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Estereótipos da World Music incomodam Sara Tavares!

Estereótipos da World Music incomodam Sara Tavares!

Na sua última estada em Maputo, o que aconteceu no âmbito do recém-terminado Azgo Festival, a conceituada intérprete luso- -cabo-verdiana Sara Tavares reservou tempo para travar uma cavaqueira com os seus fãs e admiradores. Com uma carreira bem- -sucedida, a artista tem muitos planos em relação ao futuro: “Reduzir os estereótipos que a World Music manifesta em relação aos artistas africanos” podia ser um deles…

A organização do Azgo Festival, evento que em 2012 aconteceu pela segunda vez consecutiva em Maputo, criou condições para que admiradores, músicos, jornalistas e o público em geral tivessem a ímpar oportunidade de travar uma conversa informal com a cantora. Para alguns, o encontro serviu para matar certas curiosidades, para outro foi uma forma de avaliar as possibilidades de novos intercâmbios.

O nosso repórter sociocultural, o autor deste trabalho, inventou a sua abelhudice e associou-se aos curiosos: “Sendo Sara Tavares, uma artista bem-sucedida, o que em grande medida é salutar, sobretudo porque denuncia que o seu trabalho não tem sido só positivamente impactante sob o ponto de vista de construção social, mas que (igualmente) influencia da melhor forma os seus seguidores, que obstáculos a artista tem enfrentado no mesmo processo?”

Ainda que modesta e formulada de maneira tímida, a questão mereceu a atenção de uma das divas da World Music. Mas, como o nosso serviço é público, nada melhor que privilegiar as questões colocadas por este.

Rejeitar alguns ideais da sociedade

Tânia Tomé, a cantora e poetisa moçambicana, foi a primeira pessoa da parte do público que dirigiu a primeira questão à artista depois de Júlia Mwitu, a moderadora.

Na sua exposição oral, Tomé começou por considerar que o principal aspecto que cativa-lhe na música de Sara “é a poesia contida nas suas composições. Mas como se sente com o facto de, ainda muito jovem, se ter tornado uma referência para muitas pessoas em todo o mundo? O que é que a moveu naqueles anos de adolescência e juventude a apostar na arte da música?”

Na verdade, os motivos para que alguém aposte (ou não) em determinada actividade podem ser vários. O que é facto, como a artista considera, é que “todos nós temos um anjo e um diabo. Ou seja, uma luz e uma sombra. Eu sempre fui alimentando o lado bom que há em mim porque, nessa altura, amava muito a música. Por exemplo, mesmo nos dias actuais, todas as vezes que escuto as músicas de Stevie Wonder vibro, gosto e fico muito emocionada.

Os ritmos e os instrumentos de percussão mexem comigo. Sinto que se trata de louvor e que a música carrega um espírito especial: há quem considere que isso é espírito santo, outros ainda que é magia, mas eu acho que a música é uma arte que nos enleva. E foi essa enlevação constante, a vontade de querer estar constantemente nela, que me inspirou a apostar na música.

Além do mais, na altura, não tinha nada mais em que me escudar”, afirma Sara acrescentando que “quando decidi que devia seguir uma carreira musical estava socialmente desprotegida e a música constituiu a minha oração”.

A par disso, Sara Tavares levou a sua posição ao extremo para revelar que “nunca me agarrei aos ideais da sociedade como, por exemplo, os que exaltam a necessidade de as pessoas crescerem sob o ponto de vista económico, conquistarem espaços de relevo no mundo, amealharem algum dinheiro, apesar de que isso é positivo na medida em que nos facilita nalguns processos. Mas o dinheiro não é um fim. É só uma ferramenta”.

Vamos revolucionar

Crescer a escutar as músicas de Sara Tavares, de qualquer uma das formas possíveis, é uma prática que a sociedade contemporânea não pôde evitar. Elas, as composições por si interpretadas, impuseram-se no espaço social conquistando um lugar notório.

Não é obra do acaso que a incontornável rapper moçambicana Iveth, partindo de um exemplo de uma das músicas de Tavares, nos diga: “O Xinti encanta-me! Sempre que (posso ou) estiver mal disposta no trabalho escuto a referida música para ganhar novas inspirações”.

