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Escritor angolano “acusa” CPLP de inacção cultural!

Escritor angolano “acusa” CPLP de inacção cultural!

Nos anos subsequentes às independências, muitos pensadores futuristas apontaram a riqueza–em recursos minerais e energéticos – existente, no continente, como sendo um potencial factor para o desenvolvimento. Em contra-censo a isso, as guerras internas que, logo a seguir, se irromperam mostraram que não é bem assim. A miséria continua a ser a tónica dominante em África.

É sobre o impacto desastroso das guerras africanas que Lopito Feijo, o escritor angolano que “acusa” a CPLP de ser uma organização inerte (no aspecto do intercâmbio cultural) fala, na obra “Marcas de Guerra: Percepção íntima e outros fonemas doutrinários”, relançado recentemente em Maputo.

Partamos do caso da CPLP, para recordar que no dia sete de Julho do ano 2011, a “Comunidade dos Países da Língua Portuguesa” completou 15 anos desde quando foi criada.

Sobre o assunto, o ex-deputado da Assembleia da República Angolana e escritor Lopito Feijó não faz, necessariamente, um (bom) balanço. Revela-se pouco satisfeito com o facto de volvidos longos anos, esta entidade seja pouco vibrante. Para si, é como se tivesse havido mais intercâmbio cultural no seio dos países de expressão lusófona no período anterior à sua criação que ao longo dos anos posteriores.

“Eu critico insistentemente o funcionamento da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa. É que ainda que esta organização exista, eu, enquanto autor, artista, ou escritor, não o sinto. Não sinto o seu efeito. É como se não existisse. E nós saudamos a sua criação porque pensámos que, do ponto de vista das relações culturais, estaríamos melhor do que quando ela não existia”, diz.

Feijó tardou-se a falar do caso particular de Moçambique e Angola. E, novamente, de forma holística, traça um quadro pouco pitoresco no campo de intercâmbio cultural. “Esfriou!”

As inquietações

O escriba diz não compreender os desdobramentos das relações sócio-políticas e, acima de tudo, culturais dos países falantes do português no sul da África – Angola e Moçambique – nos anos que se seguiram à morte dos primeiros presidentes de ambos os Estados. Referimo-nos a Agostinho Neto e Samora Machel.

“Não consigo perceber, no contexto das relações sócio-culturais e políticas, o que é que está a acontecer entre Angola e Moçambique desde 1975”. Bastou a morte dos seus primeiros líderes para “muitos aspectos de intercâmbio entre (ambos) os povos ficarem confusos”.

Para Lopito, “o que aconteceu é que depois da morte destes líderes, as nossas relações, de uma forma geral, esfriaram. Deve haver problemas que só poderão ser percebidos nos próximo 50 anos. Mas o problema é que isso agora afecta-nos negativamente, como também afectará as novas gerações”.

Fraca percepção da cultura

O outro aspecto negativo apontado pelo escritor angolano como negativo nos países do Berço da Humanidade é a confusão que se faz em relação à cultura.

“As vezes temos a impressão de que a cultura é só música. Por exemplo, em Angola há um movimento editorial de música muito intenso, de tal sorte que em cada semana se produzem cinco trabalhos discográficos”. E curiosamente, “há patrocínios de grandes empresas para a produção e publicação de CD´s e Vídeos cujas músicas só dizem asneiras”.

Pior ainda, “não existem leis de mecenato funcionais. As políticas do livro não se fazem sentir”. A consequência imediata do fenómeno é que “nós, os autores, enfrentamos inúmeras dificuldades para publicar as nossas obras”. As embirrações dos mecenas culturais atingiram inclusive as academias, locais de produção de conhecimento científico.

Actualmente, “temos, em Angola, perto 10 universidades públicas. Além das dezenas que do nada surgiram como cogumelos. Mas o problema é que também não desenvolvem pesquisas científicas. E os estudantes que delas emanam são todos muito fracos sob o ponto de vista técnico e científico”, diz.

No entanto, ainda que em relação a Moçambique, o autor sinta que “a Universidade Eduardo Mondlane, pelo menos, no campo de pesquisa social está a funcionar” não deixa de lamentar o facto de tal desenvolvimento, além de mesmo em Moçambique ser parcial, “não se verifica em Angola”.

“Como é que poderemos fazer troca, se em princípio, numa situação o intercâmbio pressupõe que as partes, realizem trocas recíprocas?”, questiona.

Ainda na senda das acusações, Lopito Feijó que em 2012 irá publicar “Lexical doutrinário” realça as dificuldades porque em África provocam uma espécie de apatia nos artistas africanos em relação aos eventos culturais.

Diz ele que participámos num “Festival Internacional de Poesia, em Havana, que era dedicado à África”. No entanto, e de forma inesperada, “os únicos países africanos que por lá se fizeram apresentar (apenas) Moçambique, Angola Nigéria”.

Isso é lamentável, “sobretudo porque a África também pode produzir os seus festivais e, intercâmbios culturais”, o que não tem feito em medida satisfatória. Para em última análise considerar que “pelo menos, na área cultural, a CPLP podia ajudar os países no sentido de proporcionar estas condições”.

Os prestigiados

De acordo com Lopito Feijó, o marasmo dos países africanos no campo de intercâmbios culturais chega a ser contraditório. Primeiro, porque “em razão das lutas de libertação nacional, os escritores angolanos e moçambicanos, por exemplo, são pessoas de muito prestígio social.

