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Biebermania

Biebermania

Há uma nova febre a enlouquecer os mais novos. Chama-se Justin Bieber, o rapaz-sensação que canta, dança e até protagoniza filme. Aos 17 anos, movimenta milhões – de miúdas e de dólares.

Os títulos acumulam-se. Mas já nem é só isso. Há também perguntas cada vez maiores. Será ele o novo Michael Jackson? Ou um Mozart dos tempos modernos, provada que está a exuberância de predicados naturais e ainda tanta energia, criatividade, coordenação de movimentos, naturalidade, poder vocal e estilo?

Se calhar, não é nada disso. Porventura, estamos outra vez na presença de mais um sabor da estação, coisa passageira que vai acabar num glorioso esquecimento. Ou talvez não passe de um it boy, daqueles verdadeiramente gigantescos, como se a voltagem eléctrica dos Beatles se apresentasse de repente em versão 2.0 e concentrada numa só pessoa.

Seja como for, o fenómeno Bieber é, sem dúvida, extraordinário. Fez agora 17 anos e é a primeira estrela global do universo do entretenimento que conseguiu saltar directamente do quarto de dormir, em pijama, para um estatuto que lhe exige força de segurança onde quer que vá.

Vende música como, actualmente, já não se pensava possível (em menos de ano e meio, Justin Bieber providenciou à indústria da música vendas que ascenderam aos 10 milhões de álbuns). O filme dele, “Never Say Never”, que estreia recentemente, fez 22 milhões de dólares no primeiro fim-de-semana em que estreou nas salas de cinema americanas.

Há uma linha de verniz para as unhas com o seu nome, isso e outros 100 produtos que voaram das lojas durante o Natal. Na prateleira dos bonecos, faz concorrência ao Harry Potter e à Barbie.

Na questão da fé e liderança, isso é domínio em que o adolescente sempre conseguiu mover montanhas: 7 milhões de seguidores no Twitter e, como seria natural, secções só dele nas redes sociais – de maneira a que o tráfego de maior caudal seja encaminhado regularmente sem se perder por outras realidades de menor importância.

Foi a mãe quem o criou sozinha, o pai Jeremy Bieber saiu de casa quando Justin ainda era bebé. Em 2007, quando o garoto tinha 12 anos e no seguimento de um serãozinho musical no liceu, a mãe, Pattie Mallette, senhora radiante, honesta e cristã que costumava aconselhar-se junto do clero local quando lhe ocorriam os maiores dilemas, captou imagens do filho a cantar de frente para a plateia e colocou tudo na Internet.

Só para que o resto da família pudesse ver. Em poucos meses e como se tivesse ganho foros de aparição, o filho transformou-se numa das 100 personalidades mais vistas na Net no mundo. Com a ajuda exterior e um toque empresarial de génio, tornouse um fenómeno humano.

Em 2010, Bieber terá auferido cerca de 120 milhões de dólares em salários, patrocínios, direitos de autor, vendas de livros, convites para espicaçar as audiências televisivas e, em jeito de coroação instantânea, concertos esgotados na catedral nova-iorquina do espectáculo ao vivo, o Madison Square Garden.

Quem tiver sucumbido à Bieber Fever pode ainda coleccionar jogos de brincar no chão da sala, puzzles vários, vídeos avulsos, louça de papel para ajudar na festa de qualquer aniversariante de palmo e meio, t-shirts, relógios e outros produtos que, somados, ascendem acima da centena.

Se para si, até hoje, as palavras Justin Bieber eram apenas mais uma expressão estrangeira, comecemos por aqui: Justin Bieber tem o poder de desencadear distúrbios só por desembarcar num aeroporto. Onde quer que o avião aterre, como se o menino estivesse dotado de uma alma magnética de super-herói júnior, de todos os lados aparecem criaturas aos guinchos chamadas tweens.

Não são nem crianças nem teenagers ainda, mas algo híbrido entre o afecto infantil de coração aberto e o despoletar de hormonas que se descobriram no momento em que um boneco chamado Bieber surgiu no radar.

O Justin adora. “Como é que eu me sinto de cada vez que as meninas me tocam? Não me importo nada”, disse ele, como se os seus desfi les triunfais fossem passeios no jardim. O grupo crescente de meninas, algumas delas adolescentes, mas outras já mães de família, são conhecidas como beliebers.

