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Alberto Mhula: “Estou Pendurado!”

Alberto Mhula: “Estou Pendurado!”

Aos 76 anos de idade, o músico Alberto Mhula, ou simplesmente Manjacaziano, vive ao deus-dará. Depois de sobreviver a um atropelamento que quase lhe tirou a vida, hoje o artista luta para se manter vivo e cumprir um sonho: realizar o espectáculo de comemoração dos seus 68 anos de carreira. Abandonado à sua própria sorte, sem esperança e tão-pouco apoio dos mais próximos, Mhula afirma: “Estou pendurado e não sei se vou viver mais anos”, enquanto as suas condições de vida se definham diariamente.

Em Outubro de 2010, Alberto Mhula saiu de casa para mais um dia de “caça ao patrocínio” para a realização da festa de homenagem alusivo aos 76 anos de vida e 68 de carreira.

Desta vez, o destino era empresa a MOGÁS, situada na Avenida de Moçambique, a escassos metros do bairro da Unidade 7, algures em Maputo, onde reside. A peregrinação de angariação de fundos junto das empresas privadas e instituições governamentais já era habitual.

Mas naquele dia o seu destino estava traçado. Mhula regressava à casa depois de terminada mais uma longa jornada de pedido de apoio quando foi colhido por uma viatura no momento em que atravessava a rua, tendo perdido os sentidos de imediato. O músico não se lembra como tudo aconteceu. “Foi tudo muito rápido e só me lembro de ter acordado no hospital”, conta.

Foi levado ao Hospital Central de Maputo onde ficou internado até Fevereiro deste ano. Estava, assim, comprometida a sua cerimónia de homenagem, que, em princípio, seria no mês de Dezembro.

Presentemente, com 76 anos de idade – 68 dos quais dedicados à música -, Alberto Mhula que em tempos idos movimentou uma legião de fãs, tanto em solo pátrio como em alguns países da Europa, rende-se aos efeitos da pobreza, velhice e doença. Aliás, o músico é um exemplo bem acabado de uma pessoa em situação de abandono a que é votado o idoso no país.

Os últimos dias de vida de Mhula têm sido uma metáfora de inferno. Passa por todo o tipo de privações. Não se lembra da última vez que sorriu, até porque, diz, já não tem motivos para tal. “Só fui bem tratado no hospital onde alguns amigos, familiares e fãs me vieram visitar”, comenta numa voz trémula de quem cuja vida já não faz sentido.

O eterno abandonado

Mhula não só se viu abandonado pela sociedade. Também a organização “Festival da Marrabenta”, o evento no qual era um dos principais convidados, deixou-o à sua própria sorte. “Compreendendo a gravidade da minha situação, o director do Festival, Paulo David Sithoe, disse que não era preciso que me sacrificasse para actuar. Mas se o meu grupo quisesse assistir ao evento poderia, já que não haveria nenhuma restrição”, diz o decano.

O Manjacaziano, como é conhecido no universo da música, havia recebido a promesa de que uma parte da receita do “Festival da Marrabenta” reverteria a seu favor a fim de ele tratar da saúde. “No entanto, eu ainda não tive acesso a tal dinheiro. E não posso deslocarme até a Casa Velha, onde se encontra o seu escritório, para falar do assunto”, desabafa.

Quando questionado sobre se havia sido contactado pelos organizadores do “Festival da Marrabenta” depois de receber alta em Fevereiro último, Alberto Mhula ripostou: “ainda ninguém me contactou. De qualquer modo, era necessário que eu tivesse um carro para me deslocar até à Casa Velha. Penso que talvez me fosse útil ter o dinheiro do festival, no entanto, não tenho como acedê- lo”.

O @Verdade procurou os membros ligados à organização do “Festival da Marrabenta” a fim de perceber as razões que ditaram a não entrega dos valores que foram prometidos a Mhula. O director do evento justificou-se afirmando que “foi uma falha que resultou do acúmulo de actividades que se observa na Logaritimo Produções”. No mesmo dia, a Logaritimo prontificou-se em reparar o erro comprando-lhe, entre outros artigos, uma cadeira de rodas.

