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Pandza: Brincadeiras

A meio da tarde um sol sem esforço engonhava para o horizonte. Com o mesmo empenho bocejei, recolhi os meus pertences e alguns jornais empoeirados. Ia despegar do meu emprego de horário único, directo para casa, a passo de funcionário público.

 

Não me ocorreu nas vontades ir à barraca, lá onde brincam os adultos e convertem os seus salários para o estado líquido, por isso cheguei relati vamente cedo à minha tipo três, no prédio de elevador há muito reformado, herdada das “Nacionalizações” e da “Alienação de Imóveis”.

 

Senti a napa do sofá, quebradiça pela idade, ceder ao peso do meu refastelo e a televisão, centro da decoração, que esti vera o tempo todo a falar sozinha, parecia ter gostado da minha companhia. Tirei os jornais da axila e com um gesto mecânico ajustei os óculos no nariz transpirado.

Aproveitando a luz fortuita que espreitava para dentro da sala escura fiz-me ao jornal, mas àquela hora, com o cansaço e o conforto do sofá, veio-me um sono devagarinho, o texto ganhou ondulação, as letras começaram a pipocar e o jornal parecia um carrossel a escurecer lentamente… acordei em sobressalto assustado, quando o jornal teve de se esquivar da passagem supersónica das crianças muito entreti das nas suas tarefas lúdicas, brincadeiras.

Não as repreendi pelo susto. Acho brincar um exercício muito puro, sem o maquiavelismo dos adultos. vendo-os revisito com nostalgia os meus tempos de meninice e desculpo-lhes qualquer traquinice.

Zôtho, polícia ladrão, neca, chinguerenguere, carrinhos de arame, de rolamentos, come ti lão.., bola!… e nada daquelas coisas electrónicas com que hoje os adultos manipulam os miúdos. Brincar é uma tarefa tão importante para a criança como trabalhar é para o adulto. Nenhum adulto sabe brincar mas vive impondo brinquedos às crianças, eu deixo-as livres, a inventarem seus próprios.

Voltei ao jornal, e caí as costas para o resfastelo do sofá. A TV conti – nuava a falar sozinha. Quase me veio de novo o sono quando a prudência chamou por mim e fui policiar o barulho e a agitação no quarto onde brincavam.

Abri a porta dividido entre repreendê-los e admirar o espectáculo de criati vidade que se me expunha. Livros, pequenas caixas e latas, embalagens de coisas que ti nham sido de uso domésti co, alinhados no quadriculado do parqué perfaziam grupos rectangulares e pareciam autênti cos quarteirões.

Pequenas pedrinhas eram pessoas esparsas pela cidade e chinelinhos eram carros, circulando entre os quarteiros. Mais adiante um aglomerado de pessoas, digo pedrinhas, dentro do meu sapato novo, aquele que só calço quando visto o fato.

– Não, não brinquem com sapatos.

– É chapa papá. Está cheio…

Sei que brincar potencia o desenvolvimento, brincando aprendem a conhecer, a fazer, a conviver, a ser… sei que as criança precisam de ter tempo e espaço próprios para brincarem, sei que é a brincar que aprendem o que mais ninguém lhes pode ensinar, mas os meus sapatos novos não!

Voltei ao sofá, e a TV conti nuava a falar sozinha, no jornal as letras voltaram àquela ondulação, ora parecendo minhocas ora formiga, e entrei naquele parafuso estonteante de princípio de sono.

Um cheiro forte a fumo e o barulho das crianças tossindo acordoume. Um fumo facilmente reconhecível: cigarros!! Não, cigarros não. As crianças não devem brincar coisas de adultos.

Abri a porta bruscamente com autoridade paterna e levei com um bafo intenso a nicoti – na. Tive de recuar tossindo para me aliviar e recuperar fôlego. Se até a mim fazia tão mal que dizer daqueles pulmõezinhos.

Olhei para toda a extensão do quarto, aquela brincadeira que há pouco era um hino para a criati vidade ti nha evoluído para um exagerado cenário de caos infantil. No chão havia fios de areia que se cruzavam.

– Areia, dentro de casa?!

– É estrada papá…

A estrada ligava as casas de caixinha e a maior ia até ao canto mais distante do quarto onde muitos cigarros fumegavam. Tossi antes de lhes repreender.

– O que é isto? Cigarros não! Cigarros não!

Ia decidido a dar-lhes uma tareia mas em vez disso protegi-as do mundo adulto enfumaçado. Apanhei um susto que quase caí quando me justi ficaram tossindo:

– Ali é Mozal papá.

– …!!!

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