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Eternamente rebelde

Separe-se a diplomacia da Justiça

Se há quem tenha nascido para ser do contra, a Beira, essa terra plantada junto ao Chiveve, que nasceu como cidade em 1907 e tomou o nome do título do fi lho mais velho de rei de Portugal, é um desses casos. A sua rebeldia revelou-se ainda no século XIX, quando o lugar ainda se chamava Aruângua. A conquista daqueles terrenos, efectuada à custa de aterros de pântanos lodosos, revelou-se extraordinariamente difícil, tão difícil que os ingleses, sempre atentos à forma como economizar, – o porto da Beira era, geografi camente falando, a melhor saída para o escoamento dos produtos da duas Rodésias e do então Niassalândia – acabaram por preferir outras paragens, decretando a terra demasiado insalubre para conviver com o homem branco. Os portugueses, mais dados a aventureirismos e sem grandes alternativas, resolveram pôr mãos à obra e à pazada aterraram pântano atrás de pântano. Pelo meio, o mosquito da malária, fortíssimo naquela zona, como uma fera que marca o terreno no mato, fez várias vítimas. Assim nasceu, de um modo agreste, a Beira, sendo caso para dizer que o que nasce torto tarde ou nunca se endireita.

Nos anos ´40 e ´50 do século passado, a rebeldia contra o regime de Salazar fez-se sentir na Beira como em nenhum outro lugar da colónia. Daqui, os esbirros da PIDE – a polícia política do regime – encheram páginas e páginas com relatórios para os seus superiores em Lourenço Marques. Nas eleições presidenciais de 1958, quando Salazar sofreu o primeiro grande abanão com a popularidade do candidato da oposição Humberto Delgado, a Beira votou, maioritariamente, ao lado do general rebelde. Pouco depois, D. Sebastião Soares de Resende, o primeiro bispo da cidade, contestou o regime e a extrema dureza de tratamento dado aos africanos. Chegou mesmo a perguntar, numa coluna do “Diário de Moçambique”, se o futuro do território não passaria um dia pela independência. O jornal foi suspenso e o povo da Beira revoltou-se indignado. Em 1966, quando a então Rodésia vivia um bloqueio mundial imposto pelo Reino Unido, a Beira sempre insurrecta, resolveu furá-lo, abastecendo o regime racista de Ian Smith. E, quando a velha aliada ameaçou Salazar com uma invasão à colónia rebelde pelo porto da Beira, a cidade, num gesto desafi ador, virou as bombardas para o mar à espera dos navios ingleses que nunca chegaram.

Já no fim do colonialismo foi a vez dos padres do Macúti, Teles Sampaio e Marques Mendes, serem condenados por “crime contra a harmonia racial”, tudo porque nas suas homílias denunciaram atrocidades do exército colonial. Em Janeiro de 1974, a população branca desceu à rua numa manifestação nunca vista no território. Curiosamente, o alvo da contestação não era a Frelimo, que poucos dias antes havia, numa emboscada em Manica, matado uma mulher branca, mas sim os militares portugueses acusados de incompetência na luta contra o então chamado terrorismo. As manifestações prolongaram-se por três dias, o comércio paralisou e os militares portugueses foram apedrejados. Já depois da independência, o partido no poder nunca conseguiu, apesar das muitas “démarches” efectuadas, consolidar-se na Beira e a cidade conservou o epíteto de rebelde, tornando-se o bastião da oposição. Durante a guerra fratricida, quando todos procuravam a rádio rebelde nas matas da Gorongosa, as suas ondas hertzianas saíam do centro da cidade e as armas que abasteciam a guerrilha entravam pelo seu porto.

Em 2003, logo que a oposição concorreu, venceu o município. Já este ano, depois de muita polémica, o Conselho Municipal inaugurou, pela primeira vez na toponímia de uma cidade moçambicana, uma estátua em homenagem a uma personalidade da oposição.

Finalmente, por estes dias, um candidato independente, embora com origem numa dissidência do maior partido da oposição, desafi a, também pela primeira vez na história do país, os dois grandes partidos instituídos. Aconteça o que acontecer no dia 19, uma coisa é, porém, certa: com a candidatura do actual, edil a Beira voltou a mostrar toda a sua rebeldia.

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