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Como os EUA foram derrotados na independência de Angola

O historiador português Tiago Moreira de Sá teve acesso aos arquivos diplomáticos e dos serviços secretos de Washington relativos aos anos 1974 e 1975. O livro “Os Estados Unidos e a Descolonização de Angola” mostra que Kissinger acordou tarde demais.

A “falta de uma estratégia norte-americana para Angola” é claramente evidenciada no recente livro do historiador português Tiago Moreira de Sá. Com o título “Os Estados Unidos e a Descolonização de Angola”, baseia-se em grande parte nos arquivos norte-americanos que já se encontram desclassificados e disponíveis e que revelam a extensão do atraso, dos erros e da derrota sofrida por Washington na mais importante das colónias portuguesas.

O livro começa com o relato de um almoço, a 19 de Abril de 1975, na Casa Branca, entre o Presidente Gerald Ford, o secretário de Estado Henry Kissinger e o Presidente da Zâmbia Kenneth Kaunda. Foi “o momento de viragem na política dos EUA para Angola e mesmo para o continente africano.”

Kaunda, que falava em nome dos presidentes vizinhos (mencionou Nyerere da Tanzânia, Mobutu do Zaire e Samora Machel de Moçambique), “convenceu Ford de que a URSS estava a intervir em Angola com conselheiros militares e armamento, o que podia ajudar o MPLA a tomar o poder”.

O MPLA, acentuou Kaunda, “não era apenas um grupo marxista como a Frelimo em Moçambique”, mas sim “um instrumento de Moscovo.” O Presidente da Zâmbia propôs que os EUA apostassem em Savimbi como “o líder de compromisso” e assegurou que também o ministro dos Negócios Estrangeiros, Melo Antunes, “estava disposto a passar a apoiar” o líder da UNITA.

O encontro com Kaunda obrigou Washington a abrir os olhos e a passar à ofensiva. Moreira de Sá explica que “os EUA tinham de demonstrar a Moscovo, mas também a Londres, a Bona, a Paris e a Pequim, que a derrota na Indochina não reduzira a capacidade e a vontade de resistir à expansão soviética.”

MPLA o menos tribal

De Luanda, desde 1974 que Washington recebeu relatos diários do seu cônsul Everett Briggs, que assegurava que o MPLA tinha várias ligações com o industrial português Manuel Vinhas, enquanto António Champalimaud seria “o principal apoiante” de um “futuro exército angolano de oficiais brancos”, constituído à base de mercenários. Quanto a Rosa Coutinho, “é definitivamente amigo dos Estados Unidos (…) Ele não nos parece ser um esquerdista.”

Para Robert Hulslander, responsável da CIA em Angola, Holden Roberto, o dirigente supremo do FNLA, era “um homem corrupto e sem princípios” que representava “o pior do racismo radical africano.” Já o MPLA era “o menos tribal dos três movimentos” e o “melhor para governar Angola”. Na altura (1974), estaria mais próximo “do socialismo radical europeu do que do marxismo-leninismo soviético.”

Sabe-se como desde cedo a União Soviética apostou numa “política de fortalecimento do MPLA, sob a liderança de Agostinho Neto”. Mas, na fase inicial, a política de Moscovo foi “dominada pelo seu conflito com Pequim e não com Washington.” A China apostava na FNLA, tendo feito chegar, logo em Maio de 1974, o primeiro contingente de 112 conselheiros militares.

Porém, “a internacionalização da descolonização de Angola não começou por acção de Moscovo, ou de Pequim, ou de Washington, mas sim dos países africanos vizinhos”, como o Zaire (ao lado da FNLA), o Congo Brazzaville (do MPLA) e a África do Sul (da UNITA).

Alvor foi sempre letra morta

Nem os EUA nem a URSS acreditavam no Acordo de Alvor, de Janeiro de 1975, e ambos apostaram em liquidá-lo à nascença. Ainda em Janeiro, o departamento de Estado fazia uma antevisão de possíveis eleições em Angola. A UNITA “provavelmente ganharia por causa do seu apoio forte” entre os ovimbundos; a FNLA, sólida entre os bakongos, “terminaria em segundo”; o MPLA poderia ficar “num distante terceiro lugar”. Mas o principal problema residia “nas ambições pessoais dos três líderes (…), querendo todos ser presidentes”.

A guerra em Luanda iniciou-se a 21 de Março; apesar disso, o cônsul dos EUA sustentava que “não havia o risco iminente de uma guerra civil”. Depois do golpe de 11 de Março em Portugal, Neto enviou a Lisboa Iko Carreira, o seu comandante militar, em busca de “formas concretas de auxílio”, tendo sido acordado o envio a Angola de “civis ligados aos radicais do Movimento das Forças Armadas para falarem com a liderança do MPLA”. A 30 de Abril foram presos no aeroporto de Luanda nove pessoas com passaportes portugueses novos: “dois russos, dois jugoslavos, dois búlgaros, um brasileiro e outros dois de nacionalidade não identificada”.

