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Cultura Hip Hop deprimida em Nampula

Em Nampula, a cultura Hip Hop é uma narrativa que, à semelhança do que sucedeu em Maputo, nos remete à necessidade de rebuscá-la a partir de 1980, altura em que vigorava a imitação de músicas de artistas estrangeiros. Por isso, aqui, personalidades norte-americanas como Jay Z e Dr. Dree cujas carreiras, nos finais dessa década, estavam a começar podem ser invocadas para que as suas obras fossem imitadas por rappers moçambicanos.

De qualquer modo, nos dias actuais, é muito difícil encontrar na terra das Muthiana Orera artistas que viveram nessa época, tendo, inclusive, sido activistas da cultura Hip Hop. Por essa razão, neste Moçambique contemporâneo, rappers como Osvaldo Damião (ou simplesmente Ovas Skay, para a comunidade em que está envolvido) que, com 29 anos de idade, trava uma relação com o Hip Hop há 18 anos, é uma ponte entre o hoje e aquele ontem um pouco mais distante que constituem a base para a (re)construção da crónica desse movimento artístico-cultural.

À semelhança de todos os poucos rappers underground, os que, em Nampula, defendem o Hip Hop como cultura, Ovas Skay é um símbolo de resistência face à lenta, mas progressiva, queda em que o Rap se encontra: a quantidade do que, nesse âmbito, por lá se produz é depreciada devido à qualidade que possui. E, consequentemente, o mesmo ocorre em relação à produção e o consumo. Mas há outros factores envolvidos. Dada a inexistência de composições e músicos moçambicanos que criaram obras originais, o que fazia com que as pessoas imitassem os americanos, podemos considerar a década de 1980 como sendo a época do playback, em que vigoram os imitadores.

Entretanto, o rapper Ovas Skay nasce na segunda etapa – a do Free Style. Nesta fase, os rappers reuniam-se para confrontarem as suas habilidades performativas, a cantar. Captavam as suas vozes em aparelhos gravadores, os famosos decks que funcionavam com o emprego de fitas magnéticas, as cassetes. É por essa razão que nessa época, apesar das dificuldades que prevaleciam – a falta de shows, de possibilidades de gravação de trabalhos discográficos, a inexistência de editoras e de promotores de concertos focalizados nesse campo, entre outras – o Rap ganhou alguma visibilidade no seio da família nampulense.

Os ventos da mudança

Com o passar do tempo, a emergência do desenvolvimento tecnológico associado à globalização, ao longo dos finais da década 1990, instalam-se estúdios minimamente bem equipados com as ferramentas necessárias para a produção e captação musical. A partir daí, quando menos se esperava, muitos rappers viram as suas carreiras afundar porque, na sua maioria, não tinham dinheiro para financiar a gravação de uma melodia e a posterior captação da voz, nos estúdios que praticavam um capitalismo leonino, na província de Nampula.

De acordo com Ovas Skay, chegou a fase em que pouco se podia falar sobre o Rap, pois os seus fazedores desistiam em massa. Alguns diziam que a produção e a captação da música tinham um preço acima do que podiam pagar. Mais adiante, também surgiram estúdios domésticos – os famosos Home Studio – que, em certo sentido, facilitaram o trabalho dos rappers praticando preços acessíveis nos serviços que prestavam.

Uma história contemporânea

Nos dias que correm, em Nampula, há muita produção musical a nível do estilo Rap. O drama é que muitos rappers, não obstante o seu activismo, estão “hibernados” no anonimato – o que dificulta o desenvolvimento do sector. A fraca promoção do estilo associada à inexistência de espectáculos e de intercâmbios artísticos como, por exemplo, a realização de mesas-redondas e workshops de especialidade e a descrença dos mecenas culturais são alguns factores que obstruem o desenvolvimento do Hip Hop em Nampula.

Fica-se com a impressão de que o Rap é desvalorizado pela maioria da população. Todas estas razões movem Celestino Rocha, ou simplesmente Raça Oculta (em Maputo existe Face Oculta, o maior hiphopper dos nossos tempos) de 20 anos de idade, possuindo mais de 20 composições musicais daquele género à conclusão de que “em termos de produção, o Rap está numa boa fase. No entanto, quando se fala sobre a componente promoção, o estilo está estagnado”.

De uma ou de outra forma, apesar do capitalismo selvagem que se glorifica no país, Raça Oculta afirma-se como um verdadeiro rapper, underground, e, por isso, encara o Hip Hop como cultura. Ele não canta para ganhar dinheiro. Quer disseminar a sua mensagem, se bem que, quer quisesse obter benefícios materiais, quer não, em Nampula – onde é difícil sobreviver a fazer música – não há um contexto apropriado.

