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Contos do Fantástico – Aníbal Aleluia: postumamente

Na Península de Linga-Linga – onde nasci – cunha de palmares encravada entre o Índico a nascente e a baía de Inhambane a poente, seis léguas a Sul do Trópico de Capricórnio, cobrindo perto de quarenta e cinco quilómetros quadrados, com centenas de fogos distribuídos por seis ou sete clãs – conheci um único nyanga, dos de tocar batuque, cantar e dançar.

A Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) tem o livro de Aníbal Aleluia (Contos do Fantástico) nos procedimentos gráfi cos fi nais, que incluem os últimos retoques de revisão. É um original que o escritor – falecido a 14 de Maio de 1993 – deixou depositado na AEMO e que brevemente será lançado em Maputo.

 

É uma obra de fi cção, que não visa – por isso mesmo – documentar o que quer que seja. Aliás, o autor, não crê nas explicações científi cas da Parapsicologia e da Psicopatologia, porque sabe que ninguém entende nada de fantasmas e espíritos malignos que muitas vezes infernizam os vivos.

É sobre este mundo fantástico que a obra de Aníbal Aleluia passeia, trazendo à ribalta um homem feito andarilho: o escritor conhecia Moçambique do Cais de Maputo ao rio Rio Rovuma, tendo levado uma vida nómada, que o foi empobrecendo cada vez mais materialmente, enquanto enriquecia no conhecimento das microetnias.

“O insólito do caso despertou a minha curiosidade pelo que procurei visitar a “casa”, não me tendo sido consentido porque o acesso a ela estava interdito a toda a gente – parentes inclusive – excepto a uma única irmã a quem incumbia varrer o soalho, abrir, limpar e fechar as janelas, espanejar os móveis, tratar da louça e da roupa e, diariamente, levar as três “refeições para o morto”!

“Contos do Fantástico” faznos recuar também para o primitivismo, onde o Homem desse tempo chegou à ideia do “duplo”, observando a sua própria sombra. “Na minha infância, por toda a Borda de Água, os adultos proibiam às crianças de baterem ou ameaçarem as próprias sombras. Tinham estas como detentoras de uma energia capaz de molestar as crianças em acto de vingança”

Aníbal Aleluia explora muito na sua obra este mundo incrível, como agora que nos diz, no conto “Milda”: O capitão seguiu o capataz. Como baleia nadando à margem do Chire, Morrumbala destacava-se do panorama geral, furando o fi rmammento. Dotado de inexplicávcel mimetismo, ora aparecia cinzento, envolto em neblinas, ora com manchas douradas no topo ensoleirado, ora de um verde desbotado em certas faixas, ora com manchas pardas nos gilvazes abertos pelos córregos em séculos de permanente corrosão ou pelo fogo solitário de algum curandeiro.

– E então? – tinha perguntado o capitão.

– Então, o patrão não vê? Não notou que ali a terra muda de cor como camaleão? Aquilo ali é terra de feitiço. Nenhuma pessoa pode escalá-la e voltar, salvo os grandes curandeiros de muito longe, como o Bwanaili da terra dos Nhanjas.

Contos do Fantástico também nos traz um escritor que se preocupava muito com o verbo, com o rigor da escrita, recorrendo sempre ao passado, particularmente à terra que lhe viu nascer (Inhambane), para nos contar histórias, muitas delas macabras.

Em “Um Pequeno Em Chibuto” temos uma história em que Anibal Aleluia se desloca à sua terra, ido dos caminhos errantes que constituíram maior parte da sua vida. Alojado num dos chalés que o seu pai construira, tem necessidade – a altas horas da noite – de ir à latrina. Era uma noite de um luar tão claro que parecia irreal. Aleluia deparou-se com um garoto dos seus 12/14 anos trajando roupas íntimas, o qual não respondeu às suas perguntas. Regressado – terrifi cado – ao quarto, conta ao irmão, que se deitava ao seu lado, transmitindo o medo que sentia por aquilo que vira, pois o rapaz aparecera ali sem mais nem menos.

Os dois decidiram franquear a porta com o guarda-fatos e a cómoda para que dormissem em paz. Qual não foi o espanto de ambos! Quando acordaram de manhã, os dois móveis tinham sido movimentados para os lugares iniciais.

Aníbal Aleluia interrompeu imediatamente as férias e voltou para Xai-Xai, onde trabalhava. Tendo contado esta história a um amigo – um pequeno xibutense – este disselhe que o pai edifi cou os chalés num cemitério.

Fantasmas

É por esses atalhos que Aníbal Aleluia nos conduz no seu livro – de cerca de 200 páginas – levando-nos a conviver com a ideia da existência do “duplo”, em cada homem universal, bem como a do seu carácter imortal.

Segundo o autor da obra, para o estudo das origens da crença em anjos, demónios, génios e fantasmas, “é necessário que concordemos em que o Homem é um ser profundamente maniqueísta. Por isso, a despeito de diversidade de doutrinas que propalam “todas” as religiões, das consideradas mais baixas às que se creditam a qualidade de superiores, professam incoscientemente este maniqueísmo”.

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