de polícia foram atacados, e foram registradas agressões também a membros do Corpo Nacional Juvenil, que ajuda a organizar as eleições. “É difícil ver como o Inec poderá realizar eleições críveis em Estados onde há um estado de emergência não-declarado, o que certamente é o caso em Kaduna”, disse um diplomata ocidental que participou da observação eleitoral. O Inec disse que nenhuma decisão ainda foi tomada, mas que a situação de segurança estava sendo reavaliada.

 

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