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Desvio Positivo: uma receita contra a desnutrição em Moçambique

Desvio Positivo: uma receita contra a desnutrição em Moçambique

O Inquérito Demográfico e de Saúde de Moçambique (IDS) mostra que a província de Nampula possui a taxa de desnutrição mais elevada do país. A situação deve-se ao facto de a alimentação das crianças ser precária e pouco substanciosa. Em consequência disso, dezenas de crianças vivem debilitadas. Porém, os petizes do distrito de Muecate, em Nampula, poderão ter sorte diferente, mercê da introdução do projecto materno-infantil, denominado Desvio Positivo.

Estima-se que 55 porcento das crianças com idades inferiores a cinco anos vivem subnutridas, facto que pode interferir no seu crescimento e comportamento, quer em casa, quer na escola. Em Muecate, as histórias de petizes que vivem em estado de desnutrição aguda e crónica são incontáveis e afectam menores cujos pais não têm a noção do quão é importante dar uma alimentação saudável ao seus filhos.

O projecto de alimentação Desvio Positivo está a ser levado a cabo pela Visão Mundial – Moçambique e pelo Ministério da Saúde (MISAU) e os seus parceiros. A iniciativa visa a mudança de hábitos alimentares pouco benéficos, naquele ponto do país. Trata-se de uma papinha que resulta da mistura de vários ingredientes localmente acessíveis e baratos, inserida na nova abordagem da promoção da saúde da mulher e da criança que a organização Visão Mundial- Moçambique implementa pela primeira vez no país. O projecto abrangeu, numa primeira fase, cerca de 600 crianças e parte delas foi totalmente reabilitada.

No entanto, para se obter o produto final, são necessários apenas uma colher de sopa com papinha de farinha de milho, óleo de cozinha, folhas de mandioqueira moída e fervida, amendoim torrado e peixe seco triturado. A fórmula dá garantias de poder reabilitar uma criança em estado de desnutrição aguda e recuperar 200 gramas do seu peso em 12 dias. A história de Júlio João, de 10 anos de idade, residente do povoado de Mucocola, assemelha-se à de vários outros petizes da sua faixa etária.

O menino nasceu saudável, porém, devido à falta de domínio sobre as técnicas usadas para confeccionar alimentos nutritivos por parte dos seus progenitores, perdeu o peso e ficou irreconhecível. Júlio está debilitado. Ficou paraplégico e, actualmente, depende de uma cadeira de rodas para a sua locomoção. Mas, devido à falta de nutrientes que consumia, hoje está impossibilitado de falar e brincar com outros meninos.

Filho de pais separados, o rapaz vive com a sua mãe que, por sua vez, depende de outros familiares para garantir o pão de cada dia. Foi nesse âmbito que a família do petiz viu, na papinha administrada pela Visão Mundial – Moçambique e o MISAU, uma luz no fundo do túnel e uma fonte de esperança para a recuperação do pequeno Júlio. O rapaz está na sua primeira semana de consumo da chamada “papinha mágica”, e já mostra melhorias significativas, embora não se saiba se voltará a andar, mas aquele alimento já faz parte do seu cardápio.

Ainda no povoado de Mucocola, reside uma criança de nome Faruque Abílio, de apenas um ano de idade, cuja progenitora perdeu a vida durante os seus primeiros meses de vida. Quando a mãe do pequeno Faruque faleceu, ele passou a viver com o seu progenitor que, por sua vez, por causa da sua agenda diária, não controlava a alimentação do seu filho. Os dias foram-se passando e o menino ia perdendo, de forma cíclica, o seu peso e a sua estatura. O menor emagreceu e ficou gravemente desnutrido.

O pai não sabia o que fazer, tendo levado o seu filho à unidade sanitária mais próxima onde ficou a saber sobre a existência da papinha. Para sua sorte, o progenitor foi convidado a fazer parte do elenco de voluntários do programa da Visão Mundial – Moçambique e levou consigo o seu filho para beneficiar daquela alimentação. Durante 12 dias, o garoto foi ingerindo a papinha, tendo recuperado totalmente o seu peso.

“Vamos dar continuidade mesmo que o projecto termine”

As populações abrangidas pelo projecto dizem-se felizes, pois a introdução da papinha ora em alusão trouxe mais alegria no seio das crianças. O risco de desnutrição naqueles povoados está, visivelmente, a diminuir. Além disso, os populares afirmam que vão dar continuidade ao programa, caso termine. A decisão surge da necessidade de se ensinar a confeccionar a papinha outras famílias com vista à promoção da saúde e do bem-estar dos petizes.

Por outro lado, os nativos de Muecate esperam que o governo local venha a ajudar a promover campanhas de educação alimentar e de novas dietas. “Estamos preparados para dar continuidade ao projecto. Porém, esperamos que o governo promova, semestralmente, reuniões envolvendo os populares de Muecate para subsidiar os conhecimentos que temos em relação à alimentação das crianças e aos valores nutricionais dos alimentos”, disseram.

“Queremos dar uma vida saudável às crianças”

De acordo com Julinho Alexandre, gestor do programa materno-infantil, pretende- -se com a introdução daquela variedade de alimentação demonstrar as estratégias e as boas práticas para a alimentação dos petizes do distrito de Muecate. O projecto, com a duração de três anos, visa promover a saúde da mulher e das crianças menores de cinco anos de idade, através do combate à malnutrição.

“O Desvio Positivo é uma abordagem que consiste na reabilitação nutricional de crianças em 12 dias com recurso a produtos produzidos localmente. Por outro lado, temos o ‘Aconselhamento Certo à Pessoa Certa no Momento Certo’ que consiste no acompanhamento e aconselhamento de mulheres grávidas durante cada etapa de gravidez sobre os cuidados a ter com a saúde da mãe e do bebé até às crianças completarem pelo menos cinco anos de idade”, explicou Julinho. Segundo o nosso entrevistado, a papinha tem muitas vantagens, uma vez que quase todos os ingredientes são locais e de fácil acesso.

DPS pretende dar continuidade ao projecto

Por seu turno, Dominga Olímpio, representante da Direcção Provincial de Saúde (DPS), disse que há uma necessidade clara de dar continuidade ao projecto materno- infantil, particularmente o Desvio Positivo, pois ele assegura uma vida saudável às crianças. Por outro lado, aquela dirigente afirmou que o próximo passo da DPS visa levar a papinha aos outros pontos da província de Nampula onde a situação de desnutrição é crítica.

André Mandambwe, médico-generalista do distrito de Muecate, reconheceu que os efeitos da papinha são benéficos, por não submeter os menores ao risco de contraírem doenças diarreicas e infecto-contagiosas. Inácio Miquitaunde, administrador do distrito de Muecate, disse que a acção que está a ser levada a cabo pela Visão Mundial-Moçambique e os seus parceiros é, para além de gratificante, uma promoção da saúde no seio das famílias que residem naquele ponto do país.

Sendo assim, o governo distrital vai dar continuidade ao programa, uma vez que o projecto tem a vantagem de não provocar gastos avultados. Importa referir que, além do projecto Desvio Positivo, a Visão Mundial – Moçambique, a Fundação de Desenvolvimento da Comunidade (FDC) e a Direcção Provincial de Saúde (DPS), estão trabalhar no projecto de alimentação escolar denominado Food for Education, que está a reduzir significativamente a desistência de alunos nos estabelecimentos de ensino.

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