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Elsa Mangue, a mulher de sentimentos intensos

Elsa Mangue

“Tentei sempre fazer da minha vida o meu querer, a minha vontade. Não sou por isso diferente, sou apenas um ser igual que tem um canto da alma fertilizado por uma vontade própria. Uma determinação que queima o meu ânimo de decidir e encoraja a minha audácia e persistência. A minha coragem traduziu-se sempre na recusa de uma espécie de silêncio ou de tipo de ruído que me remetesse a uma vida de mudez, um calar não consentido pelo meu espírito”, escreveu Elsa Mangue no seu livro “Elsa Mangue e Eu, audácia e perseverança”.

É, na verdade, tamanha honra, para mim, escrever sobre Elsa Mangue. Mas, também, de tão sublime que foi a sua figura, sinto-me pequeno para tal acto. Talvez porque não se pode falar dela sem antes recuar no tempo e trazer as recordações da década de 1980, altura em que começa a cantar. Entretanto, o mais caricato nesta história é que nessa época, mal se pensava que, um dia, eu pudesse existir. No entanto, há duas décadas que tento desvendar as suas líricas mensagens.

O sofrimento que a acompanhou durante toda a sua existência. As nostalgias que nunca se apagaram dos seus pensamentos, pois em Elsa encontra-se uma figura angustiada, infeliz, que através da música – o seu cavalo de batalha – exprimiu os seus sentimentos. Na vida de Mangue, nada mais tinha importância para se abordar, através da primeira arte (a música), do que a própria existência. Uma realidade que – se quisermos ser sinceros – conota-se à vida de muitos moçambicanos. Não é obra do acaso que ela se encontre nas suas músicas.

O seu passado que persistiu como uma marca indelével. Tal como diz o jurista moçambicano, Amosse Macamo, Elsa canta na primeira pessoa. Todo o seu discurso responde aos seus problemas, aos seus questionamentos, e é importante realçar que a sua dor não morre, pelo contrário, transita de música em música. É resistente, permanente e emerge a qualquer altura. Diríamos também que ela cantava a marginalização, a discriminação e a violência a que as mulheres são sujeitas. E, grosso modo, a que ela foi submetida.

Talvez seja por isso que ela escreveu: “(…) A minha vida e o meu querer foram a busca de ritmos harmónicos e de canções coloridas de forma variada, diferentes umas das outras, que iluminassem e dessem sentindo à minha estada no mundo. Palmilhei a vida como qualquer um, mas ousei demolir sonhos de tradições e de uns e ergui os meus; mergulhei ou submergi quando fosse necessário; retive o ar ou soltei-o e vi-me consolada ou reconhecida à medida das minhas decisões e determinações”.

Contudo, falar de Elsa é revitalizar os 34 anos que ela entregou à música, reavivando e lutando contra a violência, a marginalização da mulher na sociedade moçambicana. A luta pelos direitos femininos deve-se ao sofrimento a que foi sujeita ainda criança com a sua mãe e os seus quatro irmãos.

Uma vida, um marco profundo

Nascida a 14 de Setembro de 1958, na província de Inhambane, distrito de Zavala, a artista foi baptizada com o nome de Elisa Filipe Mudumane. A sua vida, uma miscelânea de acontecimentos tristes, fortes e marcantes, não só foi interpretada nas suas diversas músicas, mas também numa autobiografia que nos interessa que comece da citação que se segue:

“Sou filha de Filipe Mudumune Mangue e de Dorotea Carlos Mutlombene. Vim de uma família grande, onde o meu pai era régulo. Eu sou a primeira filha da minha mãe, seguida de quatro irmãos. Mas na verdade somos um grupo de 162 descendentes do mesmo pai, isto porque ele era um verdadeiro polígamo. A minha progenitora aparece na vida do meu pai quando ele já tinha 35 mulheres, passando a constituir um total de 36 companheiras. Ele não parou neste número, pois, depois dela, outras tantas vieram. Em 1950, o meu pai adoeceu e foi levado ao Hospital de Chikhumbane. Foi lá onde ele conheceu a minha mãe que, na altura, tinha 12 anos de idade e estava a cuidar do seu pai, ou seja do meu avô, que também estava hospitalizado no mesmo local. O meu vovô criou amizade com o senhor Filipe e manifestou-se essa estima mútua, oferecendo a filha como esposa ao régulo”.

No entanto, “a minha mãe foi levada ao regulado de Mudumane, onde foi encontrar um mundo diferente do que vivera. Ela era a mais nova companheira do momento, uma posição que durou pouco tempo, uma vez que, depois de me ter concebido, ele procurou nova esposa”. Na terra, ou seja, no regulado de Mudumane, “cada mãe tinha a sua cozinha e uma machamba onde trabalhava para sustentar os seus filhos. Se uma mulher fosse preguiçosa, o problema era dela com a sua prole”.

