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“Desde pequenina, eu transformava em canção tudo o que via”

A melhor voz feminina no NGOMA/2008 e 2009 e, no ano passado, considerada a melhor artista feminina e melhor R&B neo-sum, no Mozambique Music Award, Jeny apresenta-se aqui caracterizada por uma modéstia absoluta, coisa que nem sempre se encontra em muitos daqueles que se sentem “estrelas importantes” no mundo da canção.

Quanto ao seu futuro artístico, por direito legítimo, Jeny diz-nos: “Quero voar” mas deixa também, bem vincado, que a sua voz, esse dom que Deus lhe deu, servirá, sempre, para auxiliar crianças e idosos desprotegidos. A paixão por cantar e por escrever as suas próprias canções começou bem cedo na vida de Janeth Olinda Zacarias que, subindo a pulso, se soube afirmar para ser hoje uma estrela dos palcos moçambicanos. Essa sua paixão poderia ser igual à de tantas outras crianças só que, esta figura franzina que hoje arrebata plateias, cantava imitando o que via na TV.

Para comunicar com os seus pais e outros familiares, mostrava possuir dotes só possíveis em pessoa crescida e era num improviso, inimaginável numa criança da sua idade, que construía as suas próprias letras e as cantava para comunicar com a família. Do outro lado, os seus pais admiravam-na mas era da sua mãe que vinham os maiores incentivos pelos dotes admiráveis que demonstrava: voz e veia poética.

“Escrevia tudo o que se passava comigo”

E Jeny fala-nos desse dom pouco comum em crianças: “Desde pequenina, eu transformava em canção tudo o que via. Era assim que eu “falava” com a família, especialmente com os meus pais, ainda vivos embora hoje separados. Os meus pais explicavam-me a vida e como eu deveria ser. Fui crescendo escrevendo todos esses ensinamentos e tudo o que se passava comigo. Tinha o meu diário sempre actualizado… e comecei a sonhar para concretizar o meu sonho”, assim começa Jeny a desfilar todo um rosário de recordações que estarão sempre vivas na sua memória.

Tinha eu 12 anos quando apareceu um Concurso destinado a descobrir novos talentos e os meus pais incentivaram-me a que me fosse inscrever. Fui aceite e foi aí que fiz o meu primeiro teste. Três anos depois, em 2001, já com 15 anos, conheci o Zé Pires e foi pela sua mão que, no seu estúdio, participei em coros de artistas da época, espectáculos e até actuações em público, Jeny recorda assim os primeiros momentos que a conduziriam ao patamar que tanto desejava.

Porque o sonho comanda a vida, é pela mão de Zé Pires que se lhe abrem as portas para o mundo que ambicionava e para o qual se sentia atraída. O seu primeiro CD acaba por surgir em 2006, contendo 11 temas originais de sua autoria e onde as canções “Vai” e “Olhar”originaram dois videoclips que conquistaram o público. Jeny entrava, assim, pelas mãos da Vidisco, nas portas da fama. O seu segundo trabalho poderá ser lançado ainda este ano, também com originais seus. É a veia poética que desde sempre se manifestou. Pelas mãos de Victor José e Zico A carreira de Jeny estava iniciada mas com muito caminho ainda a percorrer e muitos degraus a subir na escada que leva qualquer artista ao limiar da fama.

Em 2008, faz a sua primeira aparição na TV num programa do saudoso Victor José. Cantou em directo e sobre a responsabilidade sentida e os seus efeitos, recorda: O programa era em directo e eu senti o peso dessa responsabilidade. Estava a cantar e, às tantas, esqueci a letra e fiquei muda, ali, em cena, frente às câmaras. O Victor José, vendo isso, entrou, veio junto de mim e utilizou palavras de ânimo como se nada se tivesse passado e até pediu aplausos. Salvou aquele momento que, para mim, era terrível. Estava cheia de vergonha! Persistente como sempre demonstrou ser, sem nunca desanimar, Jeny foi concorrendo em tudo o que aparecesse e onde pudesse mostrar os seus dotes vocais. Certo dia, surge-lhe Zico que a convida para interpretar o seu poema, “Vai” musicado pelo próprio Zico.

