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Editorial -Nem tanto ao mar nem tanto à terra

Este é, decididamente, um país de boatos, de rumores, de diz-que-disse. Agora só nos faltava mais este: albergar campos de treino de terroristas. Nos últimos três dias, este assunto tem feito correr muita tinta nos jornais. Tudo ganhou mais peso desde que, na passada terça-feira, um senhor chamado Ronald Sandee que trabalhou para a secreta holandesa e que agora dedica o seu tempo a fazer relatórios para uma instituição norteamericana da área da segurança, veio a terreiro dizer, passo a citar, “os campos de treino terroristas em Moçambique já fizeram o seu trabalho” na preparação dos atentados para o campeonato do mundo na África do Sul. O especialista adiantou ainda que existem no território nacional três campos de treino: um na província de Tete e dois na de Nampula.

Referiu igualmente que o cabecilha é um paquistanês de nome Ibrahim Ibrahimi e que neles recebem treino militar somalis, indianos, bengalis e paquistaneses. Revelou ainda que estes aprendizes de terrorista estão ligados à Al-Qaeda de Bin Laden e às tenebrosas milícias Al Shabaad com raízes na Somália. Sandee vai mais longe ao afirmar que alguns instruendos que estavam em Moçambique já se juntaram às células que planeiam ataques durante o Mundial da África do Sul e que o método a utilizar poderá ser o de kamikaze. Sandee justifica a opção dos terroristas por Moçambique com o facto de o Estado ser fraco e, por conseguinte, bastante vulnerável a este tipo de acções.

O lado moçambicano já reagiu à publicação do documento. O porta-voz da polícia moçambicana, Pedro Cossa, desmentiu categoricamente, tão categoricamente que acabámos por desconfiar: “Não é verdade que haja campos de treino de terroristas em Moçambique e estas informações só podem vir de pessoas que não querem que o Mundial da África do Sul seja um sucesso.” Cossa só faltou dizer que a culpa era do Ocidente que via coisas onde mais ninguém via. Uma posição bem mais ponderada mostrou ter o Presidente Guebuza que do exterior veio dizer que achava muito pouco provável que isso (a existência de campos de treino terroristas) ocorresse em Moçambique.

O chefe do Estado prometeu que este assunto seria analisado com minúcia por parte das autoridades competentes. Pois aqui, como em muitas outras coisas, no meio – neste caso será a voz de Guebuza – parece estar a virtude. O documento carece de provas concretas. Não basta atirar para o ar umas coisas e já está. Vamos todos acreditar. Os campos de treino de terroristas são estruturas grandes, que ocupam muito espaço físico, que necessitam de grandes apoios logísticos só possível com a conivência do governo ou pelo menos das autoridades de uma vasta região.

Por isso é que no Afeganistão se desenvolveram melhor do que nunca com o governo dos talibãs. Por isso se desenvolveram também muito na zona fronteiriça montanhosa entre o Paquistão e o Afeganistão. Por isso se desenvolvem também com conhecido êxito na Somália e no Iraque. Também é certo, não é necessário ser-se especialista para saber, que não é de um dia para o outro que se formam terroristas. Há toda uma mentalização física, e sobretudo psicológica, que pode durar anos, mas nunca umas vagas semanas.

A confiança desmedida tanto de Sundee como de Cossa, embora em pólos opostos, inspira tudo menos isso mesmo: confiança. Porque nestes assuntos, que implicam a segurança colectiva, cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

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