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É possível o mundo tornar-se um playground?

É possível o mundo tornar-se um playground?

Os jovens moçambicanos Osvaldo Isabel, Daniel Mangue e Julieta Victor, da Associação Cultural Ximbitana, seleccionados em Março – no âmbito do projecto The World Is Our Playground envolvendo duas colectividades artísticas de Moçambique e Dinamarca – partiram na sexta-feira, 12 de Setembro, com destino a Copenhaga, onde, a par dos actores Dadivo José, do Teatro Mahamba, Layla Mollerup e Dorte Wium, da companhia dinamarquesa TeaterKunst, irão ministrar uma série de workshops sobre os direitos da criança. Saiba a seguir como a ideia nasceu…

Como se costuma dizer na gíria popular – promessa é dívida. E os artistas Dadivo José, Layla Mollerup e Dorte Wium, autores do projecto The World Is Our Playground – já considerados, nestas páginas, três “loucos” em Maputo – cumpriram a sua. Layla Mollerup, de origem brasileira, e a dinamarquesa Dorte Wium trabalham juntas no sector das artes há 10 anos.

Elas são colaboradoras da companhia artística da Dinamarca TeaterKunst, a partir da qual, com o apoio do Centre for Culture and Development, CKU, criaram a iniciativa The World Is Our Playground com o intuito de (envolvendo as crianças para a criação de um mundo melhor) transporem as barreiras que existem entre as pessoas em várias dimensões.

Depois de um casting, realizado em Março, em Maputo, estes três artistas de nacionalidades diferentes apuraram Osvaldo Isabel e Daniel Mangue, ambos de 18 anos de idade, e Julieta Victor de 15, por terem revelado qualidades que os tornam particulares, habilitando-os a interagir com pessoas da sua faixa etária, na Dinamarca, para intercambiar experiências e pontos de vista sobre os direitos humanos da crianças.

O que se fará

Dadivo José é actor, docente e músico e Layla Mollerup e Dorte Wium são produtoras criativas. No entanto, o teatro, como forma de arte, é o elemento comum mais visível no seio da equipa. De todos os modos, referir as razões que moveram estas duas artistas a deslocarem-se a Maputo, em Março último, é fundamental para se compreender o programa The Word Is Our Playground. Além do mais, é esta a iniciativa que possibilitou algum conhecimento entre os artistas.

“Como o nosso foco é trabalhar internacionalmente, a nossa colaboração com o Dadivo José resulta de uma pesquisa que se baseia na grande vontade que o TeaterKunst tem de actuar com artistas de países africanos”, explicava, na altura, Layla Mollerup.

E é simbólico o pensamento desta actriz porque a acção de pessoas adultas – quando positiva e apreciada pela pequenada – pode influenciar favoravelmente a formação das suas personalidades. Portanto, o foco do The World Is Our Playground, um intercâmbio cultural entre Moçambique, Dinamarca e, em certo sentido, o Brasil porque Layla é brasileira, tem a ver com a disseminação dos direitos humanos das crianças no seio dessa camada social. Para o efeito, empregar-se-ão, entre outras técnicas, os jogos dramáticos.

“Queremos perceber como as crianças lidam com a questão dos direitos humanos e/ou direitos da criança. Quais sãos os problemas que existem em relação a este assunto? Como é que os seus direitos são tratados aqui? E quais são as suas reacções? Como é que esse trabalho será apresentado às crianças dinamarquesas e como elas irão lidar com este jogo?”

Seguindo o mesmo raciocínio, Dorte Wium explica que “um dos motivos que inspira o nosso trabalho é a necessidade de informar, de uma maneira artística, sobre os problemas sociais e raciais atinentes aos direitos humanos das crianças. Por essa razão, a meta é explorar as vantagens que podem surgir da interacção entre as crianças moçambicanas e dinamarquesas para ambas as culturas”.

Usando, essencialmente, uma técnica teatral baseada em jogos, os aspectos do comportamento infantil que esses artistas pretendem compreender são sublimes. Não é obra do acaso que, acredita-se, o seu domínio por parte da pequenada melhora, em grande medida, a sua qualidade de vida em vários quadrantes.

Um playground

Como é evidente, a ideia que enforma o projecto The World Is Our Playground tem em foco um anseio humanista e humanitário – a possibilidade de a terra, no seu todo, ser um lar no pleno sentido da palavra. Um lugar onde as pessoas se sentem seguras para criar, brincar, sonhar, correr atrás dos seus sonhos e ser felizes. No entanto, quando se fala, por exemplo, da necessidade de se salvaguardar um direito, depreende-se, à partida, que o mesmo pode ser violado.

E no caso dos direitos da criança – a nossa experiência citadina mostra-nos que – nem vale a pena ignorar as falhas que se cometem ante a necessidade de prezá-los. O comentário de Layla mostra que nem aqui nem noutro lugar o mundo é um mar de rosas: “Gostaríamos de perceber até que ponto as crianças dinamarquesas (o sentido inverso é válido) se reconhecem como tais, em relação às moçambicanas.

Será que nós, os homens, somos todos iguais? Que dificuldades enfrentamos? Como lidamos com elas? Quando alguém abusa de mim, o que faço? Como reajo? A quem recorro? Que mecanismos existem – em Moçambique ou na Dinamarca – para me proteger? Esses são focos que, artisticamente, nós gostaríamos de perceber como é que irão decorrer quando as crianças se reunirem”.

Uma viagem para conhecer

Se por um lado, tanto Layla como Dorte têm informação suficiente sobre o tópico direitos da criança, na realidade dinamarquesa, por outro, já não se pode dizer o mesmo em relação à situação de Moçambique. É nesse sentido que a sua vinda, em Março, a Maputo, também tinha o objectivo de explorar essa informação aqui, tendo sido por isso que não se fez uma pesquisa prévia através dos recursos disponíveis.

“Na verdade, nós temos muita informação acerca dos problemas sociais, sobretudo o tema dos direitos humanos da criança, na Dinamarca. Sobre Moçambique não sabemos absolutamente nada. Inclusive, por essa razão, a nossa viagem tem o objectivo de materializar uma pesquisa sobre estes assuntos. Mas começar o trabalho de zero, sem nenhum conhecimento, também é uma metodologia”, diz Layla.

Roturas necessárias

Analisado a partir do seu conceito, depreende-se que o projecto The World Is Our Playground propõe a necessidade de haver algumas rupturas em relação a alguns modelos e paradigmas dos relacionamentos humanos. Mas, qual é a motivação para este proceder? Que objectivos se pretendem atingir?

“Queremos criar um projecto capaz de, à escala internacional, quebrar as barreiras que possam existir entre as pessoas, a fim de que as crianças dinamarquesas cresçam internacionalmente, porque, neste momento, elas viajam muito, mas não têm a noção do que acontece no mundo”, explica Dorte Wium.

Por sua vez, Layla Mollerup assegura que “uma das metas que nós queremos atingir é que as crianças das nações envolvidas no projecto se tornem amigas, desenvolvendo uma relação que – mesmo que o programa termine – se pode materializar e possa ser perpetuada através das redes sociais e de outras formas possíveis”.

Enfim, a possibilidade de transformar o mundo numa espécie de playground – como Dadivo José, Layla Mollerup e Dorte Wium pretendem fazer com a sua iniciativa – é uma utopia em que vale a pena apostar. Todas as formas e pensamentos possíveis nesse sentido são uma mais-valia.

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