Um talento made in YouTube

Sendo canadiano e uma autêntica esponja verbal, Justin Bieber fala francês. Para o público anglófono, isso é uma espécie de cereja extra. Foi descoberto por um caçador de talentos chamado Scooter Braun, um jovem de 29 anos com um espírito de empreendimento judaico que começou por inquietar a mãe daquele que estava quase a ser o novo, novíssimo teen idol.

Directamente de Stratford, província de Ontário, um sitiozinho do Canadá com cerca de 30 mil habitantes, o menino apareceu com cabelo aparentemente penteado pelo vento. Nos vídeos surgia superdotado e com uma voz de mel, cheia de alma, de facto um conjunto perfeito para as imagens que hoje são indispensáveis à propagação de qualquer música, carreira ou negócio. Cantava em frente ao espelho, na casa de banho, para os colegas, em todo o lado.

Cantava na rua, nos degraus do cinema, com a caixa da guitarra ali à frente para que os passeantes fossem atirando moedas. Até que a luz desta pepita foi captada pela lente apurada de Braun, um senhor treinado pela So So Def Recordings, de Atlanta, e que tinha por hábito auscultar a feira da ladra dos talentosos em que se transformou a Internet. Foi ali que o menino canadiano lhe saltou à vista.

Cantava o tema ‘So-Sick’, de Ne-Yo. Foi com espanto que ouviu a interpretação. E não descansou enquanto não descobriu a escola frequentada por aquele dez réis de gente.

Quase que perseguiu ilegalmente o menor. E a mãe. Queria trazê-los à força para Atlanta, para um estúdio a sério, de maneira a que os patrões das novas tendências musicais pudessem ouvir o querubim de viva voz.

E não é que o miúdo teve o desplante de desafi ar a chefi a logo ali? É verdade. Afastando para o lado a sugestão cautelosa do agente, pediu a Raymond Usher, um nome sonante descoberto aos 14 anos, que ouvisse a sua versão do tema ‘U Got It Bad’ que o próprio Usher tinha elevado ao cimo das tabelas de vendas. Descaramento.

Dias depois, Justin e a mãe regressavam ao Canadá em cabina de primeira classe, com um contrato milionário no bolso. “Travar conhecimento com um talento desta magnitude é uma daquelas experiências que só temos uma vez na vida. Olhei para ele e vi logo que as miúdas iam gostar. Depois, com aquela voz. Puxa! Percebi imediatamente que, se um talento assim fosse acarinhado e conduzido com cuidado, as possibilidades passavam a ser ilimitadas”, disse Usher recentemente.

Com mais de três milhões de hits no YouTube feitos de vídeos, canções, interpretações, o corpo a mexer-se, uma voz de ouro e, sim, também aquele corte de cabelo, Justin Bieber está transformado não só no príncipe encantado dos novos media como, talvez mais importante, no messias que vem ressuscitar a indústria da música e a graciosidade da juventude cristã.

Na produção discográfica de estreia, sete dos temas chegaram ao top das canções pop, um recorde absoluto. O seu poder é tanto que, no calendário, tem agendados concertos com as maiores figuras da música.

A carreira continua a ser conduzida por um dos produtores mais respeitados da indústria discográfi ca, L.A. Reid, o homem que pôs Atlanta no roteiro das novas tendências musicais e que continua por trás das carreiras de Mariah Carey, Rihanna e Jennifer Lopez.

A primeira digressão mundial de Bieber vai começar já no início da Primavera, reforçada que está a sua dominância da cena cultural juvenil após o sucesso do “Never Say Never”, um filme que só custou 13 milhões de dólares e que já vai nos 60 milhões de receitas domésticas. Os mercados estrangeiros vão duplicar, pelo menos, esta soma…

Um bom menino

O seu maior triunfo, no ano que passou, foi ter tirado boas notas. Na música, a mensagem parece ser portentosa na sua simplicidade: “Eu, Bieber, estou aqui para provar a todas as beliebers que o mais importante é acreditarmos em nós mesmos.

Desistir não é opção”. Infelizmente, no território amoroso, a cena é mais complicada na sua instabilidade. Não se sabe se a raiva vem das franjas ultracristãs, que vêem o miúdo como diabólico ou, pelo menos, perdido temporariamente para a perversão dos costumes. É necessária uma cruzada, exortam eles.

