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Cândido Coelho

Cândido Coelho

O senhor do Século

Cândido Coelho, o Atleta do Século, foi campeão do decatlo no então espaço português, título que ainda mantém. Ele foi “roubado” ao futebol depois de, no defeso, ter experimentado o atletismo, numa descoberta protagonizada pelo personagem que descobriu Lurdes Mutola: José Craveirinha! A nível interno, ganhou tudo e ainda é o recordista nacional do decatlo e do salto à vara. 

 

Estava-se a uma semana dos Campeonatos de Atletismo de 1968. Antóno Matos, “Tau”, o treinador do Desportivo, não sabia o que fazer para lançar alguém que conquistasse os três pontos do terceiro lugar que, pelas suas contas, lhe garantiriam o título. Na altura, a rivalidade com o Sporting e o Ferroviário era enorme. Vários novatos se candidataram à experiência, sem conseguirem pular acima dos dois metros. “Posso experimentar”, a voz, tímida, vinha do Cândido Coelho, ainda nos seus verdes 16 anos. Ele era ponta-de-lança dos “alvi-negros” mas, no defeso do futebol, ajudava a equipa de atletismo a amealhar pontos nas corridas. Uma dura vara de alumínio foi entregue ao jovem que antes apenas havia tido experiências, com varapaus de bamboo, longe das pistas. A fasquia foi colocada em 1.80 metro. Facilmente a transpôs. Depois… foi voando, voando, qual imperador das alturas, até ser obrigado a parar, após ultrapassar os 2.80 metros. “Vou ser campeão”, gritava o “Tau”, feliz pela descoberta. Depois mandou parar as tentativas, não fosse o jovem lesionar-se. Nessa semana, já em competição, Cândido Coelho pulou três metros na primeira aparição no salto à vara.

 

Estava descoberto um dos maiores atletas da especialidade, detentor de um recorde até aos dias que correm. Futebol ou atletismo? No defeso do desporto-rei, divertia-se a “pulverizar” recordes do atletismo, surpreendendo tudo e todos, em várias especialidades. Só que, após mostrar as suas qualidades, no reinício da época de futebol, estalou a “bronca”: por qual das modalidades iria optar, se brilhava em qualquer delas? Craveirinha aconselhou-o a seguir o atletismo. Pôs as cartas na mesa desta maneira: se com tão escassos treinos os resultados eram aqueles, até onde poderia ir quando devidamente preparado? Tudo foi acontecendo à velocidade de um meteoro. Até que… Decorria o ano de 1972 em em pleno serviço militar no Norte do País, Cândido vem de férias a Lourenço Marques. Realiza algumas provas, apesar há mais de um ano fora das pistas. No salto em altura pulou 1,93 metro que passou a ser o recorde de Moçambique. Noutras provas as boas marcas de sempre. Os nacionais de então iriam reunir em Lisboa as selecções das colónias, mais as representações das províncias portuguesas continentais e insulares. Craveirinha sugerelhe que integre a Selecção de Moçambique. Cândido não acede, com receio de uma punição militar, caso não regressasse ao Niassa, terminadas as férias. Encetou o regresso, penoso, que durou dois dias. Porém, espantado, e mesmo antes de descarregar as mochilas, viu o comandante da unidade que o recebia mostrar-lhe uma mensagem assinada pelo General Kaúza de Arriaga, comandante-chefe da forças armadas, a ordenar a imediata presença na capital para integrar a representação que partiria para Lisboa. Craveirinha havia “movido montanhas” para obter a autorização!

 

O inesperado reconhecimento!

Já com cabelos brancos, veio a surpresa da nomeação de Atleta do Século, ao lado de Magalhães e Mutola: – “Surpreendeu-me porque neste país, talvez por falta de cultura desportiva, o reconhecimento pelas fi guras que deram algo por Moçambique não é prática corrente. Valorizo a distinção, mas ressalvo que houve outras pessoas que tiveram grande papel e quecontinuam esquecidas”. Vai referindo: – “Todas as áreas estão pejadas de oportunistas, preocupados com tudo menos com o que interessa ao desporto. Isso condiciona o surgimento e desenvolvimento dos talentos”. E passa às comparações: – “É tão simples como isto. Num dos últimos nacionais, o primeiro lugar do salto em altura, em seniors, terminou onde eu nunca comecei: 1,65 metro. Repare que, há quase 40 anos, eu punha a fasquia em 1.75 e, às vezes, para chegar mais fresco às marcas que pretendia, colocava-a em 1.85. A minha melhor marca foi 1.93, das melhores de sempre em Moçambique. Como treinador Recordista também no futebol Possui um registo, até agora imbatível, como treinador de futebol. No ano de 1982, o Desportivo entrou em campo para o primeiro jogo da segunda volta do Nacional, levando para o campo garrafas de champanhe, em comemoração do título. Autor da proeza? Cândido Coelho. É que, antes, como que possuído por uma febre, participou em vários cursos de treinador e estágios em Portugal e Brasil. O sucesso no Desportivo não eliminou algumas confusões. Daí que tenha acedido a um convite de Mansur Daúde, de Xai-Xai, para orientar na época seguinte o Gaza que andava pelas ruas da amargura. O seu “dedo”, permitiu ganhar dois títulos provinciais, um dos quais perdido na secretaria.

 

Sangue no Tartan do Jamor

 

No Estádio do Jamor, a azáfama era visível. O seu grande adversário no decatlo – conjunto de dez provas – era o Tadeu de Feitas. O tempo para treinar era escasso. Apenas dois dias. E, para agravar, no salto em comprimento os seus sapatos de pregos abriram-lhe uma grande ferida num dedo da mão direita. O médico, face à extensão do rasgão, recomenda-lhe que não participe. Pela frente, haviam entre outras provas, o salto à vara, os lançamentos de peso e dardo, em que a mão lesionada teria que ser chamada. Deitar a toalha ao chão”, era algo que não lhe passava pela cabeça: “disse ao enfermeiro que não iria obedecer. Pedi para que me suturassem o dedo, pois iria tentar fazer o meu melhor.” Esquecendo a dor e pensando apenas em vencer, foi realizando as provas com sucesso, espantando tudo e todos. Até a si próprio. Antes da última corrida, levava já uma vantagem pontual confortável e apenas necessitava de cortar a meta, para obter a pontuação mínima: – “Foi o maior suplício da minha vida. Os 1500 metros eram a prova de que eu menos gostava. Estava cheio de febre, mas sentia que não podia desistir. A ferida sangrava e os meus calções brancos fi caram vermelhos de tanto limpar o sangue que brotava do dedo. O certo é que, após metade da prova, todo o batalhão lhe passara à frente. Exausto, perdera a capacidade de reacção. A 150 metros da meta, começou a andar aos zigue-zagues. Os colegas da delegação saltaram para a pista, quase empurrando-o para a meta. Ia meio inconsciente, mas despertou a 50 metros da meta devido aos gritos que o iam mantendo em pé. Depois… – “Fechei os olhos, aproveitei o balanço que trazia e caí para a frente, desmaiado. Estiveram quase meia-hora a reanimar-me e, quando subi ao pódio, como Campeão do decatlo, tive que ser amparado por duas pessoas”. Na sua edição do dia seguinte, o prestigiado jornal “A Bola”, tutulava: “Sangue no tartan! Cândido Coelho supera a dor!”.

 

 

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