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Estudar sob os caprichos da natureza!

Estudar sob os caprichos da natureza!

Sentados no chão empoeirado e debaixo de uma árvore, alguns alunos da Escola Primária de Khongolote buscam o saber, expostos ao sol e à chuva. “É necessário ter-se um punho de ferro e um coração de manteiga para se estar aqui a leccionar”, diz a professora.

Vinte minutos passam das dez da manhã. Os alunos do terceiro turno preparam-se para mais um dia de aulas. Ao contrário de outros dias, hoje haverá aulas para todos na Escola Primária Completa de Khongolote, no Município da Matola, mas nem sempre tem sido assim. Quando chove, grande parte das crianças fica sem estudar, pois a escola não tem meios para albergar nas 16 salas os cerca de 5230 alunos.

A falta de condições para a aprendizagem neste estabelecimento de ensino está patente em cada centímetro do recinto da escola. Aqui, há muito que as árvores deixaram de ser simples mastros.

As duas mafureiras, os dois cajueiros, uma acácia e um canhoeiro plantados naquele lugar transformaram-se em salas de aulas para os alunos da 2ª e 3ª classes. Quatro estão logo à vista.

Outras duas ficam nas traseiras de dois pavilhões ao lado de uma latrina. Uma sombra projectada pela árvore é a condição principal para que haja aula, e o resto só Deus sabe.

Três carteiras partidas sobressaem aos olhos e fazem a diferença em cada lugar, mas quase todos os alunos sentam-se no chão empoeirado. Para evitar o contacto directo com a superfície, algumas raparigas estendem capulanas.

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Nos troncos de cada árvore, está um velho pedaço de contraplacado que serve de quadro preto. “É difícil leccionar nestas condições”, reconhece uma professora de Matemática. “Hoje pretendia ensinar a contar até 50, mas terminei nos 30 porque o quadro é pequeno e já não tem espaço para acrescentar mais números, ficamos por aí e amanhã continuaremos”.

Assim não dá para aprender

A ausência total de meios é a principal responsável pela demora na assimilação da matéria. Numa das últimas filas, debaixo do canhoeiro onde funciona a 2ª classe, está João Raimundo, de 7 anos de idade. Sentado rigidamente no chão, o pequeno João olha com um misto de desconfiança e de admiração para a objectiva do nosso repórter fotográfico.

Mas descontrai-se, esboça um sorriso e solta um grito de protesto: “Já não consigo escrever nesta posição porque a coluna sempre dói…assim não dá para aprender nada”. Um dos princípios da declaração dos direitos da criança, defende que toda a criança terá direito a receber uma educação condigna capaz de promover a sua cultura geral e de capacitá-la, em condições de oportunidades iguais – princípio que lhe é negado.

Ao lado de João, encontra-se Osvaldo, de 8 anos de idade, é repetente e tem dificuldades na escrita e na leitura, mas nem por isso deixa de sonhar. “Quero ser professor para ensinar os outros”, diz enquanto rabisca num caderno A4.

Osvaldo tenta compor três linhas, mas não passa de uma. “Isto é tudo o que escreveu em duas horas”, diz a professora, visivelmente agastada. “Já estou nesta escola há oito anos. Durante esse tempo noto que o processo de ensino-aprendizagem está cada vez mais difícil. Não dá para continuar nestes moldes, sobretudo se quisermos alcançar as metas dos objectivos do milénio até 2015”

“Custa aprender desta maneira. Se calhar tudo mudará quando estivermos numa sala de aulas”, diz Osvaldo com os olhos a brilhar de esperança, sem fazer ideia de que estatisticamente pertence ao grupo das 700 mil crianças moçambicanas que vão estudar ao relento este ano, de acordo com o Ministro da Educação, Zeferino Martins.