Personalidades que estão ligados ao sistema de poder”, o que até certo ponto devia ajudar na conquista destes ideais. Ora, “eu fico satisfeito em saber que o Nelson Saúte é um gestor (de uma editora livreira) de qualidade. Que o escritor moçambicano, Armando Artur, é ministro da cultura”, associa.

Um livro político

Em “Marcas de Guerra: Percepção íntima e outros fonemas doutrinários” prefigura-se uma obra em que não raras vezes a política mescla-se com poética, para não somente denunciar o impacto das guerras civis angolana e moçambicana, como também para instigar aos líderes africanos a evitar futuras situações de conflitos.

É por essa razão que, este é o primeiro livro publicado em razão da minha reforma na vida política activa. Então, “compreende-se que tenha alguma carga política. Fiz um grande esforço no sentido de aliar a política com poética. E, naturalmente que não podia deixar de incluir as consequências sócio-culturais das (nossas) Guerras Civis em África”, revela que trabalhou na Assembleia da República angolana durante 16 anos.

Como tal, “a obra acaba não somente falando das marcas, como também das consequências que a Guerra Angolana deixou, mas também – por razão das similitudes – da Guerra Moçambicana, incluindo as actuais guerras que se abatem sobre o continente”.

É que nos dias que correm há guerras que não têm razão de existir. E, provavelmente por isso pouco se percebem as razões da sua génese. Infelizmente, “nós temos que lidar com essa (dura) realidade”.

A guerra anima os corruptos

Lopito Feijo que falava para uma ínfima porção de intelectuais e amantes da literatura, clarificou que, sabe “quando é que falo como político e, quando é que falo como artista”. Afina, em princípio é muito difícil, mas a vantagem é que “não custa muito misturar a realidade política com a poética”.

O importante é que o artista tenha “um sentimento profundo – que lhe brota do coração – o qual queira transmitir. E, por essa via, dar voz aos que não a têm”. Até porque “É preciso compreender melhor os políticos e a política, de um lado. A arte e os artistas, de outro”.

A meta dessa distinção é contornar as más interpretações no espaço social, evitando conflitos. Mas, mesmo assim, “a nossa visão de poetas move-nos a chamar atenção aos políticos que se encontram no activo, sobre a realidade (beligerante) que actualmente tem caracterizado os países africanos”.

Entretanto, no conjunto das consequências dos conflitos arrola-se, a corrupção, o analfabetismo, a prostituição, uma total degradação de valores morais no seio da família africana.

E neste último campo, basta percorrer as cidades africanas (em Maputo verifica-se bastante) para perceber que “pessoas idosas, por exemplo, que merecem toda a nossa atenção esparramam-se pela artérias das urbes, levando uma vida de Deus dará e, entregues à sua sorte”.

“Passamos-lhes de forma indiferente, no dia a dia e, esquecendo-nos de, pelo menos, dirigir-lhes a palavra, que é um pormenor básico do quotidiano”, assevera.

De qualquer modo, o maior problema, provavelmente que se responsabiliza pela fossilização da pobreza e miséria em África, seja mesmo a corrupção. Mas é como Feijó afirma “as guerras fomentam a existência da corrupção, alegrando os corruptos e os corruptores”. Por isso, “as guerras que vividas deixaram marcas sobre as quais nós não podemos deixar de chamar atenção para que nunca mais se repitam”.

Muito analfabetismo

Recorde-se que durante a época colonial, no contexto da luta pelas liberdades e independências, os escritores africanos usaram a poesia como arma de subversão ao sistema. O que se pode perceber a partir do próprio contexto sócio-político e histórico da época.

Aliás, “a realidade instigava os escribas a produzir textos, muitas vezes, herméticos, tal como acontecia com a chamada “geração silenciada” dos anos 70. Era uma forma de expressar rebeldia”, revela.

Facto porém é que apesar de utilizarmos uma escrita difícil, durante o período colonial, “conseguimos alfabetizar algumas pessoas”. Em contra-censo, conquistada a independência, com a eclosão da guerra civil tudo ficou estagnado. Perdemos o pequeno grupo alfabetizado que se havia produzido.

Ou seja, “devido à guerra que se seguiu à independência o mesmo público voltou para a linha do analfabetismo devido ao fenómeno bélico. A consequência é que nos dias que correm as estatísticas revelam que há mais analfabetos do que deveria haver – tudo impacto da guerra”.

Portanto, “a nós, os escritores, resta assumir, na qualidade de pessoas nobres, analisar os fenómenos sociais, armazenar saber e transmití-lo para transformar a sociedade”.

Maputo, uma cidade inspiradora

Lopito Feijo diz ter-se inspirado nas placas (toponímicas) da cidade de Maputo, para produzir uma obra poética. A mesma estará contida em “Lexical doutrinário”, uma obra a publicar em Março próximo.

Trata-se de um diálogo inspirado pelas placas que se encontram no entroncamento das avenidas Salvador Allende e Patrice Lumumba, em Maputo. Para o escriba, tais placas trespassaram a dimensão de objectos amorfos e inanimados. Nelas, Lopito viu dois homens, Allende e Lumumba, conversando.

As é como diz, “imaginei e criei um diálogo entre Patrice Lumumba e Salvador Allende sobre o qual as pessoas podem pensar que só cabe na cabeça de um louco”. Ou seja, ainda que estas duas personalidades tenham encontrado a morte, no instante em que viu a placa, não conseguiu desprender-se da ideia de que se tratava de “Lumumba e Allende numa animada conversa”.

É como se eles diariamente se encontrassem no mesmo lugar, “em constante convívio dia e noite, noite e dia”. Ora, se isso, representa alguma loucura, então o escritor assume-se louco.

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