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Escrutínio escolar d’@ Verdade – O lar da Mothassi

cama, vezes sem conta mudava de posição num segundo de tempo. O sono evolava-lhe aos tostões. Não tinha posição certa. Nenhuma de todas as posições lhe era melhor. Deitava-se de costas, deitava-se de ventre, virava e dobrava-se para forma de banana. Procurava o conforto.

Nada. A noite fora-se e o sol levantara-se alto. Ronca-lhe o marido. – Mothassi! – Uhm! – Acorda, amanheceu. Prepara-me um banho quente. Tentou erguer a cabeça. Ficou-lhe difícil, quase impossível, uma cabecinha redonda parecia-lhe pesar toneladas. A manta abriu um pequeno orifício que deixava entrar o ar frio daquela manhã, ar esse que ia directamente às nádegas nuas. Abriu os olhos frustrados pelo sono. Viu que os raios do sol penetravam pelos pequenos buracos do telhado de lusalite podre, aliás, velho.

Quis levantar-se da cama. Descobriu-se indolente. – porquê tanta preguiça? – perguntava ela para si mesma em pensamentos. Os pais dessa mulher fizeram-na lobolar com material precioso e muito dinheiro porque na casa deles ela despertava e saía da cama muito cedo, bem antes do canto do galo. Pilava o milho, varria o quintal muito espaçoso, enchia todos os tambores de casa com água conseguida em lugares distantes, tomava conta de crianças e não se esquecia de nenhum dos seus deveres.

Os pais tinham-na como assunto nas conversas. – A nossa filha terá um lar seguro pois trabalha como uma máquina. – diziam eles e sempre que chegasse a visita dos familiares de lá de ntlavene não se esqueciam de comentar sobre os altos valores que iriam exigir para o seu lobolo. – Cinco cabeças de vaca. – Mbava, não se esqueça de oito mukumes. – Sim, quatro bengalas também. – Sim mbava. E quanto dinheiro? – Cinco salários mínimos. – É tudo tatana? – Comidas e bebidas para a cerimónia na conta do mukomwana. Agora essa mulher é oficialmente casada mas nada faz no lar. Nada mesmo.

O marido ronca-lhe de novo. – Mothassi! – Uhm! – Ha, ha, ha… não vês que amanheceu? Pfuka! Essa mulher desperta com uma lentidão igual a de famintos de semanas de fome. Prepara o banho para o marido, veste-lhe roupa não engomada e volta à cama. Deitada na cama, fala para o marido em voz baixa. – Mungoni, vai à mesa. Tem chá. – Uhm! Vai à mesa. Eh, eh!. Depois de tomar o chá, o marido desperta-lhe de novo para um beijinho de despedida. – Uf! Vou trabalhar. – Bom trabalho. Essa mulher é insensata. Os seus sogros tomam o pequeno-almoço muitas horas depois da hora normal do pequeno-almoço.

Vão à mesa do almoço quando a Mothassi se apercebe de que o Mungoni está quase a sair do serviço. Essa mulher só começa a preparar o jantar quando acaba todas as fofocas com as vizinhas e quando não resta assunto para conversa, sim quando os assuntos acabam e as fofoqueiras limitam-se inventando mentirinhas que nem dão longos minutos de comentários.

Enquanto a Mothassi toma um banho quente, os seus sogros tomam um banho frio. Essa mulher é assunto nas conversas dos sogros. – Mothassi vai perder o lar. – Ah sim, vai perder. – Juro xikwembu xihambani. Mothassi vai perder o lar. – Vai perder. – Phela ata luza wukati sinceramente. – Vai, sim.

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