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Editorial – Adieu République Rwandaise, Welcome Republic of Rwanda

Desde o passado dia 30, com a adesão à Commonwealth, o Ruanda, esse pequeno e sobrepovoado país da região dos Grandes Lagos que ficou tristemente célebre pelos massacres que em quatro meses dizimaram 800 mil pessoas, passou a ser nosso duplo irmão.

Passo a explicar: o Ruanda e Moçambique não só são membros de pleno direito desta organização como são os dois únicos países que nunca tiveram, no seu passado, qualquer laço institucional que os ligasse à Grã-Bretanha.

Os restantes membros ou foram territórios colonizados pelos ingleses ou possuíam alguma ligação constitucional com a Velha Albion. Mas, ao contrário da nossa adesão que se ficou sobretudo a dever ao pragmatismo ditado pela geografia – Moçambique é uma ilha lusófona no meio de um oceano britânico – e pelas trocas comerciais – SADC – no caso do Ruanda este país juntou o útil – o inglês é o esperanto moderno – à vontade de querer cortar definitivamente os laços com a francofonia, uma vez que a França acusou sempre o presidente ruandês, Paul Kagame de ser um dos responsáveis pelo genocídio ocorrido em 1994, defendendo inclusivamente que este devia ser levado ao TPI em Haia.

Por isso também o mergulho na comunidade britânica do 54 º membro é muito maior do que o nosso. A língua oficial – nas escolas e em todas as repartições do Estado – já é, desde Outubro do ano passado, o inglês, isto apesar de só 10% da população se expressar satisfatoriamente neste idioma. Nessa altura, o ministro da Educação ruandês justificou a decisão, numa entrevista polémica ao Washington Post, da seguinte forma: “Quando no mapa olhamos para os países de língua francesa o que é que vemos?

A França, uma pequena parte da Bélgica e um terço da Suíça. Quase todos os países falam inglês. Até na China se fala inglês. Até na Bélgica na região flamenga o inglês é mais usado do que o francês!” Contudo, para os mais conservadores, a mudança de língua oficial é um absurdo e sentem-na como um renegar da História do país, que, tal como o vizinho Burundi, foi uma colónia belga até 1962. No entender destes tudo não passa de um capricho de alguns líderes que estiveram muito tempo emigrados no Uganda e em outros países anglófonos da região.

A ferros ou não o certo é que a língua de Shakespeare, está a entrar com força no país. As aulas em inglês são requisitadas na proporção de dez para um em relação às de francês; nas ruas, um pouco por toda a parte, as tabuletas vão pelo mesmo caminho; nas repartições do Estado quem não sabe o mínimo de inglês fica de fora; e, imaginese, até os campos de cricket, essa modalidade que só quem esteve sob domínio britânico pratica, vão proliferando, fazendo também eles parte do processo de “inglessização”.

E, o mais curioso e irónico de tudo: a adesão à Commonwealth formalizou-se exactamente na semana em que o país restabeleceu relações diplomáticas com a França, interrompidas durante quase 15 anos na sequência do genocídio.

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