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Boxe: Academia Paulo Jorge vítima da burocracia do Estado

Uma das referências do boxe moçambicano nas décadas de 80 e 90, Paulo Jorge, decidiu, em 2009, fundar uma academia de boxe para transmitir os conhecimentos adquiridos ao longo dos anos nesta modalidade. Contudo, apesar da vontade e do primeiro passo dado, que foi o de oficializar a mesma, aquele antigo pugilista, que nesta semana concedeu uma entrevista ao @Verdade, não teve apoio por parte do Ministério da Juventude e Desportos, mesmo depois de ter rubricado um memorando de entendimento com aquela instituição governamental.

@Verdade – Quando é que foi fundada a Academia de Boxe Paulo Jorge e quais eram os objectivos?

Paulo Jorge – A Academia de Boxe Paulo Jorge foi fundada em 2009, mas oficializada a 3 de Maio de 2010, com o objectivo de formar e capacitar atletas de boxe, bem como massificar esta modalidade a nível dos bairros da cidade de Maputo.

Desenvolve actividades no âmbito da descoberta de novos talentos e formação técnica dos mesmos; da organização de torneios de rodagem; da participação, como equipa, nos campeonatos organizados pela Federação Moçambicana de Boxe (FMBoxe) e pela Associação de Boxe da Cidade de Maputo; da capacitação de treinadores e juízes; e da organização de palestras e seminários ligados à importância deste tipo de desporto na saúde pública.

@V – Como é que fundou a academia?

PJ – Depois de me ter formado como treinador de boxe, passei a trabalhar com a selecção nacional como técnico-adjunto no Parque dos Continuadores. No entanto, estranhamente, convidaram- me a renunciar ao cargo para ceder o lugar a Paulo Sinóia visto que, segundo o Comité Olímpico, ele tinha mais qualidades do que eu.

Deste modo, decidi então abrir a minha academia com vista a dar continuidade ao meu trabalho de formar pugilistas. Não contei com o auxílio de ninguém, visto que quando fui ao Ministério da Juventude e Desportos (MJD) e ao próprio Comité Olímpico, na altura, disseram-me que não reunia requisitos para obter apoio.

@V – Que requisitos?

PJ – Disseram-me que devia oficializar a academia para que pudesse beneficiar do apoio do Fundo de Promoção Desportiva (FPD). Esforcei-me e consegui. Mas quando voltei ao MJD obtive, novamente, uma resposta negativa.

@V – Qual foi a alegação? PJ – Ter espaço próprio.

@V – Onde é que funcionava na altura a academia? PJ – Em instalações alugadas na Praça de Touros. Um local onde formei grande parte dos pugilistas que representam Moçambique hoje em várias competições internacionais. Quando chegou a hora da mudança, que curiosamente culminou com o período em que se anunciou a destruição daquele espaço, sendo que nós ainda não tínhamos encontrado um outro alternativo, perdi muitos atletas.

Mas, o que mais me entristeceu foi quando a Comissão Técnica da FMBoxe decidiu retirar o equipamento que adquiri com os meus próprios meios, alegadamente porque a selecção nacional não tinha nada durante a preparação para os Jogos Africanos de 2011.

@V – E não fez nada para contestar essa medida?

PJ – O que mais devia fazer senão chorar? Tentei ir atrás dos atletas mas todos eles exigiram-me subsídios para continuar na academia, o que me deixou ainda mais triste.

@V – Pensou em desistir do boxe?

PJ – Obviamente!

@V – E o que aconteceu para não abdicar do projecto?

PJ – Depois da sabotagem, tive de refazer a academia. Fui à minha casa, no bairro do Chamanculo, e usei o meu quintal para construir um novo ginásio. Fui ao MJD pedir uma audiência com o ministro. Ele recebeu-me, ouviu as minhas inquietações e a seguir aconselhou-me a criar, em papel, um projecto de formação e massificação do boxe. Fiz e foi aprovado, esperando apenas por financiamento.

@V – E recebeu o financiamento?

PJ – Depois da aprovação do projecto, o director nacional de Desportos, na altura António Munguambe, disponibilizou-me um monitor para que pudesse acompanhar no terreno a efectivação do projecto. Não houve financiamento e o referido monitor, na altura, segredou-me que eu não devia fazer pressão pois o ministro com quem falei, na altura Pedrito Caetano, estava de saída e que todos os dossiers podiam ser revistos.

Passado algum tempo, ele foi exonerado e fiquei sem o monitor. As coisas tornaram-se ainda mais complicadas e fiquei à deriva. Mesmo os poucos atletas que tinha na altura, refiro-me ao ano passado, perdi-os por falta de condições.

@V – Sentiu-se sabotado?

PJ – A sabotagem contra a Academia Paulo Jorge até hoje persiste, sobretudo pela Comissão Técnica da FMBoxe.

@V – O que a Comissão Técnica faz contra a Academia Paulo Jorge?

