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Duas décadas cantando pelo encanto

Duas décadas cantando pelo encanto

Em Moçambique, como em algumas partes do mundo, a coerência, nos trabalhos artísticos, nem sempre tem um valor estimável na sociedade. No caso do Majalizaescoral, que se encontra na senda do seu 20ª aniversário, como uma associação que promove trabalhos artísticoculturais, através do canto, em particular a música Gospel e a investigação de ritmos africanos, a situação não é diferente. São duas décadas de trabalho ofuscado pelas dificuldades, que se resumem à falta de espaços para a realização de ensaios, vestimentas e recursos financeiros para continuar com o seu ofício. No dia 17 de Agosto o grupo completa 20 anos da sua existência e, ao @Verdade, fala sobre a sua criação, os seus desafios e fracassos.

Criado em 1994, pelo maestro moçambicano Faustino António Chirute, formado em Regência Coral e Orquestral na Rússia, e o mestre autodidacta Ricardo Cândido, ambos falecidos, o Majescoral que significa Maputo Jazz Espiritual Coral, surgiu com o propósito de unir pessoas – crianças, jovens e velhos – por uma única causa: o anúncio do Evangelho e a luta pela harmonia social. Actualmente, o grupo é constituído por, aproximadamente, 40 membros que através da música, em particular o Gospel e ritmos tradicionais, educam a sociedade e louvam a Deus.

Na verdade, a agremiação nasceu no início da década de 1980, altura em que Chirute voltava de uma de um curso de ensino de música e investigação de ritmos africanos na Rússia, onde descobriu a necessidade de compor músicas para certas danças que, pela natureza, não são associadas a ritmos como, por exemplo, o Mapiko, o Xigubo, o Ngalanga, entre outras. Após a criação da colectividade, embora ainda com um número reduzido de elementos, em 2002, Chirute foi convidado a participar na gravação do actual Hino Nacional “Pátria Amada”. Desde então, na sociedade moçambicana, o seu grupo ganhou grande popularidade.

Grosso modo, o pedido veio como um desafio no seio do coral, pois ainda não tinha uma equipa adequada para materializar uma missão tão grande – compor e interpretar um dos símbolos da nação. Segundo conta o actual maestro do Majescoral, Feliciano de Castro, devido à inexistência de pessoas capacitadas para a gravação do Hino Nacional, foi preciso pedir auxílio a outros agrupamentos de corais nacionais como, por exemplo, o Grupo Coral Ondas de Emanuel.

Refira-se que nas suas músicas e/ou canções, o grupo está focado nos aspectos pontuais que fustigam a sociedade moçambicana: a frustração dos jovens que, dentro da desgraça, procuram possíveis soluções para as suas vidas ao mesmo tempo tendo em vista a harmonia social. Ao longo da sua história, os membros do grupo fizeram intercâmbios culturais com artistas nacionais, dentre eles Chico António, Jimmy Dludlu, Filimão Swazi, José Manuel, Salimo Mohamed, Elvira Viegas, entre outros, com o intuito de trocar experiências.

Contudo, para além das suas mensagens que de uma ou de outra forma contribuem positivamente para a mudança social, os membros do Majescoral fazem espectáculos a fim de angariarem dinheiro com o objectivo de prestar ajuda às pessoas mais necessitadas, que se encontram em diversas partes do país e circunstâncias: hospitais, casas de acolhimento, na rua, entre outras. Feliciano afirma que um aspecto de diferenciação no Majescoral é a formação dos seus membros, uma vez que a realidade moçambicana ilustra que a maioria de artistas dedica-se à arte, pura e simplesmente, por dom.

O facto deve-se à falta, se não à insuficiência, de especialistas formados na área que possam dar continuidade à formação. No entanto, em virtude da situação, o Majescoral garante uma formação musical aos seus membros com o objectivo de capacitá-los em aspectos como leitura, escrita e interpretação musical. Feliciano afirma que “no grupo, para além de fazer as doações, tentamos, através do Gospel, transmitir mensagens de convívio e exortar as pessoas de culturas diferentes para a mudança de comportamento”.

Ritmos africanos

“Nunca um americano pode saber algo sobre a dança Mapiko, por exemplo, se um moçambicano não mostrar como ela é feita. De tal modo que, um moçambicano não pode fazer Rap ou Underground melhor que um norte-americano e ninguém faz a Marrabenta da mesma forma que um moçambicano. Todos temos a nossa genética rítmica e não há como fugir”.

A falta de seriedade na música e a importação de estilos musicais tipicamente europeus e americanos, principalmente no que concerne a ritmos e mensagens, tem fustigado a vida dos moçambicanos que preservam a sua cultura. É também assim que pensam os membros do grupo coral Majescoral, que falam da necessidade de se investigar mais os ritmos africanos, principalmente os mais antigos.

Por exemplo, “quando se ouve falar de Xigudo, pensa-se numa dança, mas nunca na possibilidade de se criar um ritmo para ela”. Essa missão não só se estende aos novos talentos, que muitas das vezes sãos vistos como os irresponsáveis e embaixadores dos ritmos alheios, mas a todos os músicos que já perderam interesse pela África. De acordo com Feliciano de Castro, nenhum americano pode convidar um músico moçambicano que imita estilos musicais americanos, pois existem muitos e melhores nos EUA.

No entanto, para as investigações o Majescoral conta com jovens capacitados em investigações de ritmos, que a cada ano e em cada província procuram condições para associarem algumas danças à música. “Temos membros do grupo que viajam para o estrangeiro e procuram materiais para produzirem ritmos através de algumas danças. A música deve ser vista como o resultado da criatividade”.

Dificuldades

Tal como acontece com vários grupos que, infelizmente, ainda não têm espaços próprios para ensaiar, o Majescoral está na mesma situação. São 20 anos ensaiando em lugares alternativos. Segundo conta o vice-presidente do grupo, Arsénio Abel Manjate, a falta de espaços adequados para os ensaios, vestimentas e lugares para arquivar os documentos usados nas composições e investigações, tem criado barreiras no grupo. De todos os modos, “essa não seria a razão para desistirem do seu trabalho. Aliás, esse constitui, dentro do grupo, um desafio prestes a ser ultrapassado”.

Desafios

Na sua maioria os artistas têm vários sonhos a realizar. A título de exemplo, segundo Feliciano, para além de ultrapassar as dificuldades que tem a ver com a falta de equipamentos e espaço para os ensaios, o maior sonho é conquistar admiradores e fazer com que a sociedade moçambicana viva em harmonia. As celebrações dos 20 anos do grupo Majescoral iniciam em Julho próximo com um festival que inclui várias manifestações artístico-culturais, dentre elas palestras e a exibição do trabalho produzido ao longo das duas décadas.

No entanto, para além dessas actividades já agendadas, o evento servirá de oportunidade para se homenagear os dois nomes fundadores da colectividade: os maestros Faustino Chirute e Ricardo Cândido. Entretanto, outro desafio sempre presente na vida dos artistas é a necessidade de quebrar todas as barreiras a fim de ganharem a credibilidade dos patrocinadores que possam ajudar nas suas despesas.

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