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Em busca da identidade: Panaibra desbrava “Tempo e Espaço”

Em “Tempo e Espaço: Os Solos da Marrabenta”, o coreógrafo moçambicano, Panaibra Gabriel Canda, percorre as duas dimensões. Atraca na identidade dos moçambicanos. Reconhece-a e nela habita. Porque ela experimentou o colonialismo, a independência, o socialismo/comunismo, e, agora, a democracia é robusta. No entanto, a sua robustez é recusada pela realidade social. Porquê?

Durante alguns anos, o célebre coreógrafo moçambicano, Panaibra Gabriel Canda, realizou uma pesquisa a fim de compreender a identidade moçambicana. Os resultados dos seus trabalhos, algo impressionante, são a criação da obra “Tempo e Espaço: Os Solos da Marrabenta”. No passado, a criação em referência foi “Prémio Cultural para a África Austral 2009 Sylt Quelle”. Em Moçambique, a sua exposição aconteceu, pela primeira vez, a 15 de Março de 2013. O público local, desejoso der ver a peça há bastante tempo, quase lotou o Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo.

O que se sabe sobre a obra? E como isso se relaciona com Moçambique? A nossa história mostra-nos que experimentámos vários contextos socioculturais e políticos: os moçambicanos vêm da época antes da colonização – a fase dos nossos ancestrais – viveram o colonialismo, combateram-no, impuseram-se como nação com a conquista da independência, adoptaram o sistema socialista/comunista, passaram por uma guerra que durou 16 anos, entenderam que deviam orientar-se com base na democracia,? criaram vários partidos políticos.

Nesse processo contínuo, gerou-se um corpo – que por ter experimentado todas estas transformações – é/devia ser robusto. Implantou-se uma nova identidade, e forte. É isso que se percebe quando se conversa com Panaibra Gabriel Canda.

“Não importa se nos foi imposto ou não, a verdade é que ao longo da nossa história assumimos várias identidades. É em volta disso que a minha reflexão gravita”, refere. Ou seja, “procuro perceber como é que esse corpo – oprimido pela colonização e que mais adiante experimentou vários momentos – se ajusta nesses contextos para conseguir sobreviver”. Aqui, a questão da identidade é um ponto de partida para compreendermos o nosso mundo contemporâneo, o comportamento da juventude, antes, se calhar, de formular esta crítica social que nos mostra que há muitos valores – da nossa tradição e cultura – que se perderam.

Admitindo que a sociedade moçambicana continua a cobrar- nos uma maneira de ser e estar que, neste momento, está desajustada, Panaibra Gabriel considera que “é importante compreendermos esse contexto porque gerou uma nova identidade que – caso não a percebamos – pode desaparecer”. Ou seja, “a nossa identidade actual será engolida pela imposição da nova maneira de ser e estar da economia do mercado, desse fluxo de informação”.

O pior é que na leitura de Panaibra, o autor de “Dentro de mim outra ilha”, “irá desaparecer algo que foi construído de forma genuína durante o caminho da nossa liberdade. Nós devemo-nos agarrar à cultura contemporânea que possuímos e não na vivência de um passado remoto, os dos ancestrais, como se entre o referido pretérito e o presente não tivessem ocorrido transformações que afectaram o nosso ser, conferindo-nos uma nova identidade”.

Há falta de consciência

A dado momento, enquanto os artistas – Panaibra Gabriel Canda e Jorge Domingos, na música – actuavam, ficámos com a ideia de que “Tempo e Espaço: Os Solos da Marrabenta” é uma obra de arte, uma coreografia, ao serviço da sociedade. Para explicar os desdobramentos da vida social.

A par disso, duas leituras podem ser feitas: a crítica ao comportamento social actual é feita sem ter em conta os vários contextos, por um lado, por outro, há uma preocupação de o artista sublimar a herança cultural que se produziu no âmbito de todas as transformações sociais operadas.

