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De Wannsee ao fim de Auschwitz: do extermínio planificado à sua concretização

Entre a Conferência de Wannsee, que planeou a “solução final”, e a libertação do campo nazi de Auschwitz, a 27 de Janeiro de 1945, transcorreram três anos nos quais o Terceiro Reich executou um genocídio sem precedentes, orquestrado com mentalidade burocrática e com o objetivo de assassinar 11 milhões de judeus.

“É impossível mensurar o que nos horroriza mais: os planos traçados pelo nazismo ou como foram implementados na realidade”, afirmou a ministra de Cultura da Alemanha, Monika Grutters, no dia 20 de Janeiro, data do 23º aniversário da Conferência de Wannsee.

Já os prisioneiros remanescentes de Auschwitz foram libertados há 70 anos, quando as tropas soviéticas chegaram ao local. “É preciso desenvolver uma cultura da lembrança efetiva.

Quem sabe onde estaremos os poucos sobreviventes que restamos no próximo aniversário”, afirmou o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia e ex-prisioneiro de Auschwitz, Wladislaw Bartozewski.

A ministra alemã e o ex-diplomata, de 93 anos, concordaram que uma sensação de irrealidade continua a envolver o holocausto, pelo tamanho da atrocidade que foi cometida, que não consegue ser totalmente transmitida por imagens e depoimentos.

Em Wannsee, idílico lago nos arredores de Berlim, 15 funcionários de alto escalão nazis reuniram-se para traçar a “solução final” para os 11 milhões de judeus que, segundo os seus cálculos, deviam ser exterminados até se conseguir o objetivo de um Terceiro Reich vitorioso e ariano.

A reunião ocorreu em 20 de Janeiro de 1942, no número 56-58 de uma rua próxima ao lago, e foi convocada pelo chefe de segurança alemão, Reinhard Heydrich. Num formato de “café da manhã e reunião de trabalho”, participaram no encontro os secretários de Estado dos principais ministérios e Adolf Eichmann, tenente-coronel da SS.

Adolf Hitler estava há quase nove anos no poder e o Holocausto já era uma realidade concretizada em massacres no Báltico, Bielorrússia e Ucrânia, com deportações de judeus alemães e do resto da Europa para centenas de campos de concentração, como Auschwitz.

Mas a maquinaria nazi queria optimizar a coordenação de todos os sectores do seu aparelho e o resultado foi um plano traçado em termos burocráticos e práticos, como se o extermínio fosse algo meramente administrativo que necessitava, antes de tudo, de eficiência.

Desta forma, foi detalhado um organograma das deportações, como os judeus e demais prisioneiros seriam levados para os campos de extermínio ou de trabalho, e como se selecionaria quem devia trabalhar como escravos para a indústria e aqueles que seriam executados imediatamente.

Auschwitz funcionava já a pleno vapor e o extermínio judeu era um objetivo do ditador, embora a assinatura de Hitler não tenha ficado impressa nas atas da reunião, talvez por se tratar de um assunto considerado burocrático.

A vila de Wannsee é desde 1992 um museu onde se conservam as actas da reunião, enquanto em Auschwitz se documenta a existência das centenas de barracões de um complexo que ocupou 40 quilómetros quadrados, entre o acampamento base e o vizinho Birkenau.

Em Wannsee estão expostos os planos de extermínio dos 11 milhões de judeus, cerca do dobro do número de mortos até à capitulação do Terceiro Reich, em 8 de Maio de 1945. Apenas em Auschwitz, foram assassinadas 1,1 milhão de pessoas, a grande maioria judeus.

Auschwitz é “sinónimo do horror porque os humanos necessitamos de comprimir algo que nos ultrapassa em símbolos”, afirmou no encontro que lembrou o aniversário da conferência Gesine Schwan, analista política e ex-presidente da Universidade Europeia de Viadrina.

“Se não fosse assim perderíamo-nos na irrealidade, entre termos e números”, comentou. Para o sobrevivente Bartozewski, apesar da tragédia coletiva, cada um viveu a sua história particular no holocausto. “Muitos números, sim. Auschwitz sintetiza uma tragédia humana coletiva. Mas, na realidade, cada um dos que estivemos lá enfrentámos o nosso próprio Auschwitz”, explicou.

O último livro do ex-ministro polaco tem como título apenas “Mein Auschwitz” (Meu Auschwitz) e relata a experiência do jovem católico que esteve preso no campo entre 1941 e 1942.

Quando foi libertado, Bartozewski entrou numa organização de resistência que salvou a vida de milhares de judeus.

“A grande lição que aprendi: não se deixar arrastar pela brutalidade, continuar a ser humano. Por isso é importante que as marcas não sejam apagadas. Para quando as pessoas tenham desaparecido”, refletiu.

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