Foi feito um videoclip que se tornou na verdadeira chave para o sucesso que desde criança sempre ambicionou. Hoje, quando trabalha já na execução do seu segundo trabalho discográfico, o sonho de Jeny adquire outra amplitude: Quero conhecer o mundo e atingir grandes patamares artísticos do mundo. Quero voar! No entanto, numa verdadeira manifestação de fé, logo acrescenta: Irei até onde Deus me quiser levar. Sou cristã, acredito muito em Deus e, tudo o que faço, a ELE entrego.

Dar concertos a favor de pessoas necessitadas

Assim, assumidamente cristã e sempre grata pelo dom recebido, a voz que Deus lhe deu, Jeny fala-nos sobre os concertos que qualquer artista almeja realizar e conseguir conquistar multidões. Esse momento é também um sonho e a sua realização não está distante. Porém, bem diferente de outras vozes, quer colocar a sua a ajudar pessoas carentes. O seu primeiro concerto como, aliás, todos os que realizar, serão dedicados aos mais necessitados. Quero colocar a minha voz a ajudar pessoas carentes. Vejo sofrimento na periferia da cidade. Quero ajudar! Desde pequena que sinto uma queda enorme para isso porque não suporto ver pessoas a passar fome sem as coisas mínimas.

Eu não tenho nada a não ser a minha voz e será com ela que irei ajudar os mais necessitados. Desde sempre, eu alimento um sonho de, quando um dia me casar, construir uma casa, grande, para nela albergar idosos e crianças necessitadas. Esse sonho ainda hoje continua comigo. Vem aí o Natal e irão aparecer pessoas sem alimentos, sem nada para comer. Eu farei o que puder para contribuir. Mesmo em relação ao interior do país, às províncias, Jeny mantém o mesmo propósito de, se possível, em cada capital de distrito, promover um concerto em que os ingressos, em vez de dinheiro, serão pagos em géneros alimentícios para posterior distribuição por esses desprovidos da sorte.

Ela já cantou em todas as cidades principais, convidada por agentes locais mas, disposta a cumprir esse desígnio, após o lançamento do seu segundo álbum, voltará a esses locais com esse propósito. Quero construir um “show” para o levar em digressão por todas as cidades mas sempre com a mensagem a que me propus: angariar alimentos destinados a crianças e idosos. Para esse “show” já tenho o apoio do Big Brother, na pessoa do Julinho, o Júlio Sitoe. E a autora e intérprete de “Olhar”, revelando sempre, sempre, o seu lado humano, abre o coração, fala de “Julinho” com um carinho admirável, e deixa brotar as palavras de apreço: É o meu paizão! Sou muito grata pelo muito que tem feito por mim, na minha carreira e na minha vida. É com ele que eu desabafo e choro os meus problemas. É o ombro do meu segundo pai!

“Sigam o vosso sonho!”

Ainda que, relativamente, com pouco tempo de vida artística, Jeny não deixa de incentivar, desde já, os mais jovens, de outras gerações, ou não, e que, tal como ela, ambicionaram ser estrelas da música moçambicana ou, no mínimo, agentes desta parte cultural. As suas palavras finais foram-lhes dirigidas, em jeito de mensagem, mas que ambicionava ter sido possível falar-lhes de viva voz: Gostava de lhes dizer que sigam o seu sonho e que nunca deixem de fazer o que for do seu agrado. O nosso país ainda está muito verde e a precisar de muito mais artistas. A nossa Cultura, também ela, necessita de muito mais agentes que a divulguem, seja cantando, escrevendo ou compondo.

Moçambique precisa de todos nós e será muito mais rico, culturalmente, se concretizarmos os nossos sonhos! Jeny, esta Janeth Olinda Zacarias, nascida, há 23 anos, nesta cidade das acácias, capital do Índico, onde o canto, as vozes e as melodias dos seus cantores se espalham e entram nos corações do povo, bem cedo sonhou pisar os palcos e, com a sua voz, espalhar alegria e a mensagem de que é possível cantar e encantar, se para tanto nunca lhe faltar o engenho e a arte. Porque o sonho comanda a vida, esta autora e intérprete de canções que já se alojaram nos gostos musicais dos moçambicanos, será, com certeza, um caso muito sério no futuro musical deste país.

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