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O último púlpito do mestre

Podemos falar do “Chez Rangel”: um bar muito especial para Ricardo Rangel, e para os seus seguidores. Tinha-o concebido – isso é que dava a entender – para ser um especial alambique do jazz, pois os copos que lá se bebiam até ao raiar do sol eram um pretexto. Ricardo recusava-se a ser um elefante – que morre longe da manada – e a maneira que ele encontrou para não ser esse paquiderme, foi criar lugares onde todos pudessem estar. Juntos. Trocando os bafos de cultura que cada um dos animais trazia no bojo. Porque essencialmente, o que o mestre queria era pôr as pessoas a ouvirem jazz.

Ricardo vinha do Waterfront. Junto ao mar, onde também se podia ouvir jazz de não acabar. Onde o contrabaixo soava em paralelo com a refrega que se erguia entre as ondas – cansadas – do mar e a resistência pujante das paredes quase de aço. Era daqueles espaços – o Waterfront – que emanavam o cheiro do homem que sempre andou com essa manifestação cultural debaixo do braço, desde que descobriu que os negros norte-americanos tinham a missão sagrada de fazer sonhar as pessoas com a desobediência da escala diatónica.

Mas será no Chez Rangel que tudo vai terminar para Ricardo Rangel. Que tudo vai terminar no sentido de que o tigre, com uma pata a menos, já não terá muitas distâncias para caminhar. Será também – ao abrir aquele lugar de culto, localizado na estação dos Caminhos-de-Ferro – que Ricardo Rangel nos vai lembrar uma grande figura de jazz: John Lee Hooker. Que chegou à estação de comboio e disse: one way thicket.

E o bar de Rangel (O Chez Rangel, hoje Ka Mpfumo) está localizado num espaço que servia de armazém. E continua a ser um púlpito. Um local de culto dos amantes do jazz. Mas Ricardo Rangel é um vulto que vem de outros tempos memoráveis e de sofrimento.

Fazia também, de seu lugar de culto, no tempo colonial, a baixa da cidade de Lourenço Marques. Onde na década de 60 irá registar muitas imagens de memória. Naquele período, particularmente na zona do porto, numa azáfama de milhares de pessoas, umas a desembarcarem, outras à espera de partir. As fotos de Ricardo Rangel são jazz. Tiradas num lugar que o próprio ajudou a celebrizar. Também no mundo.

Pelo culto que dele fazia. Ricardo Rangel será encontrado, nos seus tempos de imensa juventude física, em bons restaurantes, bebendo um bom copo, que lhe vai ajudar a aclarar as ideias. Alguns chamavamlhe mulherengo, até ao momento em que apareceu Beatriz: a mulher que terá mudado o azimute de Ricardo.

Gostava de viver. Vivia com intensidade e alegria toda a vida que tinha. Até ao momento em que morreu 50 por cento. Isto é, quando amputaram uma das patas desse tigre. Depois disso era difícil encontrar Ricardo Rangel. A sua casa passou a ser muito mais sagrada do que os lugares que criou. Com as mãos e o espírito. E a alma. Como diziam os amigos.

É difícil falar dos lugares que Ricardo Rangel cultivava. Porque ele próprio era um cais.

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