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Como parar uma guerra cambial

Nas últimas semanas a economia mundial tem estado em pé de guerra, pelo menos em termos retóricos. Desde que o ministro das Finanças do Brasil, Guido Mantega, declarou, no dia 27 de Setembro, ter rebentado uma “guerra cambial internacional” que as linhas do debate sobre a economia global foram reformuladas para léxico de campo de batalha, não só pelos emotivos escritores das manchetes como também pelas próprias autoridades.

A retórica vaga sobre a cooperação para aumentar o crescimento global já lá vai, instalando-se no seu lugar um tom muito mais combativo. Os países culpam-se mutuamente pela procura global distorcida, com armas que variam da melhoria quantitativa (imprimindo numerário para comprar obrigações) à intervenção cambial e controlos de capitais.

Por detrás de todo o fumo e fúria ocorrem de facto três batalhas. A maior é relativa à relutância da China em permitir que o yuan suba mais rapidamente. As vozes das autoridades americanas e europeias têm sido mais duras no que se refere à “dinâmica prejudicial” causada pela moeda subvalorizada da China.

No mês passado, a Câmara dos Representantes fez passar uma lei que permite que as empresas procurem protecção tarifária contra países com moedas subvalorizadas, com uma enorme maioria bipartidária, tendo-se tornado as práticas comerciais “injustas” da China num tópico quente das eleições intercalares.

Uma segunda área problemática é a política monetária do mundo rico, em particular a perspectiva de os bancos centrais poderem em breve recomeçar a imprimir moeda para comprar obrigações do Tesouro.

O dólar caiu, uma vez que os mercados financeiros esperam que a Reserva Federal seja a primeira e a mais ousada na execução desta estratégia, e o euro subiu em flecha, devido ao pouco entusiasmo mostrado pelas autoridades do Banco Central Europeu por esta mudança.

Aos olhos da China (e aos de muitos outros Governos de mercados emergentes), a melhoria quantitativa cria uma distorção grave na economia mundial, precipitando os investidores para outras áreas, especialmente para economias emergentes, em busca de rendimentos mais elevados.

A terceira área de contenção vem de como os países em desenvolvimento reagem a estes fluxos de capital. Para não deixar que as suas taxas de câmbio disparem, muitos governos intervieram na compra de divisas estrangeiras ou aplicaram impostos à entrada de capitais estrangeiros.

O Brasil recentemente dobrou um imposto sobre aquisições estrangeiras da sua dívida interna, e esta semana a Tailândia anunciou uma nova retenção na fonte para investidores estrangeiros sobre as suas obrigações.

Conversa de sacha

Por agora, estes conflitos estão longe de uma guerra cambial real. Depois de bem analisadas, muitas das ‘armas’ são menos ameaçadoras do que parece. Os controlos de entradas de capital são modestos.

No mundo rico, apenas o Japão recorreu recentemente a uma intervenção cambial, e apenas uma vez, até hoje. Também não há grande risco de uma descida iminente para retaliação comercial.

Mesmo nos Estados Unidos, as tarifas contra a China, por sorte, ainda estão muito longe – tanto devido à conta cambial ser mais suave do que parece, como porque tem ainda que ser aprovada pelo Senado ou assinada por Barack Obama.

O que é facto é que não se pode ser complacente. A guerra dissimulada de hoje pode tornar-se rapidamente uma verdadeira batalha campal. As condições que fazem mexer a divergência entre as políticas económicas – em particular o crescimento vagaroso no mundo rico – provavelmente prevalecerão durante anos.

À medida que a austeridade fiscal se vai instalando, a atracção para usar uma moeda mais barata como fonte da procura irá aumentar e a pressão sobre os políticos para tratarem a China como bode expiatório crescerá.

E se a inundação de capital estrangeiro se intensificar, os países em desenvolvimento podem ver-se obrigados a optar entre perder competitividade, controlos de capitais verdadeiramente draconianos, ou permitir que as suas economias aqueçam excessivamente.

É bastante claro o que deve acontecer. A procura global necessita de reequilíbrio, afastando-se das economias ricas endividadas e aproximando-se de maiores gastos no mundo em vias de desenvolvimento. As reformas estruturais para fazer subir os gastos nessas economias excedentárias ajudarão, mas as suas taxas de câmbio reais também têm de se valorizar.

E sim, o yuan chinês está demasiado baixo, o que está a afectar não só o Ocidente mas também outros países em desenvolvimento (especialmente aqueles que têm taxas de câmbio flutuantes) e, de facto, também a própria China, que tem necessidade de conseguir mais do seu crescimento a partir do consumo interno.

É também claro que este não será um processo sem dor. A China tem razão em preocupar-se com a instabilidade se os trabalhadores das empresas exportadoras perderem o emprego.

E até escolhas razoáveis – como o mix no mundo rico da austeridade fiscal e a política monetária pouco firme – terão um impacto desconfortável sobre economias emergentes pequenas e abertas sob a forma de entradas de capital indesejadas.

Estas entradas de capital serão menos devastadoras para eles do que os danos que sofreriam se o Ocidente caísse para deflação e estagnação, mas não obstante pode causar problemas.

Introspecção colectiva

Tudo isto pede uma abordagem multilateral, em que instituições como o FMI e o G-20 estabelecem um consenso entre as grandes economias.

O senão é que o caminho multilateral, até aqui, conseguiu pouco. Daí o coro a pedir uma abordagem diferente – concentrada em apertar com a China, ou através de controlos de capital retaliatórios (por exemplo, não permitindo à China comprar obrigações do Tesouro norte-americano) ou através de sanções comerciais.

E não são apenas os suspeitos proteccionistas do costume: até alguns defensores do comércio livre consideram que a violência económica é a única via para chocar a China e tirá-la da sua teimosia auto-destruidora (e impedir mais tarde uma reacção proteccionista mais alargada).

Este semanário não está convencido. As ameaças parecem impraticáveis (como pode a China ser impedida de comprar bilhetes do Tesouro, o activo mais amplamente transaccionado nos mercados financeiros mundiais?) ou provocações perigosas.

Confrontado com um ultimato comercial, o regime de Pequim, inchado na sua arrogância G-2, pode considerar que é politicamente mais barato retaliar perante os Estados Unidos em espécie. É assim que rebentam as guerras comerciais.

Em todo o caso, concentrar a atenção nos Estados Unidos e na China é não compreender a natureza do problema. As guerras cambiais implicam mais do que um vilão e uma vítima.

Mais propriamente, redobram os esforços multilaterais fora de cena, especialmente fazendo entrar os países emergentes atingidos pela política da China. O Brasil e outros apenas começaram a dizer o que pensam.

A Coreia do Sul recebe o G-20 no próximo mês. Usem a cimeira de Seul como sinal do ponto, não para criar qualquer novo Acordo de Plaza (as tensões actuais são demasiado complexas para se resolver num tratado de paz notável do género daquele que foi conquistado a pulso por apenas cinco países, em Nova Iorque, em 1985) mas como forma de clarificar o debate e manter a pressão. Terá menos destaque nas manchetes; mas esta é uma guerra que é melhor evitar, não combater.

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