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Pandza: Eu Queria Ser Como Ele

O mestre sabia que eu queria ser como ele, por isso comoveu-se, quando desci os degraus do palco em que naquela noite se laureavam os novatos como eu. Eram três degraus mas parecia uma infinita passarela, e eu, radiante, sob aplausos, sentia-me na lua, com o mundo inteiro aos meus pés.

 

 

Regressei da lua descendo os degraus com estilo flutuante de astronauta, em câmara lenta. Sorri mecanicamente, em pose de laureado, tentando parecer fotogénico, e quase dei um trambolhão quando me desajeitei, exibindo o papel A3 emoldurado com que me haviam diplomado há pouco.

Três degraus abaixo, as mesas redondas perfaziam a plateia que aplaudia a concretização do meu velho sonho.

O mestre, de túnica e sandálias, seu traje de cerimónia, sabia que eu queria ser como ele, talvez por isso levantou-se de uma das mesas da frente, próxima ao palco, onde se sentavam as personalidades mais importantes da gala, como se fosse cortar as fitas da minha chegada da lua, e fez as honras da minha recepção.

– Meu filho! – disse, desenhando com os braços abertos um abraço enorme e congratulando-me com o triunfo. Deixei-me envolver.

– Os meus parabéns!

No abraço, senti o cheiro inconfundível a tintas de óleo e acrílicos que o perfumavam, a barba crespa a pincelar-me a face e o pescoço como se eu fosse uma tela virgem.

– És poeta! – promoveu-me, naquele tom orgulhoso com que os mais velhos celebram a maturidade dos filhos após um rito de iniciação. Foi a primeira vez que me senti poeta. Foi também aí que me apercebi de que ser poeta, para além da carga de responsabilidade criativa que acarreta, é um acto de muita coragem. Senti-me homem.

Ele sabia que eu queria ser como ele, talvez por isso os seus olhos brilhassem. Por causa do som da sala falávamos em voz alta mas isso não reduziu o tom didáctico e emocionado da conversa.

Quando não gritasse nem sempre eu percebia, umas vezes descodificava a mímica dos lábios, outras contentava-me em contemplar o espectáculo dos pincéis grisalhos que lhe faziam uma juba característica, a acompanharem os movimentos faciais daquelas feições amadurecidas, das pálpebras tíbias, dos lábios fartos e do nariz afro. Lembrei-me de ter visto aquelas feições nos rostos que pintava.

O mestre sabia que eu queria ser como ele por isso conversou comigo. Fez-me aquele tipo de perguntas que se fazem quando se quer dizer muito e não se sabe por onde começar. Congratulou-me, elogiou-me, e motivou-me, com conversas do tipo: “A vida é arte (…) é a arte que move o mundo (…) é pela arte que o mundo respira”.

Com o meu diploma na axila eu era todo atenções ao que ele dizia porque quando um mestre fala, só os burros é que não levantam as orelhas.

– Ainda pintas?

– Bem… ultimamente… – quis mentir pois não me sentia bem em dizer-lhe que não.

Seria o mesmo que lhe dizer que de nada serviram aqueles sobejos de tinta que me ofereceu nos princípios dos anos noventa, na minha adolescência, quando fui à casa dele dizer-lhe que queria ser como ele, e convidá-lo à minha, para ver e criticar as minhas garatujas.

– Poesia também é pintura, meu filho! – percebeu a minha aflicção e desculpou-me porque ele sabia que eu queria ser como ele.

O mestre sabia que eu queria ser como ele por isso quase me convidou a sentar-me à mesa onde se sentavam os convidados importantes da gala de premiação. Interrompemos a conversa porque ao microfone chamaram-lhe para o palco. Ele era a personalidade que ia entregar o prémio seguinte.

Deu-me duas palmadas no ombro e correu para lá. Eu, ainda sob a hipnose da premiação, não tinha regressado completamente da lua, ouvi uma salva de palmas. Por instantes pensei que estivessem aplaudir a minha conversa com o mestre, mas logo vi que não, eram para outro vencedor, mais um dos vencedores das inúmeras modalidades artísticas premiadas naquela noite. O meu curto reinado acabara.

Com pena de não ter podido alongar a conversa com o mestre, mas feliz por me sentir poeta, regressei a mim e recolhi-me para o fundo da sala, para a mesa dos laureados da noite, com o meu diploma debaixo do braço.

Do resto da noite retive uma frase que discursou ao microfone, para os presentes, com aquela rouquidão que a experiência de vida lhe raspou na voz:

– Se cuidássemos deste mundo com arte, juro que ninguem morria.

Não cuidamos e ele morreu, sabendo que eu queria ser como ele.

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