Mas se, de facto, assumirmos que o corpo moçambicano – entendido como um espaço geográfico amplo, uma nação, onde há confluência de gentes, um alojamento de pensamentos, sentimentos, vontades e desejos das pessoas – por causa das experiências que possui tem alguma robustez, então, porque é que a nossa sociedade, a vivência social nos mostra o contrário? Sobre o assunto, o artista engendra uma opinião peculiar e esclarece as dúvidas:

“O novo corpo moçambicano é bastante rico. Ele absorveu muitas transformações e reinventou-se para ser o que é. A contradição que existe resulta do facto de não procurarmos compreendê- lo, para que possamos explorar as suas potencialidades. Por exemplo, a liberdade de expressão devia ser uma linguagem contemporânea”.

O que se pretende explicar é que “em termos de agenda de governação – ou vontade política – não há uma consciência que propicia a exploração desse corpo poderoso. Seria muito importante se se pudesse pegar na nova identidade e encaixotar naquele corpo primitivo, tradicional, a fim de começar a fazer a nossa propaganda sobre os nossos valores socioculturais”.

“Eu penso que há falta de consciência da necessidade de se compreender esse corpo e dar-lhe a sua importância para que, de forma mais concreta, se possa criar a recriar o mundo contemporâneo”.

A mediocridade não vale

A dança contemporânea – como se viu em “Tempo e Espaço: Os Solos da Marrabenta” – é uma linguagem, por meio da qual se transmitem informações. Até que ponto tais mensagens são percebidas pelo público? Ainda que se forme o público, Panaibra Gabriel Canda considera que o desafio se encontra nos dois lados: no público consumidor e nos criadores, os artistas. De uma ou de outra forma, “do ponto de vista do público, fazer uma obra radical – em que só prevalece o mundo subjectivo do artista, o seu ego – não é interessante. Há uma necessidade de conciliar os interesses, abrindo espaço para a participação do outro.

Isso não significa que temos de fazer obras simplistas para materializar essa acessibilidade. A construção de um público é um processo”, esclarece. A experiência mostra-nos que “o público está sedento. Agora, o facto de encontrarmos um público ávido – em termos de consumo de obras arte – não significa que toda a mediocridade serve”, esclarece enfatizando que “temos que melhorar a qualidade das obras, aprofundar mais os pontos fracos, de modo que as criações possam transcender o espaço de qualquer mediocridade”.

Para o artista é sempre preocupante que alguém considera – depois de um espectáculo de dança – que gostou do que viu, mas que não compreendeu. Logo, “as incompreensões do público transcendem o trabalho do artista em palco. Ele deve cultivar-se através da leitura de romances, do cinema, do teatro, ou seja, deve criar a cultura do consumo de obras de arte para que possa ser um factor útil no seu desenvolvimento, uma vez que passará a ter uma observação crítica em relação aos produtos artísticos”.

Duas décadas de percurso

Este ano Panaibra Canda celebra 20 anos de carreira. No entanto, a densidade da sua agenda – em termos de actuações no estrangeiro – não lhe permite pensar na criação de um evento específico para a ocasião. De uma ou de outra forma, “a avaliar pelo acompanhamento que temos tido nos lugares em que passamos, a celebração é grande”.

Duas décadas de carreira são um percurso que gerou um sentido: “ganhámos um certo reconhecimento no qual não nos abrigamos, porque as pessoas precisam de obras de arte. Elas não compram nomes, nem conceitos, mas querem obras de arte. Então, temos de investir de forma contínua na investigação e na qualidade dos trabalhos”.

Construir vantagem na desvantagem

Panaibra Gabriel Canda considera que “nós não apostamos numa qualidade local – como quem diz que o público moçambicano não está exposto a obras de artes, então, irá impressionar- se com qualquer criação – não nos conformamos com as nossas obras, sempre quisemos conquistar o público em qualquer parte do mundo”.

Entretanto, a grande pena – uma verdadeira desvantagem nacional – é que “vivemos num país pobre em que as políticas culturais não são fortes em relação aos outros. No mundo há Estados, como o Brasil por exemplo, em que basta que uma companhia local receba uma carta-convite para participar em festivais internacionais, para que o Governo do seu país crie condições a fim de que tenha passagens aéreas.

Nós não temos isso”. Em resultado disso, “se uma produtora de festivais culturais estrangeira nos convida a participar no evento, ela deve encarregar-se do pagamento das passagens, do visto da viagem, a acomodação, incluindo um cachê. Estamos numa situação de desvantagem”. Então, “imagine se a nossa obra fosse medíocre – ninguém iria investir tanto dinheiro nela”.

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