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A mão da Verdade – “La Main de Gloire”

O próprio Thierry Henry pede que o jogo seja repetido. Ele está sendo corroído pelo remorso. Levou sim, a bola com a mão na jogada que resultou no golo que qualificou a França para a Copa do Mundo – e desclassificou a Irlanda. Thierry Henry tem sonhos.

Num dos sonhos, gnomos irlandeses invadem o seu quarto enquanto ele dorme e levam a sua mão! Thierry Henry acorda sem sua mão esquerda, a que ajeitou a bola para o passe. A mão criminosa, levada para Dublin, para ser julgada. Em outro sonho, a selecção de França entra em campo para o seu primeiro jogo na Copa da África do Sul, e o estádio inteiro agita a mão esquerda no ar enquanto vaia os franceses, e Thierry Henry identifica a sua própria mãe no meio da multidão gritando “Vergonha! “Vergonha!” “Honte! Honte!”

A selecção tenta se refugiar no vestuário, mas as mãos vão atrás e derrubam os jogadores com cócegas e tapas. Ouve-se no estádio uma nova versão da “Marselhesa”: “Alonsanfã de la patrie, la main de gloire est arrivê…” Thierry Henry não consegue comer. Pela sua saúde – sem falar na sua honra e na da França –, é preciso que o jogo seja anulado e jogado outra vez. Mas a FIFA resiste. – Pense na complicação, Thierry. Anular um jogo e organizar outro… Mudar todo o nosso calendário…

Não dá. – Mas eu não aguento mais o remorso. Não durmo, não como… E o bom nome da França? – Temos que ser práticos, Thierry. Aconteceu, foi lamentável, mas não se pode mudar a História. E o bom nome da França, que já resistiu a tanta coisa, certamente que resistirá a mais isto. O Governo de Vichy foi bem pior. – Sim, mas e eu? A minha história, o meu bom nome? E a minha saúde? – Tudo isso passará com o tempo, Thierry. E tem outra coisa… – O quê? – Pense no precedente. A FIFA tem razão. Repetir o jogo por causa da mão e da culpa de Thierry Henry criaria um precedente incómodo.

O remorso de Thierry Henry poderia contagiar o planeta. O arrependimento e a ânsia de confessar erros e corrigir a História poderia extrapolar do mundo do futebol (outras mãos decisivas que o juiz não viu, penáltis fingidos, campeonatos comprados) para o da política (“Roubei, roubei sim! Quero que me cassem!”) e dos negócios (“Superfacturei! Explorei os meus empregados! Não mereço a minha fortuna!”) e acabar numa orgia de auto-recriminação e reparação, culminando – porque não? – com as Américas sendo devolvidas aos índios. Mas Thierry Henry insiste. Sua culpa precisa de ser expiada. Maradona telefona. – Tchê, Henry. Que pasa? – Foi o passe que dei depois de ajeitar a bola com a… – No, no.

Que se passa por aí? Que história é essa de querer voltar atrás e desfazer sua mão? Vão acabar pedindo que a Argentina devolva sua Copa de 86 por causa do golo que eu fiz com a mão contra a Inglaterra. Ou decidindo repetir aquele jogo. Nada de voltar no tempo viejo. Pára com isso. O que está feito, bem ou mal, está feito. Volver é nome de tango. – Mas você nunca sentiu remorso?

– Re…quê? Thierry Henry finalmente cede. Não insiste na expiação da sua culpa. Raciocina assim: Se a França for mal na Copa, será castigo suficiente. Se a França ganhar a Copa, então rasgará as vestes, derramará champanhe sobre a própria cabeça e será esmagado e carregado no ar por homens suados, como contrição.

*Escritor brasileiro e colunista do jornal “Expresso”

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