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Pandza: Desabafo

Eu era uma garrafa no auge da juventude, linda, esbelta, cheia de cerveja. Ele também era jovem, e cheio de sede. Conhecemo-nos numa noite quente, como todas as noites em que se conhecem os amantes, naquela rua onde as mulheres se vendem. Não que eu fosse dessas da rua, não.

Eu vivia no fundo gelado dum coleman. O coleman é que era de rua, e estava ali para a venda de bebida. Como todas as garrafas da minha idade, eu também sonhava com uma casa melhor que um coleman de rua, o conforto de uma geleira fina, doméstica.

A tampa do coleman, tecto da minha casa, afastou-se, e a luz pálida da rua entornou-se adentro, reluzindo os seus pecados nos pedregulhos de gelo que nos refrescavam. Ouvimos dizer “uma cerveja!”. O néon vermelho da rua pintou o rosto das outras garrafas quando olharam para cima, expectantes.

Eu, tímida, deixei-me estar no fundo do coleman, confortada com o calor do gelo que derreti a sobre mim. Apesar de escondida ele viu-me: “quero aquela lá no fundo, está fresca”. Foi o primeiro elogio que me fez. Que coração não amolece com um elogio? O meu amoleceu. Eu que nem ti nha a sofi sti cação das outras garrafas, nacionais e estrangeiras, pretas ou loiras, mas ele reparou em mim!

Mais tímida que ingénua, com o ombro encolhido, endireitei o rótulo, que encapulano na cintura, e olhei para ele pronta para ser levada. Foi a primeira vez que os nossos olhares se cruzaram. Foi amor à primeira vista. Ele olhava para mim com aquela frieza masculina, uma mistura de indiferença e sede. Eu olhava para ele com ti midez feminina, medo e ansiedade.

“Quanto custa?” ouvi-o perguntar, enquanto levava a mão ao bolso. Tirou de lá uma carteira volumosa, e daqui algum dinheiro e pagou.

“Vasilhame paga-se, vai levar o vasilhame ou vai beber aqui?”

“Vou levar” Foi a prova inequívoca de que ele não me queria só para aquele momento. Ia levar-me com ele, para a casa dele, para que eu ti vesse o conforto e a dignidade numa geleira.

Emocionei-me quando ele pagou por mim. Não que eu fosse daquelas que se vendem para serem consumidas e descartadas. Emocionei- -me porque ele disse que me ia levar com ele. Era um dote aquele pagamento. Era um lobolo.

Aquela mão enorme irrompeu coleman adentro e segurou-me com brutalidade máscula, como um príncipe encantado resgata a noiva para cima de um cavalo branco, levou-me com ele.

Senti o calor daquela palma calejada. Eu estava gelada molhada com os líquidos do coleman. A noite era quente e ele também. Ele olhou para mim cego de desejo. A minha pele suava, aquele suor de garrafa gelada, e as luzes da noite reluziam em mim. Ele voltou a elogiar: “está bem gelada”. Era um cavalheiro. Senti as forças faltarem-me quanto ele disse: “boa cerveja”.

Fechei os olhos. Eu estava cega de paixão, e senti uma súbita vontade de ser bebida, ele parecia também apaixonado e sedento. Não disse mais nada. Ouvi a sua saliva estalar quando humedeceu com a língua os lábios. A maçã de Adão moveu-se quando engoliu saliva com gula. Eu estava toda dominada. Ele despiu-me, com os dentes, a cápsula que me cobria o gargalo. Senti os gases dos meus senti mentos a disparar.

Comecei a espumar de desejo. Ele segurava-me com aquelas mãos quentes. Ainda quis alertá-lo para ter calma, que estávamos na rua e era a primeira vez que eu ia ser bebida. Não deu tempo. Senti os seus lábios encostarem no meu gargalo e bebeu-me como se me fosse engolir num trago. Depois arrotou e suspirou um “ahhh!”. Eu espumava, e não tardou que os seus lábios húmidos voltassem a encostar no meu gargalo e me desse outro gole.

Quando dei por mim já estávamos na casa dele, deitámo-nos na cama dele, ele deu o últi mo gole, longo e demorado, com muito senti mento. Depois, exausto, arrotou forte, caiu para o lado e adormecemos. Foi a nossa primeira noite.

Na manhã seguinte acordou indisposto. Eu esperava aquele beijo “de bom dia” mas nem sequer falou comigo. Pior, segurou-me com brutalidade pelo pescoço e, eu que esperava o conforto de uma geleira, ati rou-me para a dispensa empoeirada, ao lado de outras garrafas igualmente usadas. Ele faz isso com todas.

Hoje passa por mim como se eu não existi sse. Gorda e humilhada nos meus 550 ml. Vejo-o na pouca vergonha com outras, coitadas, e choro quando o oiço dizer: “agora só quero pequenas, 330 ml, são descartáveis”.

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