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Chissano diz que racismo português em Moçambique foi pior que o apartheid na África do Sul

Chissano diz que racismo português em Moçambique foi pior que o apartheid na África do Sul

O racismo imposto pelo colonialismo português em Moçambique era, entre os anos 1940-50, pior que o apartheid na África do Sul, considera Joaquim Chissano, ex-Presidente moçambicano, na sua biografia “Vidas, Lugares e Tempos”, lançada terça-feira em Maputo.

“O racismo em Moçambique, nos anos quarenta e cinquenta, era, quanto a mim, pior que o ‘apartheid’ na África do Sul. A lei (portuguesa) dizia que não havia segregação racial. Portugal era uno e indivisível, era inter-racial, etc.

Mas tudo estava bem separado”, defende o ex-chefe de Estado moçambicano. Nessa época, lembra Joaquim Chissano, a administração colonial portuguesa “criou bairros de caniço para pretos, bairros indígenas, caderneta indígena diferente do Bilhete de Identidade para brancos, escola primária para preto, acesso ao ensino secundário dificultado para o preto e ingresso quase impossível ao liceu até 1951”.

Nesse ano, Joaquim Chissano recorda que se tornou no primeiro negro a ingressar no Liceu Salazar, actual Escola Secundária Josina Machel, em Maputo, hoje uma das duas maiores do ensino secundário no país (juntamente com a Francisco Manyanga – ex-António Enes). Para o ex-chefe de Estado moçambicano, na África do Sul, apartheid (política de segregação racial) significava desenvolvimento separado, mas havia desenvolvimento.

“Não muito desenvolvimento, mas havia. Havia escolas primárias e secundárias para pretos, universidades para pretos, clubes, cinemas e teatros para pretos. Havia hospitais para negros. Havia negros iniciados em comércio”, compara Joaquim Chissano, no seu “Vidas, Lugares e Tempos”.

O nível das instituições criadas para os negros, continua Joaquim Chissano, era inferior ao dos brancos, mas essas instituições funcionavam e permitiram a emergência de líderes como Nelson Mandela, Desmond Tutu, Govan Mbeki (pai de Tabo Mbeki, ex-Presidente sul-africano), Albert Lithuli (fundador do ANC), entre outros.

“Em Moçambique todos éramos iguais perante a lei, mas havia tribunais para uns e para outros, o administrador é que era o tribunal. Deportação para São Tomé e Príncipe era só para o indígena, trabalho forçado era feito só por indígena”, exemplificou o ex-Presidente moçambicano.

O apartheid, que foi considerado “crime contra a humanidade” pelas Nações Unidas, foi imposto pelo governo de minoria branca da África do Sul em 1948, como doutrina de separação racial no país, vigorando até 1994, ano em que se realizaram as primeiras eleições multirraciais, ganhas por Nelson Mandela, primeiro Presidente negro do país.

“Vidas, Lugares e Tempos”, o primeiro de três volumes de memórias de Chissano, abarca o período da sua adolescência até à tomada de consciência política, que o levaria em 1961 a sair de Lisboa, onde estudava Medicina, para aderir aos movimentos nacionalistas moçambicanos e tornar-se num dos fundadores da FRELIMO.

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