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Conversa com José Craveirinha

Oh velho Zé, só mesmo aqui para te encontrar. O mesmo boémio de sempre! Tomamos um copo no velho Luso? De certeza que lá não ouves o dedilhar da viola do Daíco, mas conhecerás o bambolear das ancas das novas Felisminas e das netas da Leta Conceição que adoram o doggystyle do Zico.

– Aceito o convite, meu rapaz! Gostava de te ter conhecido e ouvir-te falar sobre os tempos da PIDE, sobre o tempo em que estiveste preso. Hoje andamos todos engaiolados sem estarmos presos, com medo de falar e dizer o que pensamos.

– Imagino. É como naquele tempo. Conta mais. Olha poeta, se tivesse unhas como as tuas e estivesse numa qualquer Cela 1 da Machava, sujava também as paredes com as merdas que penso das injustiças deste país.

– Há gajos que andam a lixar-te a cabeça? Tinha que sujar as paredes de toda a Machava para te contar, poeta. Lembras-te das ideias que a tua malta cantava? Igualdade? Que o povo tinha de tomar o poder? Olha, poeta, eu fiz uma música que dizia que o povo finalmente estava no poder, sabes o que me aconteceu?

– O quê? Chamaram-me para responder na Procuradoria da República. Sim, poeta, a nossa República, não uma república qualquer das bananas.

– Epá? E conheceste a menina dos 5 olhos? Nada, meu poeta, agora já não há palmatória e nem me levaram de Jeep. Agora os gajos ameaçam-te de outras maneiras. Toda a gente anda com medo de perder o emprego caso não colabore com os chefes e patrões do país. Eu pensava que o país fosse nosso. Do povo. Mas agora dizem que tem donos e há que respeitá-los, aliás, temê-los.

– Olha, puto, os gajos da PIDE eram chatos mas a malta lutava contra eles, cada um na sua frente. Eu escrevia coisas que passavam na censura, os gajos eram burros. Burros há até hoje poeta, mas sabes, o mais triste é ver nacionais a explorar nacionais. Hoje o que manda na nossa sociedade é o cifrão, estão todos a cagar para a educação. Inventaram uma tal de passagem automática da 1ª à 5ª classe, tudo por causa dos doadores. Agora os putos chegam à 5ª classe e mal escrevem os próprios nomes, mal lêem e muitos deles não conhecem os teus lindos versos, meu poeta.

– Satanhoco! Juro palavra d´hora! Os dirigentes de hoje andam em luxuosos carros protocolares, senão não fazem bem o mesmo trabalho que faziam no vosso tempo metidos num autocarro só. Meu poeta-mor, os putos já não querem ser tambor…

– O que querem ser? Deputados. Membros da comissão política. Ganhase bem lá, com direito às regalias, imunidade e o caraças! Eu queria ser poeta como tu, ser tambor e gritar nas noites e tardes do nosso belo país o que me vai na alma, mas está difícil. Agora os tambores que mais alto gritam e são ouvidos têm padrinhos. Mas deixemos disso. Brindemos é às saborosas tangerinas de Inhambane.

– Salute!

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