PJ – O Governo, logo depois dos Jogos Africanos, ofereceu apoio aos clubes e às academias através do FMBoxe. A Academia Paulo Jorge, por sua vez, tinha de levantar um equipamento no valor de 140 mil meticais. No entanto, quando a federação soube que eu tinha esse privilégio, levou o material desportivo e foi deixá-lo numa loja, esta que, por sua vez, praticou preços especulativos, ou seja, um artigo que custava 1200 meticais, por exemplo, passou a custar 3700, o que reduziu a minha capacidade de compra.

@V – Não reclamou?

PJ – Fui reclamar e inclusive pedi para que me dessem os 140 mil meticais para adquirir equipamento desportivo num outro sítio. Mas logo a seguir fui ameaçado. Disseram, na altura, que se quisesse continuar com a academia eu devia adequar-me às condições por eles impostas. O próprio presidente Caldeira, na altura, disse-me que eu devia abandonar o boxe e procurar um outro emprego porque, se persistisse, eu podia sofrer represálias.

@V – Acha por isso que o problema é Paulo Jorge?

PJ – Parece que sim. Lembro-me de que, no ano passado, veio uma equipa de produção de filmes que precisava de pugilistas moçambicanos experientes. Felizmente fui convidado mas, no dia em que ia receber a credencial para participar nas gravações, um dos produtores, que não era moçambicano, disse que eu não era o Paulo Jorge e que os documentos que eu apresentei eram todos falsos.

@V – Neste momento a academia está a funcionar?

PJ – Estamos a trabalhar no meio de muitas dificuldades. Vamos formando atletas que depois de um, ou dois anos, fogem por falta de subsídios. Por vezes são os próprios pais que obrigam os pugilistas a saírem da academia porque não vêm nenhum rendimento. Há vezes em que são os outros clubes que os convencem a abandonar, prometendo salários e viagens para o estrangeiro. Já há dois anos que não competimos, quer em torneios da cidade, quer em nacionais por falta de condições. Não temos sequer um ringue para praticar a modalidade.

@V – A Academia Paulo Jorge trabalha com quantos pugilistas neste momento?

PJ – Para as competições temos seis. Nos escalões de formação temos um total de 53.

“Precisamos de ajuda”

@V – Quais são as reais necessidades da Academia Paulo Jorge?

PJ – Nós precisamos de financiamento para o funcionamento pleno da nossa academia. Queremos, por outro lado, ter o mesmo apoio que o Governo cede a todas as outras academias. E, mais do que isso, queremos o respeito pelos regulamentos desportivos, visto que grande parte dos atletas que hoje representam Moçambique saiu da nossa academia e foram contratados por outros clubes depois de comprovado o talento, sem nenhum benefício para nós. É preciso que todos percebam que nós estamos a trabalhar para o desenvolvimento do boxe em Moçambique.

@V – Depois da mudança de ministro, foram de novo ao MJD?

PJ – Como tinha dito o monitor, os projectos que estavam nas mãos do anterior ministro, o Pedrito Caetano, seriam revistos. Voltámos e a primeira coisa que conseguimos lá foi assinar um memorando de entendimento com o Instituto Nacional de Desportos que prevê a disponibilização de apoio técnico e material por parte daquela instituição subordinada ao MJD, para a realização das actividades programadas para o ano de 2013. Todavia, para a materialização desse acordo, mandaram-nos elaborar um pedido de apoio detalhado.

@V – Quem tratou deste assunto?

PJ – O próprio António Munguambe, na qualidade de presidente do Instituto Nacional do Desporto.

@V – Fizeram o pedido?

PJ – Fizemos e remetemos o pedido para a análise. Mas não tivemos resposta satisfatória: ora porque o documento sumiu; ora porque faltam detalhes; ora porque o documento não serve.

@V – E qual foi, a seguir, o procedimento?

PJ – Pedimos um modelo para elaborar a carta mas, quando entregámos, tempo depois, a resposta foi a mesma: faltam detalhes. Mesmo depois de seguir o protótipo que eles mesmo nos ofereceram. Este cenário só demonstra falta de vontade por parte de algumas pessoas que estão no Ministério de apoiar a Academia Paulo Jorge.

@V – Quanto dinheiro precisa o Paulo Jorge para desenvolver as suas actividades?

PJ – Nós pedimos um financiamento anual de 179 mil meticais.

@V – Não é muito dinheiro?

PJ – Nós estamos para servir o país. Se for muito dinheiro, então que haja sensatez por parte do MJD para nos alertar, em vez de nos mandar elaborar documentos que no fim do dia não servem. Houve um dia, inclusive, depois de muita insistência, que António Munguambe perguntou-me: o que você tem que vale 200 mil meticais na vida? Ora, uma ofensa grosseira.

Então porque é que rubricou o memorando? Ele não é o presidente do Instituto Nacional do Desporto? Nós somos uma academia legal e reconhecida pelo próprio MJD. Queremos trabalhar para o desenvolvimento do boxe em Moçambique.

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