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Esculpir para sobreviver!

Forçado pelo custo de vida, em 2002, António Agostinho – ou simplesmente Amisse, para os seus amigos e apreciadores de arte, em Nampula – deixou de ir à escola e tornou-se escultor. Em Maputo, procurou melhores condições sociais, o que não encontrou. É que, na capital do país, faltou-lhe abrigo, amparo e solidariedade até que retornou às origens. Actualmente, persegue o sucesso a todo o custo…

Dos seus 27 anos de idade e pai de 3 filhos, Amisse diz ter abraçado a arte de esculpir a convite de um dos seus tios. Na altura, ele frequentava a 7ª classe e vivia com os seus pais, mas, como as condições financeiras não eram as melhores preferiu abandonar os estudos e seguir as pegadas do tio para construir o seu futuro.

“Quando o meu tio veio ter comigo para me ensinar aquela actividade parecia-me que não teria o gosto pela arte, mas algum tempo depois comecei a apreciá-la. Presentemente, é esta actividade que me garante o ganha-pão”, afirma em jeito de recordação.

Desde 2002 que Amisse trabalha como artesão. Infelizmente, até agora, de acordo com as suas próprias palavras, ainda não conseguiu realizar o seu grande sonho – doutorar-se em Matemática. De 2002 até 2004, o artista aprendeu a trabalhar o pau- -preto para gerar obras de arte, até que em finais do último ano exercia a actividade como profissional na Associação Anihova.

Daí em diante, com o dinheiro que ganhava na agremiação, adquiriu um terreno no qual, ainda que precária, construiu uma casa em que vive com a sua família. O negócio de fazer arte não gera muito dinheiro, mas, para Amisse, é suficiente para sustentar os seus próximos.

Por dia, a sua produção máxima é de 20 artigos, dentre os quais se pode encontrar bijutarias, chaveiros, colheres, colares, brincos, pentes entre outros objectos. Vezes sem conta, artistas moçambicanos e estrangeiros, incluindo clientes comuns, demandam os seus produtos para usá-los e/ou revender.

Os preços por si praticados variam em função do local e de quem os quer comprar. Aos domingos vende – a par de outros artistas e artesãos – os seus artefactos na feira local, em Nampula.

Lutar por um sonho

Porque para Amisse a pretensão de ser doutorado em Matemática é um sonho, este ano o artista irá retornar aos bancos da escola, mesmo que seja para estudar à noite. “O meu sonho é fazer o doutoramento em Matemática, em qualquer universidade do país. Adoro esta disciplina porque desde criança que me dedico a ela”, afirma ao mesmo tempo que acrescenta que está decidido a lutar pelo seu sonho.

De acordo com o artista, ainda que actualmente tenha um poder financeiro muito limitado, criar os filhos sem grandes constrangimentos é um acto nobre. Por isso, “quero estudar para lhes garantir um futuro melhor”.

Começou a prática da escultura por acaso, até que um dia descobriu que tal actividade fazia parte de si. Seja como for, porque o materialismo que o move fala muito alto, Amisse afirma que no dia em que conseguir um emprego melhor irá abandonar a produção artística.

Em profunda aflição na vida

Em 2008, António Agostinho deslocou-se da cidade de Nampula para Maputo, à procura de melhores condições de trabalho. Quando chegou à capital do país, no lugar de a sua vida melhorar, de sonhador tornou-se um mendigo. Faltou-lhe abrigo, comida e amparo. Por sete meses, procurou emprego mas o baixo nível académico deixou-o sem margens de manobra.

O pior de tudo é que, nas palavras de Amisse, em Maputo, nem as agremiações que se dedicam ao trabalho artístico, por si contactadas, puderam recebê-lo. A falta de amizade jogou um papel nefasto para a materialização da sua pretensão.

Para regressar à cidade de Nampula teve de aproveitar a boleia de um dos seus conterrâneos – com o qual se encontrou em Maputo – que em poucos dias retornaria a Nampula. “Quando me disse que sairia dentro de dois dias, fiquei muito feliz porque apenas faltava um dia para voltar ao convívio dos meus familiares e deixar a vida que eu levava em Maputo”.

Na sua terra natal, o artista foi expressar o seu arrependimento à Associação Anihova – a qual abandonara sem nenhuma explicação – ao mesmo tempo que implorou para retornar à sua actividade laboral.

Em 2009, o artesão voltou ao fabrico de peças de artesanato com as quais, no ano seguinte, participou na Feira Agropecuária, Comercial e Internacional de Maputo (FACIM). Foi lá onde granjeou a simpatia do público atraindo, para si, várias oportunidades, incluindo a estadia por um ano na capital do país.

Amisse disse que os seus produtos têm maior mercado em Maputo – onde são praticados preços competitivos – do que em Nampula, em que a comunidade local não os consome de forma satisfatória. Entretanto, apesar de a demanda dos seus produtos não ser grande, em Nampula, o escultor considera que é possível viver daquele ofício.

Ser bem-sucedido

Colocando as lamúrias e reclamações à parte, quando se recorda de que há pessoas que estão em situação social muito difícil ainda, orgulha-se da actividade que desenvolve.

“Se as condições de trabalho nesta agremiação continuarem a melhorar, penso que até o final do ano 2013 vou abrir a minha própria oficina, a fim de ganhar autonomia”, afirma a terminar.

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