Para os cristãos renascidos, Bieber precisa de ver a luz e regressar às origens, dizer mais vezes nas entrevistas que a interrupção voluntária da gravidez é um crime porque, mesmo no caso de uma mulher violada, “há coisas que acontecem por razões que desconhecemos”.

Não é com bons olhos que a franja radical cristã olha para uma capa de revista e depara com o anjo loiro de Stratford agarrado a Kim Kardashian.

A ela ou às meninas com quem ele, vestido de bling bling como se fosse rookie de um gangue de Los Angeles que acabou de metralhar a vizinhança, dança nos vídeos mais vistos pelas futuras herdeiras da América.

Acima de tudo, a vida amorosa complicada acontece porque Justin já revelou um fraquinho pela actriz e cantora Selena Gomez. Tanto ela como Kim Kardashian receberam ameaças de morte, tanta é a inveja ou a estridência de quem vê no garoto um inocente a ser puxado pelas forças do mal.

Seja como for, as tendências de Bieber parecem ser tão multiculturais e panraciais como as multidões de garotas que não podem viver sem ele. Quanto aos sutiãs que as moças mais velhas atiram para o palco, mesmo os que vêm com números de telefone, acabam no caixote do lixo. Justin Bieber nunca namoraria com uma menina assim.

“Quero ao meu lado uma menina com classe”, afirmou com mais uma gargalhada natural. Nos tempos livres, dorme, vê filmes. Não é adepto de jogos de vídeo. “A minha vida já é suficientemente jogo de vídeo.”

A mãe costumava cantar num grupo lá da igreja. O preceptor viaja com ele, na cadeira ao lado. Justin Bieber estuda três horas por dia, 15 horas por semana.

“Mas tem de ser. Por vezes custa, depois de um dia de trabalho, ainda ter de enfrentar um professor durante três horas. Deus queira que não aconteça nada de grave. Mas nunca se sabe. É sempre boa ideia investir na educação.” Nada mal, pelo menos para alguém que não seguiu o percurso habitual.

Bieber não nasceu da máquina de produção da Disney. Não é apenas um apêndice de um desenho animado que começou por aparecer no Nickleodeon. É o primeiro a romper a barreira vindo do YouTube. Apareceu porque era um talento com substância, versatilidade, movimento, precocidade. Tinha de ser descoberto. Provou que era superior ao sistema estabelecido. Mas, mesmo assim, isso nem sempre foi óbvio. Bieber também passou por uma fase em que ninguém acreditou nele.

Até os donos da RCA Arista, responsáveis por duas invasões da música popular graças aos miúdos do grupo Backstreet Boyz e, mais tarde, às provocações sexuais de Britney Spears, acharam que Bieber era excessivamente novo ou demasiado cru para ser atirado às massas. Naquele tempo, toda a gente lhe dizia que, primeiro, devia ir falar com a MTV, a ver se conseguia reunir fãs de base antes de tentar um passo maior que a perna. Justin Timberlake também estava interessado. Mas ninguém queria arriscar.

E também foi descoberto porque, em parte, Bieber não aceitaria a alternativa. Basta ver a força de tanto ânimo quando era muito miúdo e tocava bateria. Imparável. Tinha mesmo de começar por cima.

Quanto às perguntas antigas sobre se ele é apenas mais uma versão genial de uma dessas vozes musicais que só acontece uma vez em cada século, Bieber, o grande, declara:

“A música é que é a grande linguagem universal. Música é música. Quando tento antever o futuro, só me vejo como tendo identidade própria. Quero ser um artista aparte. Não quero ser conhecido por associação. No mundo só pode existir um Michael Jackson. Só pode existir um Mozart. E só pode existir alguém como eu. Só pode haver um exemplo de cada pessoa. A única coisa que quero é ser eu mesmo. Isso e fazer boa música. E tentar infl uenciar as pessoas pelo bem.”

O único segredo do cabelo é um sal marinho. Como se Bieber fosse baptizado todos os dias! Fica desvendado o mistério. Este ano, Justin Bieber vai comprar um apartamento para a mãe, talvez em Nashville, porque é lá que ela tem muitos amigos e, ainda melhor, uma igreja onde se sente muito bem. O livro predilecto dele continua a ser a Bíblia.

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