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E o povo desabafa no Mapiko…

Enquanto o Inverno prevalecer, na cidade de Maputo, o ponto de encontro para um entretenimento sadio continua a ser o Teatro Mapiko da Casa Velha. É lá onde, no âmbito do décimo Festival de Teatro de Inverno, actores de diversas manifestações culturais, a par do público, se encontram para reflectir sobre os problemas do seu tempo.

Neste fim-de-semana, finda o décimo Festival de Teatro de Inverno. No entanto, sem ignorar o trabalho colectivo dos grupos participantes, é preciso ressaltar que os Chamuarianga, da cidade da Beira, dizem que a crise em que os moçambicanos vivem se deve ao facto de, uma vez que os seus pais, Samora e Josina Machel, faleceram, serem órfãos. Em resultado disso, ainda que justas, todas as suas petições são ignoradas pelo Governo, o seu padrasto. Na verdade, agora, os moçambicanos, como povo, são uns “Indeferidos”.

A partir daí, como tem estado a acontecer, ao povo podem faltar todos os serviços sociais básicos (saúde, educação, segurança, alimentação, por exemplo) porque os médicos e os enfermeiros, cansados de serem ‘explorados’, como se sentem, por 27 dias abandonaram os doentes que povoam o Hospital Central de Maputo. Entretanto, à luz de uma pura dedução, não se pode ignorar que “Lá na morgue” – a peça de Dadivo José e Milsa Ussene – a situação está caótica.

Um senhor, brilhante artista, frustrado pelo sistema de governação do seu país que – a dado momento ganhou uma amnésia social, perdendo a noção da importância do trabalho artístico- -cultural – permitiu que uma pessoa sem as mínimas competências para trabalhar na saúde, por vias da corrupção, fosse empregado.

Como deixar de pensar que “Lá na morgue” os cadáveres dos nossos entes queridos são tratados de modo vil e obsceno numa situação em que, durante a vida, o Governo moçambicano não conseguiu barrar a inoperância do Hospital Central de Maputo, em prol da recuperação da saúde física e mental do povo?

Perante tudo isso, como se pode ignorar que uma certa imprensa – orientada a agir de forma paternalista em relação aos desvios dos governantes – pode anunciar ao mundo que Moçambique, país da África Austral, rico em recursos naturais e florestais (onde apesar de os mesmos beneficiarem mais os povos do além-mar) os nativos estão felizes?

Por outro lado, como ignorar que esta mesma imprensa – contrariamente aos clamores e prantos do povo pela melhoria das condições sociais – poderá dizer, ao mundo, que em Moçambique não há pobreza?

De forma lúdica, suave – sem perder em vista o seu objectivo – entretendo o seu público, os actores da cidade da Beira, organizados na colectividade Chamauarianga, criticam a actuação dos governantes. Mostram que eles tratam os governados como enteados. A realidade que eles narram em “Os indeferidos” é factual e remete-nos a essa dura realidade.

Como deixar de pensar que, nesta primeira e segunda dezenas do século XXI, as nossas crianças – ainda que sonhem em ser futuros professores, jornalistas, médicos, polícias, advogados – crescerão a saber que esses profissionais são aqueles que, devido às suas carências sociais condicionam as passagens de classe ao recebimento de bens materiais, não defendem a verdade que propalaram, abandonaram os doentes cujas vidas juraram salvar, torturam cidadãos honestos sem fundamentos aplausíveis ignorando os criminosos, defendem os criminosos, restituindo-lhes à liberdade?

Pelo menos no teatro – as peças O inimigo do povo, Salve-se quem puder, Lá na morgue, Os indeferidos, A face do beirense são exemplo de que na produção artístico-cultural que, actualmente, se faz é de um país em que a actuação dos dirigentes e do povo traduz um contra- -senso, pervertendo a natureza das profissões.

Nós temos um país em que, em resultado dessa má actuação do sistema do ensino, por exemplo, as pessoas formam-se mas, no fim do curso se, por um lado, não têm qualidades para trabalhar nos respectivos ramos, por outro, permanecem no desemprego, simplesmente, porque não têm a tal experiência de cinco anos de trabalho. É assim que os índices da população desempregada se tornam alarmantes.

O Governo deve apoiar a cultura

Quando termina o Festival de Teatro de Inverno, para muitos grupos de teatro amador, as oportunidades de exposição das suas obras escasseiam até o início da edição do ano seguinte do mesmo evento.

A realidade deve-se a várias razões dentre as quais o facto de, primeiro, expor uma peça de teatro ser um trabalho complexo que envolve a realização de pesquisas, ensaios, a produção incluindo, por fim, a exibição da obra num espaço adequado. No entanto, em relação ao palco para a apresentação da criação, a experiência brasileira – expressa por Anselmo Cesário – mostra que “a briga pelo espaço de apresentação de obras teatrais é retrógrada. Afinal, o teatro não precisa de ser feito, necessariamente, num palco convencional”.

Mas a não exposição das peças de teatro, em si, desmotiva os actores na medida em que causa muitas perdas em relação à produção feita que não é consumida e, consequentemente, não evolui. O pior é que, devido ao custo dos bilhetes para se ver as obras exibidas nos Teatros Gilberto Mendes e Avenida – pelas companhias Gungu e Mutumbela Gogo, respectivamente – a maior parte do público do Teatro Mapiko é sacrificada.

É nesse sentido que “os poderes públicos devem ficar atentos para que a produção artístico-cultural – quando não puder chegar à sociedade por vias comerciais – seja financiada para que possa ser consumida gratuitamente”, refere Anselmo Cesário.

Isso significa que espaços como jardins de uma escola ou praças públicas, se beneficiarem de um trabalho de iluminação e cenografia correctos, tornam-se adequados para a exibição teatral. E a exposição de obras de arte (o teatro, a música e a dança, por exemplo), nesses espaços alternativos, é mais produtiva porque os artistas têm a possibilidade de interagir com outro tipo de público, ao mesmo tempo que o formam, multiplicando-o.

Uma mostra paralela

É indubitável que entre Maio e Junho, em Maputo, o Festival de Teatro de Inverno cria uma dinâmica de actividades culturais em que o teatro é o elemento forte, ao mesmo tempo que se incluem a música, a dança, o recital de poesia, bem como, desta vez, as artes plásticas.

Em relação ao último tópico, vale a pena explicar que desde o seu início, a edição deste do referido evento possui uma mostra permanente de obras de arte em vários suportes, desde telas, batikes até bijutarias de autoria de Albino Edgar da Conceição, ou simplesmente Bino.

“O importante nesta mostra não é, necessariamente, que as pessoas comprem as obras mas que, no mínimo, elas apreciem e critiquem. É isso o que me estimula a trabalhar”, refere o pintor que acrescenta que “apesar de que no início eu não valorizava o meu talento, faço arte desde a infância até que, a dado momento, as pessoas que se aperceberam desse génio começaram a apoiar-me, aconselhando-me a dar continuidade ao trabalho”.

Nas suas obras, sobretudo a pintura, em que se traduz o dia-a-dia dos moçambicanos, partindo da sua dura infância, o artista mantém o mesmo traço mas varia, no entanto, os movimentos.

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