O artista, cujas condições de vida e saúde se vão deteriorando diariamente, não esconde a sua mágoa devido ao esquecimento a que tem sido votado. Visivelmente agastado e com o corpo a atrofiar-se, ele afirma que “estou muito mal e chateado porque, uma vez doente e sem dinheiro, não posso deslocar- me a lado nenhum”.

Num país em que a disfunção da política cultural é agravada pela aparente falta de sensibilidade dos nossos empresários, é preciso criar estratégias para fazer face a este mal. Foi nesta ordem de ideias que decano Mhula decidiu “suplicar” pessoalmente por apoios para a celebração das referidas efemérides , como forma de quebrar a insensibilidade.

“Domingos Macamo, secretário- geral da Associação de Músicos Moçambicanos, disse-me que o pedido de apoio não devia ser feito por uma outra pessoa, a não ser eu. Que era importante que fosse eu, pessoalmente, a remeter as cartas para que, em função da minha idade e da minha situação, respondessem favoravelmente. Portanto, foi uma estratégia”, conta.

Contornada ou não a insensibilidade do empresariado, o facto é que agora o mestre está paralisado. Mas ele prefere dizer: “estou pendurado”. Pior ainda que a falta de dinheiro para se deslocar até ao hospital e cumprir com as recomendações do médico é o facto de Adélio, o jovem que o atropelou, não cumprir com as suas responsabilidades. Mhula devia ter ido ao hospital no dia 16 de Março – o que não aconteceu – e, consequentemente, os agentes da Saúde adiaram a consulta para 11 de Maio.

Viver sem comida e luz

O futuro de Mhula é uma miragem, facto que faz com que o artista não pense em si e tãopouco possa fazer planos. “O evento de celebração da minha carreira está estagnado porque tudo depende do meu estado de saúde”, diz o músico, cujo quotidiano tem sido uma prova de resistência humana.

Passa dias sem ter o que comer, pois depende do que o seu sobrinho consegue nos biscates que faz. “Estou a passar mal porque, apesar de viver com o meu sobrinho, ele nem sempre consegue biscates. Há vezes que passamos dois a três dias sem comer”. E vive às escuras, pois a corrente eléctrica foi-lhe cortada, logo após ter sido descoberta a ligação clandestina.

A cada dia que se levanta, os seus sonhos e projectos vão perdendo brilho. A esperança de um milagre há muito que já se foi restando-lhe apenas esperar o que o dia de amanhã lhe reserva: “a minha existência está a ser colocada em causa”. Sem informação do que está a acontecer no país e no mundo, Mhula vive a dor do isolamento.

Por onde andam os amigos?

A doença está a fragilizar o seu corpo e a alma. O sorriso nos lábios perece porque, ao longo dos anos fez inúmeras amizades e hoje, num momento em que mais precisa de apoio, os amigos desapareceram.

“Nenhum amigo me visitou ou procurou saber do meu estado de saúde. A única pessoa que veio, em finais do ano passado, foi o Alberto Mutcheka cumprindo ordens do Presidente da República para me convidar à festa do fim do ano na Presidência. Na altura, eu estava internado”. Penso que se o mundo se recordasse das alegrias que lhe proporcionei, e as tomasse em consideração, talvez melhorasse a perspectiva com que me olha”, desabafa.

Sem amigos, a vida deixou de fazer sentido para Mhula. “Não sei se vou viver até o final deste ano. Na condição em que me encontro, as suas perguntas sobre se participarei no evento de Junho com os meus projectos não fazem sentido. Se eu encontrasse alguém que me curasse talvez reassumisse que tenho vida. Não fui à última consulta (marcada para o dia 16 de Março). Nada faz sentido nesta vida”.

Aos 76, vovô Mhula é pai de novo

Um pouco antes de a sua esposa, Joaquina Ângelo Chau, falecer, em 2008, a família desta “oferecera” Amina Omar, uma jovem que aparenta pouco mais de 30 anos de idade, a Mhula. Mhula tomou-a por esposa, cumprindo, assim, com a tradição do Kutxinga. Tempos depois, Amina ficou grávida. Para a alegria de Mhula, em Março passado, ela teve um filho.

“Ainda não pensei no nome que vou dar ao menino, porque ainda não vi o seu rosto. Todavia, antes havia planificado que se fosse uma menina lhe atribuiria o nome de Joaquina”, afirma.

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