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Xïkwembo: Conto de lua cheia

Hoje está calor, muito calor. Ela dirige o carro e ele senta-se ao lado, já é a cerveja preta que fala, e ela, apenas porque hoje bebeu água, não questiona, apenas escuta, seguindo os caminhos sem resistir, apenas a ver o que dá, onde vai, como é a maré.

– Vira à esquerda, ok, de novo aqui, aqui, estaciona láaaaaaaaaaaa, ao fundo. – fala com o guarda – Chefe, não tem maneira de descer aqui agora?

– Nada, aqui não tem.

– Tem, chefe é que não quer nos mostrar!

– Tem, mas,,. Vão cair ali, senhora vai cair.

– Esta? Chefe… – começa a falar em xangane e ela a partir daqui já não entende o que dizem, mas entende a linguagem corporal claro, entende os risos cúmplices, com certeza – falam dela.

Descem para a areia e ela olha apenas a lua, enorme, laranja, redonda, sobre água calma. À esquerda esta paisagem – o rastro de prata bem marcado na água – do lado direito relampeja sobre os prédios e as nuvens ameaçam o céu de tempestade africana – morna, precipitada, odorosa, intensa, desorganizadora.

Ela caminha para a água, está morna. Caminha e vai subindo a capulana, mais, e mais, e mais… A água está quente.

Sente algo a enrolar-se nas pernas e sai da água:

– Ei! É aqui que se lavam os espíritos, aqui não se toma banho, não sabes que essas energias dos espíritos ficam aqui? Lavam tudo nesta água! E depois? Quem limpa a própria água dessas lavagens? Mas hoje a água chama e ela entra sem hesitar. Está quente… boa.

Caminham juntos, caminham até ao pontão. Um ponto fálico feito de pedras, que entra na água morna do Índico. Um falo que é molhado e batido de ondas espumosas e brancas.

Avançam, os limos e musgos ameaçam escorregar os pés, ela descalça- se. A pedra está quente, as ondas molham como salivas.

Ele caminha ao seu lado. Chegam quase ao final do pontão, onde a água cobre sempre a pedra.

Ele aproxima-se mais:

– Sabes o que eu disse ao guarda?

– Hum?

– Que te ia comer aqui mesmo, dei-lhe 60 paus para nos deixar passar.

– Não disseste! Oh pah, tu… – ele cala-a com um beijo. Aproxima-se mais.

Amam-se. Não importa se alguém vê, não importa se aqui nesta cidade não se abraça na rua, se é atentado ao pudor ou falta de vergonha, se é ilegal ou imoral. Eles amam-se assim mesmo, dentro da natureza. O avançar do pontão dá uma vista… panorâmica, a sensação é de exposição e secretismo ao mesmo tempo.

Estão expostos, claro, os carros que passam na marginal abrandam, ou se calhar nem se vê nada… A cidade está atrás deles, como uma câmara de eco, e ela geme, geme de olhos no horizonte, recebendo as brisas das índias.

O toque sensual da brisa é misturado pela força telúrica da penetração por debaixo da capulana que ela usa como uma white usa o material local – por exotismo.

Ela não pensa em nada, a força da terra está aqui, a energia da água salgada que é purifi cação e vida, a pedra quente e a chuva que já perfuma o ar e ameaça cair. Ela sente-o por detrás, estão de pé – em equilíbrios e desequilíbrios na rapidinha aluada.

As energias que convergem aqui são muitas. Depois do amor ela acocora-se e deixa a água entrar. As ondas molham de novo as mais escorregadias zonas. A capulana molhada cola-se ao corpo e só agora ouvem as rezas.

Na praia eles fazem o círculo, falam a deuses ou esconjuram demónios, não se percebe. Não sabem o que lhes chamam, aos que acreditam que os abençoam ou amaldiçoam. Não sabem a que energias falam, mas no fundo são todas a mesma…

Eles avançam sem medo, mas com receios. A fé organizada dá azo a fundamentalismos… sabe-se lá o que pensam e o que vêem assim na claridade de uma noite de lua.

Ela apanha do chão os chinelos, avançam de novo pela areia, os pés molhados. Ele olha-a com incomum ternura

– Sabes que acho que hoje fizemos a Malaika? – é mania de homem africano isso de sempre querer encher barriga, mas ela, que discute sempre, hoje sorri:

– Quem sabe fizemos?

– Na ku penda Malaika.

E ela que pode dizer?

– Na ku penda.

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