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… e o guetho pariu um estilista talentoso!

No princípio, o jovem estilista moçambicano, Feliciano da Câmara, era um autêntico leigo nas lides da moda. No entanto, presentemente, com um percurso de dez anos, além dos quatro prémios arrancados no Mozambique Fashion Week um (dos maiores eventos da área em África) dos quais faz de si o estilista estabelecido em Moçambique, nenhum argumento pode contradizer o facto de que do destino não se foge, como quando afirma: “Eu acho que nasci para a moda”. Conheça a sua história…

Feliciano da Câmara nasceu em 1986. É originário de um dos bairros da cidade de Maputo, Maxaquene, sobre o qual a Imprensa não reporta nada (de bom) a não ser problemas de diversa índole.

De lá surgiu Da Câmara, que se tornou um estilista a ter em conta, no cenário nacional e, porquê não, internacional. A verdade é que todo um cenário grotesco – como o anteriormente narrado – por lá existe mas, em Maxaquene, também se fazem bons actores sociais como, por exemplo, jornalistas, músicos, desportistas, juristas, não obstante as dificuldades sociais que imperam no subúrbio.

Aliás, apesar de não haver nenhuma intenção de sublimar o talento de Feliciano da Câmara, como se fosse algo invulgar entre os seus contemporâneos, o facto é que o mesmo se impôs para contrariar as vicissitudes que se experimentam quando se é um adolescente de 12 anos de idade e órfão de pais. Foi nessa época em que a relação de Feliciano da Câmara com a costura, ajustando as roupas dos seus vizinhos, para ganhar algum dinheiro, se intensificou.

Mas até aí não lhe aparecia nenhuma luz sobre a possibilidade de um dia, ao menos, se tornar um estilista. Sucedeu, porém, que em certa ocasião um dos seus cunhados o solicitou para que ajustasse uma das suas vestes. O resultado do trabalho foi espectacular. Aliás, na altura, o seu comentário revela isso: “o Feliciano será o estilista da nossa família”.

O miúdo que, na altura, nunca antes havia ouvido em parte nenhuma falar-se do referido termo, atiçou a sua abelhudice e quis saber com alguma especificidade, afinal de contas, o que é ser um estilista.

Desengane-se, então, quem pensa que tal foi o primeiro sintoma de que Feliciano da Câmara – que agora não somente é nome, mas também é marca de vestes – seria uma figura a ter em mente na moda. Muito antes, aos seis anos de idade, quando era aluno do ensino primário, o artista do bem-vestir sagrara-se o mais asseado entre os seus pares, num certame criado pelos seus professores na escola. “Talvez esse tenha sido o primeiro sinal de que eu seria estilista”, considera o jovem.

Ainda que trave uma relação segura com a profissão por si escolhida, chegada a hora de explicar como essa conexão se inaugurou, Feliciano da Câmara não conseguiu evitar a manifestação de alguma insegurança quando afirma que “é uma pergunta difícil porque o meu nome surge nesse panorama de uma maneira muito diferente. Eu não sabia que era estilista, muito menos o que era estilismo”. As razões já foram explicadas.

Não me quis tornar vândalo

Inspirado pela razão de não querer tornar-se mais um mendigo, uma despesa avulsa para a sociedade, uma vez órfão de pais, muito cedo, entre os 12 e 14 anos de idade, Feliciano da Câmara apostou no trabalho. O seu comentário revelou outras experiências interessantes, se calhar, verdadeiras mágoas.

“Por causa da minha condição de órfão, infelizmente, não tive o desgosto ou o privilégio de os meus pais optarem por uma actividade profissional em detrimento da outra para mim. O meu pai faleceu quando eu tinha 10 anos de idade, para, quatro anos mais tarde, a minha mãe também encontrar a morte. Foi assim que a minha vida foi ganhando estrutura no meio do desespero.

Eu comecei a costurar quando tinha 12 anos. Havia uma máquina de costura em casa que eu utilizava. Ainda que a minha mãe tenha visto isso, não sei se ela chegou a pensar que tal actividade poderia tornar-se a minha profissão, como também não sei se ela teria detestado ou apreciado”.

Se pensarmos que, de facto, como afirma Da Câmara, quando se é adolescente, demanda- -se a satisfação de necessidades especiais, na condição em que o artista se encontrava – não obstante o prazer que tinha pela sua actividade – os interesses financeiros tiveram de se impor ao gosto pela costura.

Ou seja, na verdade, “quando comecei a coser trabalhava por gosto. Eu apreciava esse trabalho, mas mais adiante dediquei-me mais a ela por uma questão de necessidade. Eu já era órfão de pai e a minha mãe não conseguia suportar os meus caprichos. Então, diante disso, caso não se satisfizessem tais anseios, as possibilidade de eu tornar-me um miúdo de família eram escassas.

Eu iria ser vândalo, o que eu não queria”. Portanto, “escolhi ser um menino de família, trabalhando. Eu realizei várias actividades por força de vontade. Intensifiquei a minha relação com a máquina de costura de modo que quase todos os meus vizinhos ajustavam as suas roupas na minha casa”.

Sair do Túnel

De acordo com Feliciano da Câmara, a sua fonte de inspiração é o quotidiano da sociedade em que se encontra. As narrativas locais, incluindo as vivências das pessoas. É isso que a sua última colecção de roupas, Túnel, totalmente inspirada na sua história de vida, revela.

“Aprecio muito conversas no contexto das quais capto o modo de vida das pessoas, a forma como elas cresceram. A partir disso, sou capaz de criar uma colecção e retratar a sua vida. Por exemplo, a minha última colecção, Túnel, foi inspirada na minha história de vida”.

É que em princípio, “no Túnel nós encontramos tudo escuro, mas no fim sempre aparece uma luz. Então, a minha colecção possuía essencialmente a cor preta acompanhada por uns detalhes dourados, incluindo anjos, que representam essa iluminação. Na mesma colecção incluí um número de dança com o objectivo de demonstrar que já estou numa situação melhor que a anterior”.

Feliciano da Câmara, que trabalha em paralelo com a rapper moçambicana Dama do Bling, é fã e seguidor do estilista português Nuno Gama. Presentemente, fala sobre a moda e os produtos afins com uma notável propriedade, como se tivesse alguma formação na área. Puro engano para quem assim pensa.

Na verdade, “eu nunca estudei moda. Parei de fazer o ensino geral na 10ª classe, por falta de meios financeiros. Eu precisava de trabalhar porque a minha situação estava muito complicada. Fiquei órfão de pais numa situação em que não existia nenhuma pessoa para me sustentar. Por isso acabei por optar pelo trabalho: apesar de não aguentar com esse tipo de actividades já fui – por um curto período de tempo – um vendedor ambulante e cobrador de chapa”.

Além do mais, “acho que, de uma ou de outra forma, eu tinha de ser um estilista. Com os anos de carreira que tenho, acabei por investigar mais sobre a moda. Penso que o convívio com estilistas experientes dotou-me de muitos conhecimentos sobre o sector”.

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