Infelizmente, o que mais arrelia os artistas é a constatação de que tirar o Rap do anonimato, em Nampula, não é uma tarefa fácil, muito em particular, porque reina a cultura da desvalorização dos seus fazedores. Enquanto isso, como num passado não muito remoto acontecia de forma sistemática em Maputo, na cidade de Nampula, os promotores de eventos musicais – movidos pelo comportamento social das pessoas – continuam a apostar mais em artistas estrangeiros do que nos locais.

Isto significa que o nampulense deplora e deprecia a produção artística local e estima a estrangeira. É neste sentido que se encontra algum sentido em desabafos desta natureza: “Os que, categoricamente, dizem que o Rap nampulense não tem qualidade, que venham promover workshops a fim de nos ajudarem a melhorar os aspectos em que é necessário, ao invés de minarem a música e apagarem talentos”.

Segundo Ovas Skay, presentemente, em Nampula, o Rap é praticado, circunstancialmente, por cantores que se aproveitam das oportunidades que a ocasião origina. Por isso, o seu trabalho pouco difere de uma espécie de um passatempo. Também existem outros rappers que – além de se dedicarem ao Hip Hop – o defendem como uma cultura. Eles anseiam vê-lo a agendar o debate social da cobertura jornalística da Imprensa cultural, além da cada vez acentuada publicação de trabalhos discográficos.

Desafios da new school

Em Nampula, ou em qualquer parte do país, não é preciso fazer um grande esforço para se visualizarem os obstáculos enfrentados pelos artistas. Como, então, é que eles conseguem persistir? Esta é uma questão que se responde das mais variadas formas – mas o amor que os seus fazedores nutrem pela arte, de forma geral, tem sido a força-motriz que lhes mantém nas actividades culturais. No Hip Hop acontece algo similar.

O grupo The Youngs, composto por quatro jovens estudantes, que representa as tendências da new school do Hip Hop, realiza um conjunto de actividades, mais concentradas na música, mas que concorrem para que o estilo comece a impor-se no seio do povo macua.

Reconhecendo a importância de perceber “o querer como poder”, outra verdade mostra que se os The Youngs irão conseguir impor o Hip Hop, no mercado, como cultura e indústria terão de encarar com frontalidade os altos preços praticados pelas pequenas produtoras para a gravação musical, ou construir, eles próprios, as bases para que se promovam espectáculos de especialidade, bem como a necessidade de se aumentarem as possibilidades de os shows acontecerem num número cada vez mais alargado de casas de pasto.

Toda uma estrutura terá de ser construída ou transformada. É preciso que os rappers consigam lutar contra a ideologia dos detentores do poder – aqueles que, tendo equipamentos para a materialização do seu trabalho, determinam o sim e o não que define o sucesso ou o insucesso da cultura Hip Hop.

Afinal, são eles que, ideologicamente orientados, os “forçam” a apostar mais noutros estilos musicais – sobretudo, os facilmente comercializáveis – em detrimento do Rap. Se se quiser que na chamada capital do norte o Hip Hop conquiste alguma autonomia, na mesma proporção, é importante que se reduza a dependência que a província de Nampula experimenta em relação à capital do país.

Afinal, o que acontece agora é que “se um artista nampulense quiser ser bem-sucedido tem de, antes de mais, vir gravar as suas obras em Maputo. Só assim, o mesmo conquista o reconhecimento dos produtores e do público da sua terra natal”.

Os nados-mortos

A proliferação de estudos doméstico de gravação musical, em Nampula, tem estado a impulsionar uma cada vez maior produção no campo da música Rap. O drama é que a qualidade das referidas músicas está muito aquém do desejado no mercado. A situação está a causar desentendimento no seio dos rappers.

É que enquanto alguns trabalham arduamente durante longos anos para produzir músicas que respeitem os princípios da cultura Hip Hop – sobretudo o da consciencialização – outros geram trabalhos que em nada dignificam a classe.

É em resultado disso que certos sectores de opinião, em Nampula, duvidam da existência efectiva do Rap. As razões por eles apontadas são simples: a maioria dos rappers tornou-se nómada, actuando como tal nos tempos em que o estilo é bem-sucedido. Do contrário, eles ‘prostituem-se’ gerando músicas de géneros diferentes, com enfoque para os facilmente comercializáveis.

“Esses rappers que fazem arte comercial, criam a praga da música sem qualidade nem mensagem e, quando os seus feitos não têm uma boa recepção, refugiam-se na Kizomba e no Zouk”, refere Ovas Skay.

Será, então, em resultado disso que, há quase dez anos, em Nampula não se realiza nenhum espectáculo de Hip Hop, ou, no mínimo, um concerto que envolva um rapper local. Aliás, há quem pense mesmo que nunca houve. As iniciativas que pretendem promover o artista nativo, como o “Meetupe”, não diferem de nados-mortos.

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