Enquanto a professora explica, Osvaldo apanha canhus no chão e come-os, escondendo-se da professora. Nada debaixo daquela sombra, sob os caprichos da natureza, oferece condições de aprendizagem, porém todos os dias as crianças estudam ali durante quatro horas. “É necessário ter-se um punho de ferro e um coração de manteiga para se estar aqui a leccionar”, diz a professora.

Em 2011 vai ser pior

As projecções do Ministério da Educação indicam que este ano (2011) pode revelar-se pior, e os dramas da escola de Khongolote vão repetir-se um pouco por todo o país. Segundo o ministro Zeferino Martins, estas 700 mil crianças vão continuar a estudar ao relento, uma situação agravada pelo orçamento restritivo de que o Ministério da Educação (MINED) dispõe actualmente.

Recorde-se que para resolver o problema, em 2005, o Governo introduziu, a título experimental, o Projecto de Construção Acelerada de Infra-estruturas Escolares que foi implantado em todo o país a partir de 2006. O MINED considera que o programa constitui uma base para o cumprimento das Metas do Milénio no sector, tendo em vista proporcionar salas de aula condignas a todas as crianças em idade escolar até 2015.

Este projecto tem-se mostrado ineficaz e a pergunta que se coloca é: será que Moçambique está em condições de cumprir tais metas? Resposta: não. Ora vejamos: inicialmente, previa-se construir seis mil salas de aulas por ano, mas a meta nunca foi alcançada. Desde 2005 construíram-se apenas quatro mil salas de aulas para os alunos de ensino primário no país.

No início, a falta de recursos condicionou o cumprimento das metas, diante de uma realidade em que anualmente, Moçambique precisaria de gastar 72 milhões de dólares, de que não dispõe, para a construção das seis mil salas.

O MINED viu-se obrigado a rever as suas projecções. Contudo, mesmo com metas mais modestas, os planos não chegaram a ser alcançados, uma vez que os empreiteiros não têm capacidade técnica para executar as obras dentro dos prazos. A filosofia da construção acelerada de salas de aula é envolver as comunidades e empreiteiros locais.

Os primeiros oferecem material local, como tijolos, pedra, areia e os segundos executam as obras. Com empreiteiros técnica e financeiramente pobres muitas obras transitam de um ano para o outro, e muitas crianças continuam a estudar em condições inadequadas.

Estes problemas, aliados à falta de professores, resultantes da falta de cabimento orçamental para a contratação de docentes de que o país necessita, criam constrangimentos à expansão do sector da Educação em curso no país.

Anualmente, o país necessita de 10 mil professores para responder à demanda. Este ano, serão contratados apenas 8.500 professores. As turmas passam a incorporar um número muito elevado de alunos e os professores efectivos passam a duplicar os horários. Efectivamente, nessas condições Osvaldo pode demorar muito tempo ainda para aprender a ler e a escrever.

A direcção da escola

Com 16 salas de aulas, três doadas por um grupo de irmãs da Igreja Católica e outras resultantes da contribuição dos pais e encarregados de educação, para 2011 a Escola Primária Completa de Khongolote, que já tem mais de uma década, matriculou 5230 alunos da 1ª a 7ª classe, distribuídos em três turnos. O primeiro grupo entra às 6h30 até às 10h20, o segundo turno termina às 13h55. O último vai das 13h55 às 17h45.

Ao contrário de várias escolas do país, em Khongolote não faltam carteiras nas salas de aula. No turno das seis, funcionam a 6ª e a 7ª classe. Às 10 horas entram a 1ª, 2ª e 3ª classe; a seguir é o tempo consagrado à 4ª e 5ª. O máximo de alunos nas turmas da 6ª e 7ª classe é de 95, e o mínimo de 75. Noutras classes o número varia entre 65 e 80.

Todas as turmas da 3ª, duas da 2ª e 4ª classe estudam ao relento. Segundo a directora adjunta, Margarida Isabel, tudo está a ser feito para aumentar as salas de aula, graças ao apoio e contribuição dos pais e encarregados de educação e algumas empresas que se mostraram interessadas em colaborar.

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