Então, “a minha mãe, como as outras, foi sujeita a este tipo de vida. Dentre as 36 consortes que viviam com o meu pai na casa principal, onde eu nasci, havia uma única que comandava todas as outras, a “rainha” Marta, ou simplesmente Dona Marta, com quem ele era casado oficialmente e que, por força disso, tinha ganho o estatuto de assimilada”. Volvidos alguns anos, cansada de tanto sofrimento, Dotorea, mãe de Elsa, volta à casa do seu pai, levando consigo a sua prole. Mas, como se o destino lhes reservasse sofrimento, Mudumane não se conformou, e foi buscar os seus cincos filhos, incluindo a artista.

Na altura, “eu tinha sete anos de idade e os meus irmãos cinco, três, dois anos e seis meses. Na verdade tivemos um pouco de sorte, se assim se pode considerar, isto porque, passado algum tempo, o meu pai arranjou uma nova esposa para cuidar de nós, a Dona Florinda, que ficou com o quarto, a cozinha e a machamba da minha mãe. Mas, mesmo assim, eu tive sossego porque Dona Marta não tirava os olhos de cima de mim, uma vez que eu já era um pouco crescida e podia fazer trabalhos que os meus irmãos ainda não podiam”.

Aos sete anos de idade, altura em que toda a criança tem o direito de ser matriculada numa instituição de ensino, à autora de “Lágrimas” foi negado o direito à educação pela sua madrasta alegando “que se estudasse podia-me tornar prostituta”. Mas, visivelmente, este era um pretexto para não respeitar os seus direitos e, de certa forma, ter a mão-de-obra controlada. “Acordávamos às 5:00 horas de manhã para voltarmos às 16:00 horas. Descíamos para o rio para tirar água até encher o tambor sem ter descansado”.

No entanto, volvida meia década, aos 15 anos de idade, Elsa foge da casa do seu pai. Na verdade, “senti que eu tinha que fazer algo para me livrar desta situação o mais rápido possível, mas o medo era grande. (…) Então, decidi fugir no dia 18 de Agosto de 1974, uma quarta-feira, à noite, quando todos estavam a dormir. Caminhei em direcção à Estrada Nacional Número 1, durante um dia e uma noite sem parar”. Mesmo vivendo num mar de incertezas, Elsa nunca perdeu a esperança de um dia concretizar os seus sonhos. Desejos que só se concretizaram a partir da década de 80, altura em que chega a Maputo, onde começa a cantar.

As músicas são o reflexo da sua vida

Seria difícil, para qualquer um, falar de Elsa Mangue sem aos menos lembrar-se das músicas “Waguira” e “Lágrimas”, com as quais ganhou, em 1986 e 1993, os prémios “Melhor Voz Jovem Africana” e “Top Feminino”, respectivamente. Legítimo é dizer que, nas suas músicas, Elsa canta os seus prantos. É por essa razão que, lembrando- se da solidão, do desamparo a que foi sujeita ainda criança, Elsa implora para que os seus progenitores lhe dêem amor. Na música, cantada em Changana, Mangue questiona sobre quem irá cuidar dela, pois, segundo a letra, “é maravilhoso ser protegido pelos pais, mas, eu, infelizmente não tive esta sorte”.

Em “Lágrimas”, Elsa traz uma outra realidade por ela experimentada. A exclusão e o abandono que, mais uma vez, se circunscrevem às suas melodias, afligiram sempre a artista. Embora o convívio familiar seja significativo na vida de qualquer um, nessa música, cansada de ser rejeitada, a artista afirma que “se somos familiares não te comprarei, pois um dia voltaremos a encontrar-nos”.

Ainda nesse tema, Mangue lamenta o facto de ser rejeitada pela sua própria família, e pensa em ir, mas também promete que “um dia voltarei”. Na verdade, trata-se de uma partida forçada que visa, para além de tentar viver noutros lugares, encontrar a paz que sempre almejou. Tal como havíamos dito, nas músicas de Elsa encontra-se a sua vida. Se num dos temas a artista se recordou da sua infância, no título “Tindjombo” traz a juventude.

Aliás, o azar e a esperança de um dia poder casar. Em resultado disso, ela cantava para aliviar a dor e contentar-se com a vida que levava: “Tindjombo lava kandzaka, vatitsamela niva nkatavu kaya” o mesmo que “sortudos os que conseguem manter um lar e vivem felizes com os seus cônjuges”. A lírica de Mangue não pára nessas músicas. A cada tema que canta, a artista retira mais um pedaço de si, da sua história.

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