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Espanha: até onde estão os “indignados” dispostos a ir?

A 22 de maio, os espanhóis puniram o Governo socialista nas eleições locais. Mas continuam por todo o país, manifestações e ocupações de praças para exigir maior democracia política. Esse movimento não será, porém, suficientemente estruturado para durar.

A fagulha acendida pela plataforma Democracia Real Ya (DRY [Democracia real já]) pegou. E de uma maneira tão inesperada e potente que poucos se atrevem a calcular até onde chegará o movimento em favor da recuperação da democracia que é seguido pelos milhares de jovens que, há sete dias, acampam e se concentram em diversas praças de cidades espanholas.

“Uma das minhas melhores alunas de há alguns anos atrás estava na Puerta del Sol, em 15 de maio. É estagiária num escritório de advogados e ganha 300 euros”, diz Irene Martín, licenciada em Ciência Política pela Universidade Autónoma de Madrid (UAM). Este caso não é uma exceção: retrata o problema dos jovens espanhóis, que conhecem de sobra a precariedade de emprego, uma vez que, em Espanha, a taxa de desemprego entre os jovens atinge os 43%. “A sua situação é a pior de toda a Europa, inclusive pior do que na Grécia”, sublinha.

Irene Martín refere que os jovens são o grupo mais importante do movimento 15-M e destaca duas características: “Pertencem a organizações que não são muito conhecidas e são pessoas que não eram especialmente politizadas”. Na verdade, partilham uma situação “objetiva, calamitosa, que provavelmente irá piorar”. Embora sejam essenciais para explicar o fenómeno, as condições económicas não são o único fator.

Para Ignacio Sánchez-Cuenca, professor de Sociologia da Universidade Complutense de Madrid, o mal-estar devido à crise é evidente: “As condições eram claras desde maio de 2010, quando José Luis Rodríguez Zapatero levou a cabo a viragem da política económica”. No entanto, em seu entender, o fator que desencadeou o movimento foi “a perceção que muita gente tem da impotência do Governo para fazer frente à situação”. A plataforma DRY critica o facto de os cidadãos serem vistos como “mercadorias pelos políticos e pelos banqueiros”. De facto, na sua opinião, os governantes e os partidos têm as mãos atadas. “Os governos estão incapacitados de dar uma resposta autónoma à crise, que não seja ditada pela UE ou pela Alemanha”, explica.

Os objetivos: mais democracia

Uma das críticas do movimento 15-M é dirigida diretamente ao sistema democrático atual. “Não nos representam!” – é uma das mensagens mais repetidas. O catedrático de Ciência Política e antigo presidente do CIS, Fernando Vallespín, destaca o caráter simbólico da mobilização e sublinha que “o mais relevante é o facto de se ter verificado, porque há deficiências de funcionamento da democracia, na relação política-sociedade”. Esse distanciamento deteta-se nas sondagens. Há mais de um ano que os cidadãos veem os políticos e os partidos como o terceiro problema do país. O movimento 15-M considera que “o cheque em branco de quatro anos para os políticos, após as eleições, acabou”, anuncia o politólogo Juan Carlos Monedero, que defende que, depois de 22 de maio, os políticos deverão passar a prestar contas de forma horizontal.

O exemplo: efeito de contágio do Sul

Os ventos das revoluções no mundo árabe chegaram a Espanha. Mas com matizes: “As propostas mais inovadoras estão a vir do Sul”, diz Monedero. Para o politólogo Ignacio Criado, da Universidade Autónoma de Madrid, o único ponto comum entre os dois movimentos é a utilização das redes sociais. “Permitiram aglutinar grupos de pessoas muito diferentes”, defende. Irene Martín, investigadora da cultura política dos jovens, distingue claramente a situação de partida: “Aqui, há democracia e, lá, não”.

No entanto, existe uma relação. “É mais fácil mobilizarmo-nos, quando o mundo está agitado”, explica. As consequências: lições para os políticos Alguns especialistas apontam as possíveis mudanças que os partidos tradicionais vão ter de enfrentar. Para Vallespín, há duas alterações que se registarão a médio prazo, como consequência do “cansaço democrático” que parece existir. Por um lado, destaca “a reforma do sistema eleitoral, de modo a ampliar o Congresso até aos 400 deputados que a Constituição permite” e, por outro, “a abertura das listas” dos partidos políticos. Este professor universitário chama a atenção para o perigo da situação atual. “Pode derivar para um populismo de esquerda”, alerta, referindo três paralelismos: a desconfiança em relação às elites políticas, o apelo ao povo e a simplificação dos problemas, e a condenação geral dos políticos e dos partidos.

Pablo Oñate, catedrático de Ciência Política da Universidade de Valência, mostra-se mais cético. “É fácil mobilizar as pessoas mas é difícil mantê-las ativas.” Ainda assim, espera que as formações políticas tradicionais não façam orelhas moucas: “Fariam bem em reagir e abrir os canais de participação aos cidadãos”, refere.

O futuro: como chegar à mudança?

Perante o caráter heterogéneo das propostas dos diferentes grupos que deram forma a este movimento, os especialistas duvidam da sua continuidade. Segundo Ismael Peña, professor de Ciência Política da “Universidad Oberta de Catalunya” (UOC [Universidade Aberta da Catalunha]), “ou se cria um partido ou será muito difícil as formações tradicionais mudarem as coisas”.

Para já, alguns dos porta-vozes da plataforma DRY mostram-se prudentes quanto a este assunto, repetindo que é demasiado cedo. Dada a força que estão a atingir os acampamentos e as concentrações, Vallespín defende que o espírito deste movimento “voltará a estar vivo nas próximas eleições gerais”. E esclarece que isso não significa que “vão ficar acampados ininterruptamente mas que haverá protestos pontuais”.

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