De qualquer modo, inspirada, a cantora Iveth explorou a oportunidade que se estabeleceu para preparar a sua revolução: “Qual seria a possibilidade de nós, os cantores moçambicanos e eu particularmente, realizarmos um trabalho de colaboração artística com Sara Tavares?”

Observando-se alguns critérios, “as possibilidades de trabalho são de 100 porcento desde que eu me identifique com a música e que sinta que ela pulsa no coração e, sobretudo, que me seja oportuno em termos de agenda. Felizmente, tenho o privilégio de fazer parte da vida de muitas pessoas e sou muito solicitada a colaborar de modo que tenho que ser selectiva ao máximo para fazer aquilo que, de facto, me identifica”.

Direito humano

Sara Tavares falou da mulher para afirmar que, “apesar de não acreditar na reencarnação, há situações que experimento e sinto em mim como, por exemplo, a minha persistência, a coragem, a demasiada força física que possuo que me fazem pensar que na vida anterior fui um grande guerreiro africano. Não ligo muito nas questões de género, até porque acredito que a mulher não necessita muito disso para se afirmar. Ela deve praticar o seu poder de uma forma tranquila como se já o tivesse adquirido”.

Ora, considerando que em muitos países africanos, as questões ligadas ao HIV/SIDA, à violência no seio familiar, entre outros, são temas domésticos, a organização do evento incluiu-os no debate.

É por essa razão que não se pode descurar o papel das artes ? em geral e a música em particular ? na luta contra os mesmos males. Em relação ao campo restrito, mas complexo, da violência doméstica ? sobre o qual Sara fez uma abordagem que beirou a dimensão dos direitos humanos ? a artista considerou:

“Quando as pessoas não denunciam os problemas com que se debatem (no contexto da violência doméstica) correm o risco de coarctarem o direito de viver, de respirar e praticar a sua liberdade. E é muito mais complicado salvar essas pessoas”.

Em resultado disso, Tavares encoraja: “devemos ter a frontalidade de assumir que o nosso direito humano é muito mais forte que o poder que o nosso marido ou pai pode exercer sobre nós”.

Os estereótipos da World Music

“Na profissão da música há uma estrutura, um circuito de trabalho e produção. Há uma necessidade de os músicos terem outros profissionais que realizam a produção, a divulgação e a promoção do produto música”, começa por dizer Sara Tavares que responde à nossa questão ao mesmo tempo que acrescenta:

“no continente africano, por exemplo, há muitos artistas talentosos e excelentes. Em África, ainda não existe uma forte estrutura industrial para dinamizar o sector da música como devidamente acontece no circuito da World Music”.

Mas, mesmo assim, Sara Tavares congratula-se com o facto de a World Music ? um circuito internacional por si frequentado ? ter criado condições para a penetração da música tradicional africana.

O problema é que ”a música africana não é somente a tradicional. África produz trabalhos artísticos contemporâneos. Mas o que eu sinto é que sempre que artistas africanos como Lokua Kanza, por exemplo, produzem um trabalho actual as pessoas ? ao nível da World Music ? confundem-nos como se estivessem a armar-se num Michael Jackson”, considera.

“Sinto que, às vezes, o africano ainda não é aceite totalmente como um cidadão do mundo actual. Isso é uma dificuldade que se manifesta no mundo da música. Prevalece um conjunto de estereótipos que se devem quebrar no campo da música mundial. Há sítios onde eu vou tocar e as pessoas procuram o djembê”.

O outro aspecto crítico é que “as editoras musicais que existem são, maioritariamente, europeias e/ou americanas e, por essa razão, geridas por cidadãos ocidentais que nos vêem dessa forma. Então, sendo eles que nos representam, muitas vezes, por falta de conhecimento de causa e/ou de vivência, ao invés de nos facilitarem o trabalho, colocam-nos barreiras”.

Por tudo isso, às vezes, “sinto que a verdadeira contemporaneidade da arte é comprometida por estereótipos que nalgumas vezes são veiculados por nós os africanos, noutras pelos outros. É que sempre que não sabemos defender a nossa posição optamos pelo caminho mais fácil”.

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