Para continuarmos  a fazer jornalismo independente dos políticos e da vontade dos anunciantes o @Verdade passou a ter um preço.

Wachala: Uma dança de intervenção social

Wachala: Uma dança de intervenção social

No período colonial, a dança Wachala era usada pelos habitantes do povoado de Mucocola, no distrito de Muecate, província de Nampula, para expressar a sua revolta contra os portugueses. Presentemente, aquela manifestação cultural continua a ser revitalizada e é utilizada para se fazer crítica social.

Foi mercê de um convite efectuado pelo líder comunitário do povoado em alusão, o régulo Aiúba Saíde, que o @Verdade visitou Mucocola. A intenção daquela entidade era mostrar as variedades culturais predominantes naquele ponto do país. No entanto, a nossa equipa de reportagem deparou com a dança Wachala, um movimento cultural dos escravos, na era colonial.

Naquela época, a dança era praticada durante os trabalhos forçados e não só, e utilizavam, também, para contar aos mais jovens e às suas famílias sobre o sofrimento vivido durante a escravatura, pois não tinham espaço sequer para reclamarem junto aos protagonistas daquela acção macabra, devido ao tratamento desumano a que eram sujeitos. O povoado de Mucocola localiza-se a sensivelmente cinco quilómetros da vila sede do distrito de Muecate, que dista 85 quilómetros da cidade de Nampula.

É nesse ponto do país onde encontrámos o grupo cultural denominado Wachala, curiosamente o nome da dança a que nos referimos. Composta por sete membros, dentre os quais quatro dançarinos e três batuqueiros, a colectividade foi recriada no pretérito ano de 2013, por José Mualemona, de 53 anos de idade, e natural daquela circunscrição geográfica. Para tripudiar aquela variedade cultural, é prudente dominar-se algumas técnicas tradicionais, que consistem na combinação das vozes com os passos da dança, assim como o próprio corpo.

Porém, à semelhança dos ancestrais, os dançarinos rasgam a sua vestimenta e usam saias de palhas de palmeiras e chacachas (um instrumento tradicional utilizado para produzir sons) amarradas às pernas para animar a dança. Mualemona explicou que não existe um período predefinido para se praticar aquela variedade cultural, uma vez que os ancestrais trabalhavam quase todos os dias. “Não há necessidade de se definir um espaço de tempo para praticar Wachala, pois os nossos avós não descansavam”, afirmou.

As novas abordagens do Wachala

Actualmente, dançar Wachala já não é sinónimo de estar cansado de ser escravo, mas sim um mecanismo de ensino e restabelecimento dos valores morais perdidos ou em vias de extinção. De acordo com José Mualemona, a dança é usada para explanar à sociedade, sobretudo à camada jovem e aos adolescentes, sobre a necessidade de se respeitar os direitos humanos, o amor ao próximo, e, não menos importante, o valor da paz. Para Mualemona, a sociedade está a perder os seus princípios e tende a ser engolida pela globalização, razão pela qual surgiu a indispensabilidade de se revitalizar a dança Wachala.

“Durante as nossas actuações, procuramos abordar um pouco de tudo o que acontece no dia-a-dia do nosso povoado, sem esquecer os assuntos relacionados com a saúde, destacando os benefícios do uso do preservativo no âmbito da prevenção das doenças sexualmente transmissíveis e da higiene pessoal assim como colectiva”, explicou.

De acordo com o nosso interlocutor, o Wachala tem um papel importante na formação dos adolescentes durante os ritos de iniciação, pois serve, também, para dotar a sociedade de conhecimentos sólidos sobre as tendências e formas de vida na sociedade. A dança também aborda assuntos relacionados com o modelo de convivência matrimonial, protestando contra a situação da violência doméstica.

“Antigamente, era raro um cidadão bater na sua mulher tal como acontece hoje em dia. Naquela altura, os casais sentavam-se para discutir os assuntos que desestabilizavam a convivência nos seus respectivos lares. Nós pretendemos desta maneira, também, trazer de volta o valor e o significado do casamento no seio das pessoas que vivem maritalmente”, repisou Mualemona.

“Não é fácil revitalizar a dança Wachala”

Na opinião do representante do agrupamento, não é fácil manter a colectividade, pois o conjunto depara com várias dificuldades, dentre as quais a falta de meios materiais como batuques, apitos e financiamento para suprir as despesas do conjunto.

Por um lado, Mualemona apontou a fraca adesão de jovens ao grupo como uma das situações que põem em causa o futuro daquela dança, uma vez que o legado deve ser passado de geração para geração. Por outro, aquele representante sublinhou que há pouca contribuição por parte das entidades que gerem eventos culturais naquela circunscrição geográfica.

“Wachala é nossa fonte de vida e rendimento”

Os membros do ajuntamento Wachala dizem-se felizes pelo facto de terem realizado os seus sonhos, nomeadamente revitalizar a dança, ganhar espaço no seio da juventude local e aconselhar as pessoas por via do canto e da dança. Contudo, os mesmos afirmam que aquele género cultural é a sua fonte de vida.

Por outro lado, é, também, fonte de rendimento uma vez que, às vezes, durante as suas actuações têm ganho algum dinheiro para garantirem o sustento das suas famílias, embora não seja sempre.

Segundo aqueles músicos, de certo modo, as actividades culturais no distrito de Muecate não são movimentadas de forma contínua, e os artistas vivem entregues à sua sorte e só são lembrados em caso de alguma visita de um membro sénior do Estado ou quando se trata do aniversário da vila ou do povoado.

“Pretendemos deixar o legado nas mãos dos nossos descendentes”

Segundo José Mualemona, o agrupamento pretende formar os mais novos para não deixarem a dança extinguir-se. A ideia surge devido ao facto de a Wachala ser uma dança herdada dos ancestrais e foi passando de geração em geração e, portanto, espera-se, com essa acção, que os seus netos não percam a linha cultural dos seus progenitores.

Na opinião daquele líder do conjunto, as manifestações culturais são mais importantes para o reconhecimento dos feitos de um determinado povo e a única forma de se valorizar a sua existência, pois trata-se de uma identidade e não de um simples acto contemporâneo.

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Related Posts

error: Content is protected !!