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Bitonga Blues – Um perfume suave no escuro e um cheiro a sovaco, também no escuro

O medo não existe, é uma invenção do homem, para não fazer aquilo que deve fazer´. Desconhecido

Da terminal dos “chapas” para a casa onde eu moro – intermitentemente sozinho –, e em que me sinto bem, no bairro T3, são cerca de trezentos metros. É uma distância que por vezes se torna penosa, particularmente quando apanho o último carro dos TPM, que chega à minha zona residencial, geralmente, depois da meianoite.

Será nesses momentos que me vou lembrar daquela mulher que vive no deserto, a qual nos disse, um dia, a todos, que o medo não existe, é uma invenção do homem para não fazer aquilo que deve fazer. É isso: nesse dia o medo tinha recebido autorização para cair completamente sobre mim, com ordens expressas para esmagar todo o meu espírito e lembrar-me de que, afinal de contas, não tenho testículos.

Quando o autocarro abandonou a terminal do Museu, na cidade de Maputo, fazia muito frio, mas o céu sorria, libertando as estrelas e a lua cheia, que acabava de se levantar da nascente, mostrandonos, na plenitude, toda a sua nobreza. E eu não me vou importar com a temperatura baixa que se faz sentir, pois trago vestida uma camisola grossa e confortável.

Espreito – pelo vidro das janelas do autocarro – lá fora, e vejo algumas pessoas que se movimentam com os corpos meio curvados para a frente e os braços cruzados sobre o peito, atravessando a estrada ou movimentando-se ao longo dos passeios. Uns estão bem agasalhados, mas outros apenas envergam uma camisa leve, desafiando o tempo. Estou recostado num dos bancos incómodos de fibra, instalados no interior do machimbombo que nos transporta. Estamos todos sentados e, nas paragens, quase que não entra ninguém, o que me faz esquecer, momentaneamente, que estou numa cidade cada vez mais infernal.

Nas varandas dos prédios não consigo ver nenhum guarda. Eles estarão escondidos, provavelmente, por debaixo das escadas ou enfiados nos pequenos cubículos onde, geralmente, se abrigam de tudo. Na varanda do Cine-África observo um grupo de meninos de rua que se unem como um cacho de bananas, e dormem um sono profundo, cobrindo os seus próprios corpos, como se tudo aquilo fosse normal. Está a fazer frio de verdade, mas eu estou bem agasalhado. Viajo tranquilo por dois motivos: o condutor guia a sua máquina com prudência e a outra satisfação é que não está ninguém no corredor para nos importunar com os encostões sempre desagradáveis.

Os carros que alagam terrivelmente as estradas durante o dia e princípios de noite estão estacionados, a maior parte deles de forma contraproducente, permitindo que o autocarro seja, na verdade, o rei da estrada e da noite. Rolamos sem obstáculos até agora em que já estamos na terminal do meu bairro. Passa da meia-noite e eu vou descer. Sondei todos os lados para ver se alguém caminharia na mesma direcção que a minha. Nada! Parei durante alguns instantes a ver se podia aparecer vivalma a ir para aqueles lados, viesse de onde viesse.

Também nada! Então decidi avançar deixando a minha vida ao cuidado de Deus. Embrenhei-me na escuridão e, antes de caminhar os primeiros cem metros, senti um perfume suave que parecia ser emanado por uma pessoa que vinha atrás de mim. Virei e não vi ninguém. Tremi de medo de alto a baixo. Fiz as contas e entrei num dilema: voltar para trás ou continuar? Voltar para trás ou continuar? Era melhor continuar porque se for para acontecer algo, pode acontecer nos dois sentidos. É isso: o medo que me assolou tornou-me – apesar de estar a fazer muito frio – numa albufeira: libertava suores frios de cima a baixo, sem saber o que fazer, mas continuei a andar, sentindo o perfume que se aproximava cada vez mais de mim e eu não via ninguém. Era lua cheia mas eu não via ninguém.

Parecia que ia morrer, mesmo assim continuei a caminhar, resoluto, deixando a minha vida ao cuidado de Deus. Qual não foi o meu espanto!? Quando abri o portão do quintal da casa onde eu moro, o perfume desapareceu, e ficou um forte cheiro a sovaco, que foi desaparecendo também, lentamente, como se uma pessoa estivesse a caminhar para além de mim,

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