Segundo o consulado dos EUA, teriam sido “enviados pelo PCP para ajudar o MPLA”. Este foi o primeiro grupo de estrangeiros identificados. Seguiram-se mais dois, um dos quais formado por “portugueses, brancos, membros do PCP, enviados ao grupo de Neto”.

A partir de Lisboa, Melo Antunes e Almeida Santos empenharam- -se “em enfraquecer as ligações do MPLA à União Soviética através da abertura, ou reforço, de outros canais de apoio como a Zâmbia, a Jugoslávia, a Roménia e a Argélia”.

Outro elemento – bem menos conhecido – foi a entrega de armamento à UNITA, concretizada parcialmente pelo general Silva Cardoso, com a concordância de Melo Antunes e do Presidente Costa Gomes. Num almoço com o embaixador americano em Lisboa, Frank Carlucci, Almeida Santos disse que o MPLA era “um perdedor” e que Savimbi era “o líder angolano mais inteligente e que provavelmente chegaria ao topo”.

Melo Antunes pensaria o mesmo. Ao seu homólogo francês afirmou que o Governo de Lisboa “tinha cometido um grande erro ao apoiar o MPLA e que ia tentar reverter essa tendência se não fosse muito tarde”, acrescentando que Savimbi era o líder nacionalista que valia a pena apoiar”.

Cubanos entram em acção

Inserido num projecto de pós-doutoramento no Instituto Português de Relações Internacionais, o livro – editado pela portuguesa “Dom Quixote” – mostra como a descolonização de Angola foi “um produto da Guerra Fria”. A “Operação IAfeature”, nome de código do programa para Angola, representava, segundo o “New York Times”, “a maior operação secreta norte-americana com a excepção do caso do Vietname”.

Constituiu em três medidas associadas: apoio económico à FNLA e UNITA (numa verba que poderá ter atingido 81 milhões de dólares); fornecimento de equipamento militar; e recrutamento de mercenários para conselheiros daqueles movimentos. Dirigida pela CIA, a supervisão foi entregue a John Stockwell, e os mercenários foram recrutados em Portugal, Brasil, França e especialmente Reino Unido.

Os primeiros foram portugueses, “300 elementos por um valor total de 570 mil dólares”, que entraram pelo Zaire, em Agosto, em reforço do grupo de mercenários “liderado pelo coronel Santos e Castro já anteriormente recrutado pela FNLA”. Dos brasileiros tratou Werner Walters, enquanto da França o famoso Bob Denard forneceu 20 mercenários para apoio à UNITA.

A intervenção cubana iniciou-se na segunda metade de Julho de 1975. Chamada “Operação Carlota” e da iniciativa de Fidel Castro, viria a contar com o apoio soviético. Na ponte aérea entre Havana e Angola, vários aparelhos cubanos e soviéticos foram abastecidos nos Açores, no aeroporto de Santa Maria. O livro regista as datas dos voos e o número de passageiros transportados. A decisão cubana provocou em Kissinger “uma surpresa total”, como o próprio admitiu nas suas memórias.

À acção montada pela África do Sul foi dado o nome de “Operação Savannah”. Destinada a apoiar uma frente entre a FNLA e a UNITA, participaram no respectivo comando operacional quadros da extinta PIDE/DGS. Tiago Moreira de Sá sublinha que o envolvimento de Pretória afastou a China e a maioria dos países africanos da UNITA e da FNLA e acabou por legitimar a intervenção soviética e cubana.

Frente anti-FNLA

Uma das revelações mais interessantes do livro respeita ao encontro secreto, em 29 de Agosto, entre o MPLA e a UNITA, em Lisboa, visando a criação de uma frente anti-FNLA. Participaram nas negociações Lopo do Nascimento e Carlos Rocha, pelo MPLA, e José N’Dele e Fernando Wilson, pela UNITA, e decorreram “no Palácio de Belém com a mediação de Costa Gomes e o apoio do Executivo português”.

A fonte é a embaixada em Lisboa. Os EUA tudo fizeram junto de Savimbi para pôr cobro a este acordo. Como escreveu Stockwell, os EUA não queriam aliados “moles” na guerra contra a URSS e o MPLA.

O historiador teve ainda acesso aos diálogos sobre Angola entre Ford e Kissinger, por um lado, e Mao Tsé-Tung e Deng Xiaoping, por outro, em Dezembro de 1975. Para Pequim, “vale a pena gastar dinheiro neste problema. Porque é uma questão de importância estratégica-chave”.

O livro trata com algum pormenor da batalha de Quifandongo, na véspera do dia 11 de Novembro, a 20 quilómetros de Luanda. Espelho da Guerra Fria, de um lado estavam a FNLA, comandos do Zaire, mercenários portugueses, conselheiros da África do Sul e da CIA, do outro forças do MPLA, com apoio cubano e armamento soviético.

Vinda do Sul, a coluna Zulu, composta por tropas da UNITA e da África do Sul, foi impedida de prosseguir a 200 quilómetros da capital pela destruição de uma ponte sobre o rio Queve. A 11 de Novembro, dia da independência, era o MPLA quem controlava Luanda – e, “em África, quem controla a capital detém o poder”.

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