Para continuarmos  a fazer jornalismo independente dos políticos e da vontade dos anunciantes o @Verdade passou a ter um preço.

Discriminados e rejeitados pela família

Calton Cristóvão Castro, de 16 anos de idade, e Paulo Ali, de 14, residentes na província de Nampula, são órfãos de pais e, infelizmente, fazem parte de várias outras crianças que, por terem perdido os seus progenitores, foram vítimas de maus tratos e rejeição no seio familiar. Por via disso, por alguns anos experimentaram o tipo de vida que levam as pessoas que vivem à margem da sociedade e cujo habitat é a rua. As histórias destes dois adolescentes reflectem, em parte, as condições deploráveis por que passam os demais petizes noutras regiões do país.

Calton Castro é um adolescente com uma anomalia orgânica caracterizada por uma total falta de pigmento na pele (albinismo). Segundo o seu depoimento ao @Verdade, cresceu junto do pai e não teve a oportunidade de conhecer a sua mãe em virtude de esta ter perdido a vida quando ele ainda era bebé. O seu progenitor morreu em 2008, vítima de uma doença prolongada.

A partir desse momento, o menino passou a viver com o irmão mais velho, numa casa deixada pelos pais no bairro de Napipine. No princípio, tudo era normal e tinha acesso às condições básicas a que um ser humano tem direito, nomeadamente alimentação, saúde, vestuário, educação, dentre outras.

Entretanto, a vida de Calton mudou drasticamente quando o irmão decidiu contrair matrimónio e os três, incluindo a sua cunhada, mudaram-se para uma nova residência algures em Nampula. Volvidas poucas semanas de convivência, o petiz apercebeu- se de que a esposa do irmão o discriminava.

Dizia que não estava em condições de conviver nem partilhar utensílios domésticos com ele, pois, nessa altura, o seu corpo estava coberto de feridas originadas pela fragilidade da sua pele. Com o tempo, o problema ganhou contornos alarmantes e insuportáveis e, a pedido do irmão mais velho, que pretendia salvaguardar o seu casamento, a criança teve de abandonar a casa e ido morar com um tio no distrito de Ribáuè.

O nosso entrevistado conta que a convivência no novo lar não foi saudável, por isso, 15 dias depois, mudou de casa alegadamente porque o seu parente também o discriminava alegadamente porque o seu albinismo iria contamina os seus filhos. “O meu tio disse que eu tinha de procurar outro local para morar.”

“Rejeitado” pelo infantário

O petiz foi obrigado a regressar à antiga residência onde foi morar sozinho, numa casa em condições deveras deploráveis, sem portas nem janelas. Perante essa situação, o secretário do bairro contactou a Direcção Provincial da Mulher e da Acção Social de Nampula, facto que culminou com a transferência do adolescente para o Infantário Provincial de Nampula. Contudo, no processo de triagem, segundo as regras burocráticas daquele centro, Calton Cristóvão foi excluído porque tem família. Consequentemente, o irmão teria sido chamado para o recolher e viver com ele.

A convivência foi difícil, uma vez que a discriminação voltou à tona, o que o obrigou, novamente, a morar sozinho na mesma casa donde teria sido resgatado por um secretário de bairro. Apercebendo-se da situação em que o menor se encontrava, a Direcção Provincial da Mulher e da Acção Social decidiu que ele devia passar a viver no Infantário Provincial de Nampula.

Mais tarde, Calton pediu para viver num internato e desde princípios deste ano encontra-se na Escola Secundária de Corane, no distrito de Meconta, que fica a uma distância de cerca de 80 quilómetros da cidade de Nampula, e a frequentar a 9ª classe graças ao apoio da Direcção Provincial da Mulher e Acção Social.

A perda do património deixado pelo pai

Calton contou-nos que o seu pai deixou alguns bens e algum valor para si, mas os familiares abocanharam tudo. Neste momento pretende recuperar uma parte da herança mas não sabe de que forma pode proceder. Aliás, a casa do seu progenitor foi vendida pelo irmão quando passou a viver no Infantário Provincial de Nampula. Em relação a este caso, o secretário do bairro instaurou um auto junto 1ª esquadra, onde há um processo em curso.

Outro adolescente maltratado pela família

Paulo Ali, de 14 anos de idade, frequenta a 5ª classe numa das escolas primárias de Nampula. Para além de aspirar a formar- se em engenharia, a situação em que se encontra faz-lhe alimentar o sonho de um dia ser activista da luta pela preservação dos direitos da criança órfã e vulnerável.

Actualmente, vive no Infantário Provincial de Nampula em virtude de ter perdido os pais precocemente. Depois desta desgraça, passou a morar com uma tia, a qual o submeteu a maus tratos e violência física.

O adolescente disse que era obrigado a fazer trabalhos pesados, acusado de roubo e, para escapar das agressões da sua tia, refugiou-se na rua, onde passou fome, sede e não tinha abrigo.

Como forma de ultrapassar as dificuldades que enfrentava, decidiu ser carregador de sacos no Terminal de Comboio do Corredor de Desenvolvimento do Norte (CDN) onde ganhava entre 5 e 20 meticais por cada trabalho.

Deixado à sua sorte, Paulo viveu três anos na rua e recorda que adoeceu sete vezes, tendo ido parar ao hospital. A par do que fazem os outros meninos desfavorecidos, o nosso entrevistado já se cobriu de papelão na época de frio.

Entretanto, a Helpe, uma organização portuguesa que lida com as crianças carenciadas em Nampula, convenceu o menor a aceitar fazer parte das crianças do Infantário Provincial de Nampula, desde Dezembro de 2012.

“Aqui a minha vida mudou por completo, aprendi a fazer blocos de construção, corte e costura, a tocar guitarra e piano, a moldar caricaturas em vidros e espelhos, a fazer colares e outras actividades que me vão ajudar no futuro”, revelou o petiz.

Share on facebook
Facebook
Share on google
Google+
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on pinterest
Pinterest

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Related Posts

error: Content is protected !!